segunda-feira, 5 de março de 2012

SEXO ERA UMA ENCRENCA, NA ERA VITORIANA






O verdadeiro problema das camas, com certeza no período vitoriano, era serem inseparáveis da mais problemática das atividades humanas, o sexo. Dentro do casamento, o sexo era, naturalmente, por vezes necessário. Mary Wood Allen, em seu livro popular e influente What a young woman ought to know [O que uma moça deve saber], assegurava a suas jovens leitoras que era permido participar de intimidades sexuais dentro do casamento, desde que isso fosse feito "sem nenhuma partícula de desejo sexual". Acreditava-se que o humor da mãe e seus pensamentos no momento da concepção e durante toda a gravidez afetavam o feto de maneira profunda e irremediável. Os casais eram aconselhados a só ter relações sexuais quando estivessem "em total sintonia" um com o outro, por medo de gerar uma criança defeituosa.





Para evitar a excitação, de modo geral, as mulheres eram orientadas a respirar ar fresco em abundância, evitar passatempos estimulantes como ler e jogar cartas e, acima de tudo, nunca usar o cérebro mais que o estritamente necessário. Educá-las não era simplesmente um desperdício de tempo e de recursos, mas algo perigoso e mau para a sua constituição delicada. Em 1865 o autor e crítico social Jonh Ruskin opinou, em um ensaio, que as mulheres deveriam ser educadas apenas o suficiente para ter serventia prática para os cônjuges, e não mais que isso. Mesmo a americana Catherine Beecher, que pelos padrões da época era uma feminista radical, defendeu ardorosamente que as mulheres deviam ter plena igualdade de direitos quanto à educação, desde que se reconhecesse que elas precisariam de um tempo extra para arrumar o cabelo.






Para os homens, o principal problema e preocupação era não derramar nem uma gota de líquido seminal fora dos limites sagrados do matrimônio - e mesmo dentro dele, o mínimo, se fosse possível controlá-lo. Como explicou uma autoridade, o fluido seminal, quando nobremente retido no corpo, enriquece o sangue e revigora o cérebro. A consequência de descarregar ilicitamente esse elixir natural era deixar o homem enfraquecido, física e mentalmente. Assim, mesmo dentro do casamento era preciso ser frugal com os espermatozoides, pois a atividade sexual frequente produzia um esperma "lânguido", resultando em filhos apáticos. Uma relação por mês era o recomendado como o máximo para garantir a segurança.







A masturbação, ou "autoabuso", ficava fora de cogitação em todos os momentos, é claro. Suas consequências bem conhecidas abrangiam praticamente todas as condições indesejáveis conhecidas pela ciência médica, incluindo a loucura e a morte prematura. Os autopoluidores - "pobres criaturas infelizes, trêmulas, pálidas, contorcidas que rastejam sobre a terra", como descreveu um cronista - eram dignos de pena. "Cada ato de autopoluição é um terremoto - uma explosão - um golpe mortal paralítico", declarou um especialista. Os estudos de caso demonstravam vividamente os riscos. Um médico chamado Samuel Tissot relatou que um paciente seu babava continuamente, pingava sangue aguado do nariz "e defecava na cama sem perceber". As duas últlimas palavras eram particularmente terríveis.







Pior ainda: o vício do autoabuso seira automaticamente transmitido para a prole, de modo que cada incidente de prazer e perverso não só amolecia o cérebro do próprio infrator, como minava a vitalidade das gerações ainda por nascer. A análise mais completa dos riscos sexuais, e também o título mais longo, foi fornecido por sir William Acton em The functions and disorders of the reproductive organs, in childhood, youth, adult age, and advanced life, considered in their physiological, social and moral relations [Funções e transtornos dos órgãos reprodutivos, na infânica, na juventude, na idade adulta e na avançada, considerados em seus aspectos fisiológicos, sociais e morais], publicado pela primeira vez em 1857. Foi ele quem decidiu que a masturbação levava à cegueira. E também foi responsável pela afirmação tão citada: "Devo dizer que a maioria das mulheres não é muito afetada por sensações sexuais de qualquer tipo".








Tais crenças predominaram por um tempo incrivelmente longo. "Muitos pacientes me diseram que seu primeiro ato masturbatório ocorreu ao assistir a algum show musical", relatou severamente dr. William Robinson, em uma obra de 1916 sobre distúrbios sexuais.







Felizmente, a ciência estava por perto para ajudar, Um remédio descrito por Mary Roach em Bonk: the curious coupling of sex and science [Bonk: o curioso acoplamento do sexo com a ciência] foi o anel peniano, desenvolvido na década de 1850, que era deslizado sobre o pênis na hora de dormir (ou mesmo a qualquer momento). Por dentro, o aro tinha pontas de metal que davam agulhadas em qualquer pênis que tivesse o atrevimento de inchar, ultrapassando uma folga minúscula admissível. Em outros dispositivos havia uma corrente elétrica que sacudia o infeliz, obrigando-o a ficar acordado - assustado mais penitente.







EM CASA - UMA BREVE HISTÓRIA DA VIDA DOMÉSTICA, de Bill Bryson, tradução de Isa Mara Lando.


(Ilustrações: não foi possível identicar o autor)



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