terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ZONAS ÚMIDAS








"Zonas úmidas". Esse o nome do romance da alemã CHARLOTTE ROCHE, de trinta e um anos, sucesso internacional com mais de um milhão de exemplares vendidos.

Tem a pretensão de ser "erótico", de uma forma radical e, às vezes, desagradável. E realmente não é para todos os paladares. Pode assustar um pouco pessoas mais "sensíveis".


No entanto, é de um erotismo "adolescente" e transgressor raramente visto na literatura, por sua crueza. Narra a história de uma garota de dezoito anos, Helen Memel, estudante, que está internada num hospital para uma operação de... hemorroidas!





Sua obsessão é reunir de novo os pais separados, que praticamente a abandonaram nas mãos de médicos e enfermeiros. Sua estratégia é permanecer o mais tempo possível no hospital, na esperança de que eles - os pais - possam visitá-la ao mesmo tempo e, assim, se reconciliar. Para isso, vale até mesmo se mutilar... e sofrer, sofrer muito, muito além da solidão.

A história acompanha todos os pensamentos e as lembranças eróticas e pornográficas da garota. E sua fixação quase patológica com excreções corporais e com a falta total de higiene: come meleca do nariz, casca de feridas e experimenta quase tudo aquilo que o comum dos mortais considera nojento.

O que nos leva a pensar que ficar adulto é superar a fase da meleca.

O trecho abaixo pode ser um bom exemplo da visceralidade de ZONAS ÚMIDAS, um livro indigesto, sem dúvida.

As ilustrações são de MIRKA LUGOSI.


UM BOM PIRATA TAMBÉM ATACA

NO MAR VERMELHO







Já perdi sangue o suficiente por baixo. E estou muito ocupada com a ferida na bunda, e ainda por cima tenho de brecar o fluxo do sangue da menstruação. Se deixarmos de lado minha leve irritação logo antes daqueles dias, até que me dou bastante bem com meu sangramento mensal. Muitas vezes fico bastante excitada quando estou sangrando.


Uma das primeiras obscenidades que ouvi na infância, durante uma festa dos meus pais, e que só entendi depois de perguntar um bocado, foi: um bom pirata também ataca no mar Vermelho.







Antigamente era considerado nojento o homem transar com uma mulher menstruada. Faz muito tempo que isso deve ter acabado. Se transo com um garoto que gosta que eu esteja sangrando, fazemos uma baita lambança na cama.


Prefiro usar lençóis brancos nesses momentos, caso eu possa escolher. E troco de posição e de lugar tantas vezes quanto possível na cama, para que o sangue consiga se espalhar por toda a parte.

Nessas horas, quero transar bastante sentada ou agachada, para que a força da gravidade faça escorrer mais sangue da xoxota. Se eu ficar apenas deitada, seria mais fácil o sangue apenas se acumular.








Eu também adoro que me lambam quando estou sangrando. É um tipo de prova de coragem para ele. Quando ele terminou com a lambeção e olha para cima com a boca toda suja de sangue, eu o beijo e daí ambos ficamos parecendo com lobos que acabaram de destroçar uma corça.


Também gosto de sentir o gosto do sangue na boca quando continuamos a transa. Isso me excita muito, e em geral fico triste se minha menstruação acaba depois de dois ou três dias de lobo.


Mas também tenho sorte. Escuto outras garotas dizendo que sentem cólicas durante todos esses dias. Isso não é exatamente algo que estimule o sexo.









Eu só fico com um mau humor inacreditável um pouco antes da menstruação e me torno extremamente agressiva com pessoas que não têm nada a ver com a situação. Depois disso o sangue jorra e nada dói. Nada de cólicas.



[...]



Também não me importo muito com higiene no tema menstruação. Isso é totalmente supervalorizado. Absorventes internos são caros e supérfluos. Quando estou menstruada, eu mesma faço meus absorventes internos de papel higiênico, enquanto estou sentada no vaso. Tenho o maior orgulho disso.









Desenvolvi uma técnica especial de enrolar e dobrar para que eles permaneçam lá dentro durante bastante tempo e consigam segurar o sangue. Meus absorventes de papel higiênico, devo admitir, entopem a xoxota e barram o sangue, em vez de o absorver como os produtos convencionais. Perguntei ao meu ginecologista, dr. Bröckert, se faz mal para a xoxota o sangue ficar preso lá durante muito tempo, escorrendo na hora de eu me sentar no banheiro. Ele disse achar que o sangue tem alguma função purificadora é uma crença muito difundida. Do ponto de vista médico, minha barragem de sangue é inofensiva.


Fui algumas vezes ao ginecologista porque o absorvente tinha se perdido dentro de mim. Eu estava convicta de ter colocado um, mas não consegui encontrá-lo na hora de tirar. Essa é uma outra pequena desvantagem de meus absorventes feitos em casa: falta o fiozinho azul-claro para puxar para fora.








Meus dedos são mais para curtos, e quando procuro alguma coisa na minha xoxota, não tenho muito sucesso. Já passei por uma situação dessas algumas vezes na casa do papai. E daí tive que usar o espeto de churrasco todo bacana dele para procurar.



Muitas vezes havia pedaços de carne esturricada e gordura ainda presos no espeto. Eu não queria me comprometer limpando o espeto antes de enfiá-lo dentro de mim. Então me deitei na posição ginecológica e tentei achar dentro da minha xoxota, da melhor maneira possível, o tampão de papel higiênico.








Com todos os restos do churrasco. Algumas das vezes não encontrei nada. Da mesma maneira como não limpei o espeto antes de enfiá-lo em mim, também não o limpo quando ele retorna à mesa de churrasco do papai depois da minha intervenção ginecológica. Sempre estou com um sorriso de lado durante os churrascos com os amigos da família.



Gosto de perguntar pra todo mundo se está gostoso, e aceno para o meu pai churrasqueiro, que devolve o cumprimento com seu espeto. Esse é o meu terceiro hobby: espalhar bactérias.







Quando eu não tenho sucesso com o espeto de churrasco e fico com medo de o tampão de papel higiênico ensanguentado embolorar dentro de mim e eu morrer de um horroroso choque bacteriológico, vou a ginecologista.


Ele chama isso de problema do triângulo das Bermudas. Às vezes consegue me ajudar, mas é mais frequente que ele também não ache nada. E tem dedos bastante logos e uma porção de reluzentes espetos médicos de churrasco. Mesmo assim, não encontra o tampão.







- Você tem certeza que introduziu o absorvente?

Fofo. Ele sempre diz "introduzir". Eu digo "enfiar".

- Certeza absoluta - respondo.

Ele me acha um completo enigma. Mas minha xoxota também é um enigma para mim. O tampão vai sumir sei lá onde. Tomara que eu fique velha o suficiente para decifrar esse mistério. O dr. Bröckert ainda faz um ultrassom para se certificar de que não há nada escondido bem lá no fundo.





Muitas vezes tenho preguiça demais para montar novos absorventes. Por isso não jogo fora o tampão velho, que custou tanto para ser dobrado, a cada vez que vou ao banheiro. Eu o tiro com o dedo depois de ter sentado. E o coloco no chão. Quanto mais sujo, melhor.



Se eu puder contribuir com uma pequena mancha de sangue no meio de todas aquelas manchas no chão, melhor ainda. E quando eu tiver terminado seja lá o que fui fazer no banheiro, tiro o tampão do chão e o enfio novamente. Gosto do cheiro de sangue velho, quando ele escorre da xoxota. Gosto também de trufas. Já me contaram algumas histórias de horror sobre o que acontece quando a gente não troca o absorvente com frequência. O resultado são as piores infecções, com choques que podem matar as mulheres. Desde que fiquei menstruada, ou seja, há seis anos, ajo assim com minha xoxota e minhas bactérias, e não sou uma preocupação para o meu ginecologista.








ZONAS ÚMIDAS, tradução de Cláudia Abeling.







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