terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A OITAVA SINFONIA DE MAHLER



Enquanto dirige para casa, com as relíquias do irmão há muito tempo morto na Segunda Gerra Mundial, Sabbath, o titereiro lúbrico de Philip Roth, imagina sua mulher se masturbando, em casa. Uma página de delírio erótico de um dos maiores escritores do mundo, que termina com a sinfonia de Mahler. Leia e delicie-se. Ilustrações de Jean-Pierre Ceytaire.



De roupão, lendo aquela merda. Sabbath a imagina, o roupão meio aberto, segurando o livro com a mão direita enquanto se masturbava preguiçosamente com a esquerda. Ambidestra, mas por acaso se sente mais confortável se masturbando com a esquerda. Lendo e nem sequer consciente, por certo tempo, de que ia começar a gozar. Meio distraída pela leitura. Tende a gostar de uma peça de roupa entre a mão e a xoxota. Camisola, roupão – esta noite, a calcinha.




O tecido a deixa com tesão; por que motivo, é coisa de que ela não tem a menor ideia. Utiliza os três dedos: os dedos exteriores nos lábios, o dedo médio pressionando o botão. Movimento circular dos dedos e, logo, a pélvis também num movimento circular. O dedo médio no botão – não a ponta do dedo, a parte arredondada. Primeiro, uma pressão muito leve. Sabe automaticamente, é claro, onde se acha o botão.


Depois uma breve pausa, porque ela ainda está lendo. Não tem mais certeza de que quer continuar a ler. A pressão da parte arredondada dos dois dedos em torno do botão. À medida que vai ficando mais excitada, a parte arredondada do dedo se coloca diretamente sobre o botão, embora a sensação de algum modo se espalhe para os outros dedos. Por fim, põe o livro no chão. De forma intermitente, seus dedos se imobilizam enquanto sua pélvis executa o movimento. Depois voltam para o botão, girando e girando, a outra mão no peito, nos mamilos, apertando. Ela agora resolveu que não vai mais ler por um tempo. Baixa a mão direita do peito e esfrega tudo com força, usando as suas mãos, ainda por fora do tecido. Depois, três dedos, ali onde está o botão. Sempre sabe exatamente onde fica, o que é mais do que posso dizer a meu respeito.


Há quase cinquenta anos no ramo e até hoje a porra do troço está ali e depois aqui e depois sumiu e posso passar meio minuto procurando por todo lado antes que as mãos da mulher delicadamente me recoloquem na posição certa. “Aqui! Não, aqui! Bem aqui! Sim! Sim!”E agora ela estica bem as pernas, um gato se espreguiçando, e suas mãos apertam com força bem entre as coxas. Espremendo. Consegue um pré-gozo desse jeito, um forshpeis (*), apertando a xoxota inteira como toda a força, e agora resolveu: não quer mais parar. Às vezes ela faz isso através da roupa, até o final; esta noite, quer os seus dedos na parte interna dos lábios vaginais e empurra a calcinha para o lado. Agora, indo para cima e para baixo, direto para cima e direto para baixo, não mais um movimento circular. E mais rápido, se movendo muito mais rápido. Em seguida, usando a outra mão, ela introduz o dedo médio (é também um elegante dedo comprido) na xoxota. Mexe bem depressa com ele, até que sente as primeiras convulsões premonitórias.





Agora, mexe as pernas para cima, abre as pernas enquanto dobra os joelhos e junta os pés, de sorte que, quase embaixo de suas nádegas, os dedões ficam tocando um no outro. Se abre toda até em cima.






Agora, totalmente aberta. E o contato constante de dois dedos com o clitóris, e dedo médio e o anelar. Para cima e para baixo. Retesando-se. As nádegas agora para cima, se levantando em suas pernas dobradas. Agora ela reduz o ritmo um pouco. Estica as pernas a fim de desacelerar, levando tudo quase a uma pausa. Quase. E então dobra as pernas de novo para cima. Essa é a posição em que deseja gozar.





Aqui começam os balbucios. “Posso? Posso?”O tempo todo em que ela fica resolvendo quando, não para de murmurar em voz alta: “Posso? Posso? Posso gozar?”A quem ela pergunta? O homem imaginário. Homens. Todos eles, um deles, o líder, o mascarado, o menino, o preto, talvez perguntando a si mesma ou a seu pai, ou perguntando para ninguém. As palavras sozinhas são o bastante, o começo. “Posso? Posso gozar? Por favor, já posso?”




E agora ela mantém a pressão constante, agora um pouco mais forte, aumentando a pressão, a pressão constante, é bem aí, e agora ela sente, ela sente, agora ela precisa se soltar. – “Posso? Posso? Por favor!”– e ali estão os ruídos, senhoras e senhores, os ruídos que podiam perfeitamente servir como impressões digitais para individualizar o sexo inteiro para o FBI – ohh, hmmmmm, ahhh – porque agora ela começou, está gozando, e a pressão é mais forte mas não extremamente forte, não tão forte que machuque, dois dedos para cima e para baixo, uma pressão ampla, ela deseja uma pressão ampla porque quer gozar de novo, e agora a sensação vai se movendo para baixo, rumo à boceta, e ela coloca o dedo lá dentro, e agora reflete que gostaria de ter um pênis artificial ali, mas está com o seu dedo ali, e é ISSO!


E agora ela sobe e desce com o dedo como se alguém a estivesse fodendo e deliberadamente retesa a boceta a fim de intensificar a sensação, estreita bastante para proporcionar a si mesma uma sensação mais forte, sobe e desce, e o tempo todo mexendo com o clitóris. O que ela sente muda quando introduz o dedo na boceta – no botão é bem preciso, mas com o dedo enfiado na boceta a sensação fica distribuída e é isso que ele a quer: a distribuição da sensação. Embora não seja fácil coordenar fisicamente as duas mãos, com suprema concentração ela trabalha a fim de superar a dificuldade. E consegue. Ohhhh. Ohhhh. Ohhhhh.




E depois fica ali deitada e arqueja por um tempo, e depois pega o livro do chão e recomeça a leitura e, no conjunto, há muito aqui a ser comparado com Bernstein regendo a oitava sinfonia de Mahler.”




(*) Em iídiche, forshpeis, aperitivo. (N.T.)

Philip Roth, O Teatro de Sabath; tadução de Rubens Figueiredo.



Um comentário:

Anônimo disse...

Caralho, que delícia! Toco muita siririca com o seu blogue. Que tesão gostoso!