sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A PRIMEIRA VEZ... DE MICKEY SABBAT






(Roth - autor não identificado)



Philip Roth é, atualmente, um dos maiores escritores do planeta. Só não ganha o Nobel de Literatura porque tem posições mais à esquerda do que apreciam os velhinhos da academia sueca.

O romance O TEATRO DE SABBATH é um mergulho nas idiossincrasias do ser humano, escrito com a verdade do erotismo e das excentricidades de um titereiro – Sabbath – velho, sujo e humano, profundamente humano.





Ao descrever a primeira vez – depois de tantas mulheres, de tantas confusões amorosas – de Sabbath, o autor é econômico, como podem ver no texto abaixo. Econômico, porque a vida, às vezes, é assim: sob o erotismo e o sexo, há aquele gosto de... amargor!

Ainda bem que o herói de Roth não se deixa abater pela primeira “decepção”... Bem, só lendo o livro. Por enquanto, só o que nos interessa: a primeira vez de Sabbath:




A primeira prostituta maldosa



(Yvonne de Carlo - 1922-2007)



O Sr. Sabbth se educou nos prostíbulos da América Central e do Sul, bem como nos do Caribe, antes de se estabelecer como titereiro em Manhattan. Nunca usou camisinha e, por milagre, jamais pegou doenças venéreas. Ele contava muitas vezes a história da sua primeira prostituta.


(Autor não identificado)


“A que eu escolhi era muito interessante”, contou ele, certa vez, a uma pessoa sentada a seu lado no metrô. “Nunca vou me esquecer dela enquanto viver. A gente não esquece a primeira mulher, de um jeito ou de outro. Eu a escolhi porque parecia Yvonne de Carlo, a atriz, a atriz de cinema. Em todo caso, lá estava eu tremendo feito uma folha seca. Era na Havana Velha. Lembro como era tudo romântico e maravilhoso, as ruas decadentes e as casas com sacadas. A primeira vez na vida. Nunca tinha deitado com uma mulher. E ali estava eu ao lado de Yvonne. Nós dois começamos a nos despir. Lembro-me de sentar em uma cadeira ao lado da porta. A primeira coisa e a mais marcante de todas foi que ela usava roupa de baixo vermelha, sutiã e calcinha vermelhos. E isso era fantástico. A outra coisa de que me lembro é estar deitado em cima dela. E depois lembro que tudo tinha terminado e ela disse: ‘Saia de cima de mim!’ Uma nota de desprezo. ‘Saia!’ Isso nem sempre acontece mas, como era minha primeira vez, pensei que era assim mesmo e saí. ‘Já terminou? Saia fora!’ Existem pessoas sórdidas mesmo entre as piranhas. Nunca vou esquecer. Pensei: ‘Tudo bem, o que me importa?’ Mas na verdade aquilo me chocou como uma coisa hostil e até maldosa. Como é que eu podia saber, eu, um pirralho saído da roça, que uma em cada dez seria maldosa e dura desse jeito, embora fosse bonita também?”

(Denis)




(O Teatro de Sabbath, de Philip Roth; 
tradução de Rubens Figueiredo)





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