sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

ELE ME VIU NUA, TODA NUA








(Il m’a vue nue – Adriano Batista)



Sonho. Porque afinal, sonhar não é preciso: é imponderável. Não dominamos os sonhos, como não dominamos o pensamento que vaga. Qualquer coisa pode nos distrair e nos levar para longe – no espaço e no tempo. Enquanto escrevo, olho para a minha esquerda, um cartaz na parede, que um amigo me trouxe de Paris, atiça minha imaginação:




(Cartaz: Mistinguett - la revue de Paris)


Jeanne Bourgeois.

Ou, Miss Heyett, Miss Tinguette, Mistinguette – MISTINGUETT!

Nasceu em Île-de-France em 1875 e morreu em Bougival, em 1956.

Cantora e atriz, apresentou-se nos famosos cassinos da época, Folies Bergère, Moulin Rouge, Eldorado. Seu auge ocorreu ao longo dos “anos loucos”, os anos vinte do século passado, quando suas pernas foram seguradas por quinhentos mil francos, uma fortuna!

Sobreviveu a duas guerras e ao ostracismo, não deixando de trabalhar até próximo de sua morte, aos oitenta e um anos.

Antecipou a moda de Coco Chanel, usando cabelos curtos, “à la garçon”, sendo um símbolo de ousadia e vanguarda. Teve muitos amantes, dentre eles um rico brasileiro, com quem teve um filho. Mas seu romance mais longo foi com Maurice Chevalier. Esteve no Brasil em 1923, cercada de muita badalação.

Detalhe: foi proibida de mostrar suas belas pernas.



(Mistinguett)


Gravou muitos sucessos, porque tinha um faro fino para escolher canções com grande apelo popular. Dentre elas, aqui vai a letra de uma de suas músicas, com um apelo erótico ousado para a época, mesmo que, ao fim, haja uma “recaída moralista” ou um falso pudor que o delicioso refrão, bem safado, amortiza. Com certeza, incendiava as plateias de então.





IL M'A VUE NUE

(Pearly - Chagnon)



Chantée par Misstinguett - 1926



(Mistinguett)

Un soir je me faisais une pleine eau
Pour tout maillot j'avais la peau
Nul ne pouvait me voir que le ciel noir
La lune soudain vint s'exhiber
J'allais lui dire "ta bouche bébé"
Quand j'entendis près d'moi un cri d'émoi
Y'avait un homme sur un rocher
Pas assez haut
L'homme a fait "ha!" et moi dans l'eau
Moi j'ai fait "hoooooo"
Il m'a vue nue, toute nue
Sans cache-trucmuche soutien-machin
J'en ai rougi jusqu'au matin
Il m'a vue nue, toute nue
Je me suis par respect humain
Voilé la face des deux mains
Mais je crois bien
Que par ce geste irréfléchi
J'ai négligé d'voiler quelques petits chichis
Il m'a vue nue, toute nue, plus que nue
Il m'a vue nue, toute nue
J'veux oublier c'qui s'est passé
D'autant plus qu'il n'y a rien d'cassé
Mais je me dis depuis cette fatale nuit
Je ne peux pas épouser
Un autre homme que lui
Il m'a vue nue, tellement nue, super nue
Il m'a vue nue, plus que nue, tellement nue

(Mistinguett)


A tradução é mais ou menos assim:




Uma noite eu me refestelava na água
Minha única roupa era a pele
Somente podia me ver o céu negro
De repente, a lua me iluminou
Eu ia lhe dizer: “Cale-se, querida”
Quando ouvi perto de mim um grito excitado

Ali estava um homem sobre um rochedo
Não muito alto
O homem fez ‘ah” e eu dentro d’água fiz “ohhhh”

Ele me viu nua, toda nua
Sem nada que me cobrisse
E eu fiquei com vergonha até de manhã
Ele me viu nua, toda nua

Por respeito a mim mesma
Escondi o rosto com as duas mãos
Mas com esse gesto irrefletido
Deixei de esconder alguns pequenos detalhes tão simples


Ele me viu nua, toda nua, mais que nua
Ele me viu nua, toda nua
E eu quero esquecer que isso aconteceu
Tanto mais que não houve consequências
Mesmo assim eu disse para mim mesma depois dessa noite fatal
Que não posso me casar com outro homem senão ele


Ele me viu nua, totalmente nua, super nua
Ele me viu nua, mais que nua, totalmente nua




(Mistinguett)



Pode-se encontrar Mistinguett no Youtube (em poucas imagens), e cantando “Il m’a vue nue” neste site:





Um comentário:

Tati disse...

Muito, muito bom!

Feliz 2012!!!

Beijo!