terça-feira, 22 de novembro de 2011

A PRIMEIRA VEZ... DE LENITA!




Lenita? Quem é Lenita?


Se você, cara leitora e caro leitor eventuais desta “Lua” ainda não se deu conta, Lenita é a personagem central do romance A CARNE, de Júlio Ribeiro.





Desde que foi publicado, em 1888, provocou inúmeras polêmicas e, com certeza, povoou de sonhos embalados em punhetas e siriricas muitas noites mal dormidas de jovens de ambos os sexos, em tristes dormitórios de colégios internos por esses brasis afora.

Sim, colégios internos. Uma instituição fora de moda. Tanto quanto o livro.
Júlio Ribeiro é nosso naturalista de plantão e de carteirinha. Fã incondicional do mestre do naturalismo europeu, Émile Zola, a ele dedica o livro, chamando-o “príncipe dos naturalistas”.

O naturalismo, de breve existência, pregava o cientificismo e, por isso, leva ao máximo a ideia de que o homem é fruto de seus instintos. E Lenita, nossa heroína, é um bom exemplo.

Órfã criada na cidade pelo pai (a mãe morrera no parto), ainda virgem aos 22 anos (as jovens casavam-se cedo, não se esqueça), vai para o campo, uma fazenda escravagista, para tomar um “banho de natureza” que a cure dos males que a afligem, sem que ela saiba quais são. Não verdade, falta de sexo.

A vida na fazenda é contada com detalhes, com muitos termos científicos ou pseudocientíficos. E todos os acontecimentos têm um só objetivo: justificar a avassaladora força sexual da natureza de que é tomada a heroína, para chegar, já quase no final, ao esperado desfecho: a entrega de sua virgindade ao filho do dono da fazenda, depois que é picada por uma cascavel, sendo a cobra, aí, a metáfora explícita de seu desejo carnal.

Enfim, todo o livro é, na verdade, meio enfadonho, porque escrito numa linguagem datada do século XIX, com todos os floreados linguísticos da época, não deixando dúvidas quanto à perícia estilística do autor e da sua intenção de defender o amor livre, a sexualidade, como forma de tratamento de distúrbios físicos e – por que não? – mentais.

Com vocês, o capítulo central do livro A CARNE, de Júlio Ribeiro. As ilustrações são de Michael Zichy:





A PRIMEIRA VEZ DE LENITA





Lenita mudava de posição, revolvia-se na cama, não dormia, não podia adormecer.


Uma obsessão mordente subia-lhe da periferia do corpo, comprimia-lhe o coração, atordoava-lhe o cérebro.

Sentia picadas na pele, tinha calefrios, zuniam-lhe os ouvidos.



Sugando-lhe as feridas feitas pelos aguilhões da cobra, Barbosa retirara um veneno, mas deixara outro. Lenita nunca mais cessara de sentir a sucção morna, demorada, forte, dos lábios de Barbosa em torno às picadas, no peito do pé. A sensação estranha, deliciosa, incomportável que produzira essa sucção perdurava, vivia; mais ainda, multiplicava-se, alastrava. Era um formigamento circular que lhe trepava pelas pernas, que lhe afagava o ventre, que lhe titilava os seios, que lhe comichava os lábios.






E ela queria Barbosa, desejava Barbosa, gania por Barbosa.


Esperar até amanhecer: uma! duas! três! quatro! cinco! seis horas! Ouvir o tique-taque do relógio, lento, medido, regular, igual, metálico; monótono, impiedoso; ouvi-lo sessenta vezes por minuto, três mil e seiscentas vezes por hora, vinte e uma mil e seiscentas vezes nas seis horas que faltavam para amanhecer? Impossível!

Ergueu-se e, descalça, em camisa, inconsciente, louca, abriu a porta, atravessou a sala, abriu a outra porta, saiu na ante-sala, enfiou pelo corredor, parou junto à porta do quarto de Barbosa, a escutar.
E nada ouvia.

Dentro, fora, dominava um silêncio profundo, quebrado apenas pelas pulsações violentas do seu próprio coração.

Encostou o ouvido à fechadura, nada.

O seu ombro fez uma ligeira pressão sobre a folha da porta, e esta cedeu, entreabriu-se, chiando ligeiramente.

Uma lufada de ar quente, saturada de aroma de charuto havana veio afagar-lhe o rosto, os seios, o busto quase desnudo no decote grande da camisa. Lenita perdeu completamente a cabeça, entrou: em bicos de pés, sem fazer rumor, escorregando, deslizando, como um fantasma, abeirou-se da cama de Barbosa.






Curvou-se, apoiou a mão no respaldo da cabeceira, aproximou a sua cabeça do peito do homem adormecido, escutou-lhe a respiração igual, hauriu-lhe o cheiro másculo do corpo, sentiu-lhe a tepidez da pele.


Quedou-se por muito tempo nesse ambiente entorpecedor.

De súbito o braço com que se encostava falseou; ela caiu pesadamente sobre o leito.

Barbosa deu um estremeção, acordou sobressaltado, sentou-se, estendeu as mãos, encontrou-a, perguntou assustado:

– Quem é? quem é?

A cútis morna, cetinosa da moça, a macieza da cambraia que a envolvia em parte, o perfume de Peau d’Espagne que de seu corpo exalava, não lhe permitiam dúvidas; mas ele recusava a evidência dos sentidos, não podia crer. Achava absurda, monstruosa, impossível a presença de Lenita em seu quarto, àquela hora, naquela quase nudez.

E, contudo, era real, ela ali estava: ele sentia-lhe a carne quente, dura, apalpava-lhe a pele híspida(1) pelo desejo, escutava-lhe o estuar do sangue, o pulsar do coração.

Um tropel de ideias desordenadas agitou-se-lhe, confundiu-se-lhe no cérebro excitado; o raciocínio ausentou-se, venceu o desejo, triunfou a sugestão da CARNE.







Sentou-se rápido à beira da cama sem largar a moça, puxou-a para si, cingiu-a ao peito, segurou-lhe a cabeça com a mão esquerda, e, nervoso, brutal, colou-lhe a boca na boca, achatou os seus bigodes ásperos de encontro aos lábios macios dela, bebeu-lhe a respiração. Lenita tomou-se de um sentimento inexplicável de terror, quis fugir, fez um esforço violento para desenlaçar-se, para soltar-se.


Era o medo do macho, esse terrível medo fisiológico que, nos pródromos(2) do primeiro coito, assalta a toda a mulher, a toda a fêmea.

Baldado intento!

Retinham-na os braços robustos de Barbosa: em suas faces, em seus olhos, em sua nuca os beijos dele multiplicavam-se: esses beijos ardentes, famintos, queimavam-lhe a epiderme, punham-lhe lava candente no sangue, flagelavam-lhe os nervos, torturavam-lhe a carne.

Cada vez mais fora de si, mais atrevido, ele desceu à garganta, chegou aos seios túmidos, duros, arfantes. Osculou-os, beijou-os, a princípio respeitoso, amedrontado, como quem comete um sacrilégio; depois insolente, lascivo, bestial como um sátiro.






Crescendo em exaltação, chupou-os, mordiscou-lhes os bicos arreitados(3).


– Deixe-me! deixe-me! Assim não quero! implorava, resistia Lenita, com voz quebrada, ofegante, esforçando-se por escapar, e presa, todavia, de uma necessidade invencível de se dar, de se abandonar.

De repente fraquearam-lhe as pernas, os braços descaíram-lhe ao longo do corpo, a cabeça pendeu-lhe, e ela deixou de resistir, entregou-se frouxa, mole, passiva.

Barbosa ergueu-a nos braços possantes, pô-la, na cama, deitou-se junto dela, apertou-a, cobriu-lhe os seios macios com o peito vasto, colou-lhe os lábios nos lábios.

Ela deixava-o fazer, inconsciente, quase em delíquio, mal respondendo aos beijos frementes que a devoravam.





E corria o tempo.


Barbosa não podia prestar fé ao que se estava dando.

Descrente de mulheres, divorciado da sua, gasto, misantropo, ele abandonara o mundo, retirara-se com seus livros, com seus instrumentos científicos, para um recanto selvagem, para uma fazenda do sertão. Abandonara a sociedade, mudara de hábitos, só conservara, como relíquias do passado, o asseio, o culto do corpo, o apuro despretensioso do vestir. Levava a vida a estudar, a meditar; ia chegando ao quietismo, à paz de espírito de que fala Plauto(4), e que só se encontra no convívio sincero, sempre o mesmo, dos livros, no convívio dos ausentes e dos mortos. E eis que a fatalidade das coisas lhe atira no meio do caminho uma mulher virgem, moça, bela, inteligente, ilustrada, nobre, rica. E essa mulher apaixona-se por ele, força-o também a amá-la, cativa-o, aniquila-o. Faz mais: contra a expectativa, tornando realidade o improvável, o absurdo, vem ao seu quarto, interrompe-lhe o sono, entrega-se-lhe... Ele a tem entre os seus braços, lânguida, mole, roída de desejos; aperta-a, beija-a...

E... nada mais pode fazer!







Não que o detenham preconceitos, receio de consequências; não tem preconceitos, já não receia consequências.


O que o detém é um esgotamento nervoso de momento, uma impossibilidade física inesperada.

Debalde procura na concentração da vontade o tom da fibra nervosa, o robustecimento do organismo...

Sente o ridículo da posição, desespera, tem as mãos frias, banha-se em suor, chega a chorar. Afastou-se de Lenita, dementado, louco, escalavrando o peito com as unhas.

– Não posso! não posso! exclamou, ululou desatinado.

Deu-se uma inversão de papéis: em vista dessa frieza súbita, desse esmorecimento de carícias, cuja causa não podia compreender, nem sequer suspeitar; no furor do erotismo que a desnaturava, que a convertia em bacante impudica, em fêmea corrida, Lenita agarrou-se a Barbosa, cingiu-o, enlaçou-o com os braços, com as pernas, como um polvo que aferra a preia; com a boca aberta, arquejante, úmida, procurou-lhe a boca; refinada instintivamente em sensualidade, mordeu-lhe os lábios, beijou-lhe a superfície polida dos dentes, sugou-lhe a língua...

E o prazer que ela sentia revelava-o na respiração açodada; no hálito curto, quente; era um prazer intenso, frenético, mas... sempre incompleto, falho.

Barbosa arquejante tinha ímpetos de levantar-se, de tomar uma pistola, de arrebentar o crânio.

Pouco a pouco operou-se uma reação.

Sentiu Barbosa que, menos agitado, lhe circulava o sangue, que um calor doce se lhe expandia pelos membros, que o desejo físico se despertava, dominante, imperativo.

Recobrou-se de vez da passageira fraqueza, achou-se forte, potente, varão.
Com o ímpeto irresistível do macho em cio, mais ainda, do homem que se quer desforrar de uma debilidade humilhosa, retomou o papel de atacante, estreitou a moça nos braços, afundou a cabeça na onda sedosa e perfumada de seus cabelos que se tinham soltado...

– Lenita!

– Barbosa!

E um beijo vitorioso recalcou para a garganta o grito dorido da virgem que deixara de o ser...






Depois foi um tempestuar infrene, temulento, de carícias ferozes, em que os corpos se conchegavam, se fundiam, se unificavam; em que a carne entrava pela carne; em que frêmito respondia a frêmito, beijo a beijo, dentada a dentada.


Desse marulhar orgânico escapavam-se pequenos gritos sufocados, ganidos de gozo, por entre os estos curtos das respirações cansadas, ofegantes.

Depois um longo suspiro seguido de um longo silêncio. Depois a renovação, a recrudescência da luta, ardente, fogosa, bestial, insaciável.

Pela frincha da janela esboçou-se um rastilho de luz tênue.

Era o dia que vinha chegando.







– Deixe-me! deixe-me, Barbosa! É preciso ir, está amanhecendo, está clareando.

– Não, não! ainda não! aquilo não é o dia, é o luar.

– Vou! deixe-me, deixe-me.

E, fazendo um esforço violento, Lenita escapou-se do leito e dos braços de Barbosa.

No desvão da porta entreaberta enquadrou-se, por um momento, a sua sombra indecisa. Desapareceu.

Barbosa ergueu-se, vestiu-se rapidamente, saiu, fechou a porta tirou, guardou no bolso a chave.

Lenita do seu quarto ouviu-lhe, contou-lhe as passadas que ressoavam fortes.
A moça estava com febre; tinha a cabeça em fogo; sentia-se zonza, atordoada; via a todo o momento discos luminosos, com um núcleo que se alargava, cambiando de cores, passando do verde-escuro ao vermelho-cobre; ardia-lhe a garganta, a boca estava peganhenta.

No quarto deserto de Barbosa o rastilho de luz, coado pela frincha da janela, ia bater sobre a cama desarranjada: na alvura dos lençóis amarrotados punham notas muito vivas algumas manchas de sangue frescas, úmidas, rubras.


































Notas:


(1) Arrepiada.
(2) Prenúncios.
(3) Estimulados sexualmente.
(4) Comediógrafo romano (254-184 a.C.).



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