sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A PRIMEIRA VEZ DE FANNY HILL... DE NOVO!






O tabu da virgindade, uma bobagem que muitos homens ainda valorizam numa mulher. Que, com todos os recursos da moderna cirurgia plástica, pode enganar qualquer trouxa. E isso, de se passar por virgem, não é nenhuma novidade das mulheres modernas que queiram enganar um “trouxa”, como vamos ver logo abaixo.

Já falei, aqui, da Fanny Hill, personagem de um romance libertino do século XVIII, escrito por John Cleland. A moça inocente do interior que vai para Londres e cai na prostituição. Vamos, agora, encontrar nossa heroína já mais do que “experiente” no ramo. Teve vários amantes e muitas aventuras. Mas ainda é jovem, ainda é linda e mais: seu corpo mantém o viço da jovenzinha interiorana. E então... uma cafetina esperta descobre um homem rico e safado que, depois de muitos anos de putaria, agora tem por fetiche deflorar virgens, às quais paga quantias bastante elevadas. Prepara uma armadilha para ele: Fanny Hill. Com mil sutilezas e safadezas, consegue convencer o velho da pureza de sua pupila, costureirinha de sua casa (um disfarce para o lenocínio). Consegue arrancar uma grana do velho e vejam como se sai Fanny Hill de sua segunda “primeira vez”.

Ah, sim: o texto pode ser um pouco longo (porque é longa a batalha que Fanny Hill encena, para se entregar), mas vale a pena: afinal, como irão constatar, é mais difícil, provavelmente, seduzir uma prostituta que se faz de virgem e que tem todo o domínio da arte da sedução e do engodo, do que uma verdadeira virgem.

Mais uma coisinha: Paul Avril (pseudônimo de Edouard-Henri Avril – 1843-1928) ilustra as demais aventuras de Fanny Hill, para alguma edição do século XIX da obra.









“A noite foi então marcada, com todo o respeito possível pela avidez de sua impaciência e, nesse meio termo, a Sra. Cole não omitiu instruções, nem mesmo negligenciou qualquer preparativo, que pudessem permitir me sair com honra, levando em conta a aparência de virgindade, exceto que, favorecida como eu era pela natureza com uma condição estreita e apertada naquela parte, necessária para que eu levasse avante os meus propósitos, não tive necessidade de valer-me daqueles artifícios auxiliares que criam tal condição de forma momentânea e que são facilmente descobertos com o teste de um bom banho quente; e, quanto aos habituais sintomas sanguinolentos da defloração, os quais, se não sempre, geralmente costumam seguir-se a ela, a Sra. Cole me pôs a par de uma invenção sua que dificilmente deixaria de fazer efeito, ainda mais no lugar em que era.


Estando então tudo disposto e marcado para a recepção ao Sr. Norbert, ele foi, às onze horas da noite e com todos os mistérios do silêncio e do segredo admitido na casa pela própria Sra. Cole e levado até o seu quarto de dormir, onde, numa cama antiquada que ela possuía, eu estava deitada, completamente despida e ofegante, se não pelos meus temores de uma verdadeira virgem, pelo menos por aqueles, talvez ainda maiores, de uma virgem fingida, o que me dava um ar de confusão e acanhamento cujas honras ficavam todas por conta de uma modéstia virginal, e era na verdade dificilmente distinguível disso, até mesmo por olhos menos parciais do que os do meu amante, se me permite chamá-lo assim, pois sempre achei a palavra trouxa um opróbrio cruel demais aos homens por sua maltratada fraqueza por nós.



Assim que a Sra. Cole, após aquela tagarelice manjada que se usas nessas ocasiões com as jovens abandonadas pela primeira vez à vontade de um homem, deixou-nos a sós em seu quarto, o qual, a propósito, estava tão bem iluminado, por expressa vontade dele, que parecia augurar um exame muito mais severo do que ele posteriormente realizou, o Sr. Norbert, ainda vestido, dirigiu-se para a cama, onde eu estava com a cabeça enfiada sob as cobertas, que segurei com força um bom tempo antes que ele conseguisse chegar sequer aos meus lábios, para beijá-los: tanto é verdade que uma falsa virtude, numa ocasião dessas, sempre provoca maior tumulto e resistência do que uma autêntica! Daí ele desceu até meus seios, por cujo toque eu lutei contra ele com unhas e dentes, até que, cansado com minha resistência, e achando provavelmente que daria conta de mim melhor quando estivesse na cama comigo, tirou as roupas correndo e se deitou.


Enquanto isso, pela olhada que consegui dar nele, pude discernir com facilidade uma pessoa longe de promissora de um desempenho tão valente quanto a derrubada de uma virgindade em geral exige, e cuja consistência frágil e dissipada dava-lhe mais o ar de inválido que estava sendo obrigado, do que o de um voluntário para um serviço tão ardente.
Mal tendo completado trinta anos, ela já havia reduzido a força do seu apetite a uma miserável dependência de provocações forçadas, escassamente secundadas pelas forças naturais de um corpo derreado e reduzido a um bagaço pelos constantes e repetidos exageros do prazer, que fizeram um trabalho de sessenta invernos nas primaveras de sua vida, deixando-lhe ao mesmo tempo, na imaginação, todo o fogo e o calor da juventude, que serviam a um só tempo para atormentá-lo e para incitá-lo precipício abaixo.





Assim que se deitou, ele afastou as cobertas, para o que o obriguei a usar a força, por que eu as estava segurando, e agora eu jazia tão exposta quanto ele pudesse desejar, não somente aos seus ataques, mas à sua inspeção dos lençóis, onde, nas variada agitações do meu corpo, através de minhas tentativas de me defender, ele pôde facilmente se certificar de que não havia nada preparado, nem uma mancha de sangue, apesar de que, para fazer-lhe justiça, pareceu um inspetor menos rigoroso do que eu imaginava para alguém com tanta prática. Ele então rasgou minha camisa, ao descobrir que eu estava me valendo muito dela para servir de barricada aos meus seios, bem como à avenida mais importante. No entanto, em tudo mais, ele procedeu com todos os sinais de ternura e afeição por mim, enquanto a arte do meu jogo consistia em não mostrar nenhuma por ele. Representei então todas as minúcias, apreensões e terrores que uma garota inocente supostamente deve sentir diante de uma novidade tão grande quanto um homem nu na cama com ela pela primeira vez.





Ele mal conseguiu obter um beijo que não fosse à força: afastei as mãos dele dos meus seios vinte vezes, onde ele se deu por satisfeito com sua rigidez e consistência, tomando-os por bens até então nunca manipulados. Mas, ficando impaciente pelo ponto principal, deitou-se em cima de mim e, ao tentar primeiro examinar-me com o dedo, buscando abrir caminho mais fundo, queixei-me amargamente desse abuso: achava que ele não tinha o direito de aproveitar-se assim do meu corpo. Estava arruinada... não sabia o que fizera... ia me levantar... era isso o que eu ia fazer, e ao mesmo tempo mantinha minhas coxas tão apertadas que não ia ser uma força como a dele que conseguiria obrigá-las a se abrirem, ou serviria de alguma coisa. Descobrindo assim minha posição de vantagem, e que tinha a meu comando tanto os meus movimentos quanto os dele, enganá-lo tornou-se tão fácil quanto roubar um doce de uma criança. Nesse meio-tempo, sua máquina, que era de um daqueles tamanhos que escorregam para dentro e para fora sem serem notadas, permaneceu apertada bem durinha contra aquela parte à qual minhas coxas fechadas barravam o acesso; mas descobrindo finalmente que não lhe adiantava nada o esforço físico, ele recorreu a súplicas e argumentos; aos quais me limitei a responder, com um tom de vergonha e timidez, que eu tinha medo que ele me matasse... Deus!... Eu não ia ser tratada assim... Nunca havia sido usada de tal forma em minha vida... Como é que ele não sentia vergonha de si mesmo, pois eu sentia... Com manifestações de queixa e repulsa tão tolamente infantis quanto julguei mais adequadas para expressar as características da inocência e do medo.





Fingindo, no entanto, ceder aos poucos à veemência das suas insistências, por ações e palavras, abri muito parcimoniosamente as coxas, de forma que ele pudesse apenas tocar a entrada fendida com a ponta do seu instrumento, mas como ele se cansava e se esfalfava para conseguir fazê-lo entrar, uma torção do meu corpo, de forma a recebê-lo obliquamente, não apenas frustrou a sua entrada, como, dando um grito como se ele me tivesse rasgado até o coração, empurrei-o para fora de mim com tal violência que ele não pôde, nem toda a sua força, aguentar-se na sela. Parecia realmente contrariado com isso, mas não no estilo de algum aborrecimento comigo por eu me mostrar tão arisca; ao contrário. Ouso garantir que ele me quis ainda mais e felicitou-se com as dificuldades que prejudicavam o seu prazer mais instantâneo. No entanto, agora aceso ao ponto de não poder mais suportar qualquer retardamento, ele volta a montar e suplicou-me que tivesse paciência, afagando-me e tentando me seduzir aos seus propósitos por meio dos mais ternos carinhos e protestos de que muito ele faria por mim, ao que, fingindo estar um pouco apaziguada e moderando a raiva que eu demonstrara por ele me ter machucado de forma tão prodigiosa, permiti que ele afastasse as minhas coxas, abrindo caminho para uma nova tentativa; mas cuidei tão bem da orientação e do manejo da sua penetração que, sem bem o orifício se abriu minimamente a ela, e dei uma sacudida abrupta, tão bem cronometrada que pareceu proceder não de uma sonegação da sua entrada, mas da dor a que os esforços me submetiam: uma circunstância que tampouco deixei de acompanhar dos devidos gestos, suspiros e gritos queixosos, entre os quais, ter-me ele machucado... estava me matando... eu ia morrer... eram as interjeições mais freqüentes. Mas agora, após repetidas tentativas, nas quais ele não conseguiu fazer o menor progresso em direção à conquista do seu objetivo, pelo menos por essa vez, o prazer tomou-o tão rapidamente que ele não conseguiu detê-lo nem retardá-lo e, com vigor e fúria, que a aproximação do auge lhe inspirava, ele deu uma estocada tão violenta que quase me pegou desprevenida, e conseguiu alojá-lo ao ponto de eu poder sentir a cálida aspersão bem dentro do orifício exterior, tendo tido eu a crueldade de não deixá-lo concluir ali, mas deitei-o fora outra vez, não sem uma exclamação bem alta, extremamente aguda, como se a dor me tivesse feito esquecer qualquer preocupação de ser ouvida.





Foi fácil então observar que ele estava mais contente, mais altamente satisfeito com os supostos motivos para o fiasco da sua conclusão, do que teria ficado com a sua completa consecução. Foi baseada nisso que desculpei para mim mesma toda a falsidade de que lancei mão para garantir-lhe aquele prazer extasiante, que com toda a certeza ele não teria sentido na verdade das coisas. Acalmado, no entanto, e aliviado por uma descarga, ele agora se aplicava a me lisonjear, estimular e me colocar no estado de espírito e de paciência para aguentar a sua próxima tentativa, para a qual começou a se preparar e a reunir forças com todos os incentivos do toque e da visão que ele podia imaginar, examinando cada parte isolada de todo o meu corpo, com as quais declarava sua satisfação por meio de elogios arrebatados, beijos pespegados por toda parte, não me poupando nenhuma, na mais ávida licenciosidade de sensação, visão e bolinagem. Seu vigor, no entanto, não voltou tão depressa, e senti-o mais de uma vez batendo à porta, mas com tão pouca condição de arrombá-la que fiquei me perguntando se ele teria forças para entrar caso eu a escancarasse.






Mas nisso ele me considerou muito pouco familiarizada com a natureza das coisas, para sentir qualquer decepção ou confusão a respeito, e ficou se cansando, e a mim, por um longo tempo, até conseguir alguma ereção para retomar suas tentativas com mínimas perspectivas de sucesso. E nisso eu o exauri tão ardentemente e o deixei tão encurralado que, antes de ele poder fazer qualquer progresso sensível no sentido da penetração, teve de suar e se esgotar de verdade, mas todo satisfeito, de forma que o dia já havia raiado antes de ele ter conseguido desaguar pela segunda vez, tendo entrado só pela metade, e eu o tempo todo chorando, queixando-me do seu prodigioso vigor e da enormidade daquele instrumento com que eu parecia estar sendo rasgada ao meio. Porém, finalmente cansado dessa labuta tão atlética, meu paladino começou a dar o prego e a colher com alegria o refrigério de algum repouso. Beijando-me então com muito afeto e recomendando-me que eu repousasse, ele nesse momento caiu no sono; ao que, assim que fiquei bem certa disso, eu, com, muito cuidado, de forma a não acordá-lo com excessivos movimentos, e com muito sossego e segurança também comecei a executar o estratagema da Sra. Cole para completar os sinais da minha virgindade. Em cada um dos balaústres da cabeceira, bem em cima de onde as travas da cama neles se inserem, havia uma pequena gaveta, tão astuciosamente adaptada às molduras entalhadas na madeira que teria escapado até mesmo à busca mais curiosa; tais gavetas se abriam ou fechavam facilmente ao toque de uma pequena mola, estando cada uma preparada com um copo baixo, de vidro, cheio de um preparado fluido feito sangue, no qual estava embebida, pronta para o uso, uma esponja que não exigia mais do que lhe estender a mão, retirá-la e apertá-la adequadamente entre as coxas, ao que produzia bem mais daquele líquido vermelho do que a honra de uma moça guardava; após o que, recolocando tudo no lugar e dando um toque na mola, qualquer possibilidade de descoberta, ou mesmo de suspeita, ficava afastada; tudo isso era obra para quarta parte de um minuto, e em qualquer lado que se estivesse deitada, a coisa era igualmente fácil e prática, pelo cuidado duplo tomado de ter cada balaústre provido da mesma maneira. Verdade é, tivesse ele acordado e me pegado no ato, isso teria no mínimo me coberto de vergonha e confusão; mas que isso não acontecesse era, com as precauções que tomei, um risco de mil contra um em meu favor.






Agora tranquila e livre de qualquer temor de dúvida ou suspeita por parte dele, voltei-me com boa disposição para o meu repouso, mas não consegui obter nenhum. E, em cerca de meia hora, meu cavalheiro voltou a acordar e, virando-se para mim, fingi um sono profundo, que ele não respeitou por muito tempo; e sim, tornando a aproximar-se para renovar o ataque, começou a beijar-me e a acariciar-me, quando então, fazendo como se tivesse acabado de acordar, queixei-me dessa perturbação e da dor cruel de que aquele pequeno repouso tinha roubado os meus sentidos. Ávido, no entanto, pelo prazer, bem como pela honra de consumar um triunfo completo sobre a minha virgindade, ele disse e fez tudo o que podia para subjugar minha resistência e conquistar minha paciência para esse fim, o que eu agora estava pronta para ouvir, por me encontrar segura das provas sanguinolentas que havia preparado da sua violência vitoriosa, apesar de achar de bom alvitre não deixá-lo entrar ainda por algum tempo. Respondi então apenas às suas importunidades com suspiros e lamúrias de que estava tão machucada, que não podia suportar aquilo... estava certa de que ele me tinha feito mal; que tinha sim... era um homem tão mau!






A isso, virando as cobertas e vendo o campo de batalha ao bruxuleio de uma vela agonizante, ele pôde observar claramente as minhas coxas, a camisola e os lençóis, tudo ainda úmido e manchado com o que ele prontamente tomou por sangue virginal, devido à sua última penetração; convencido e extasiado com isso, nada podia igualar sua alegria e exultação. A ilusão foi completa; nenhuma outra ideia entrou em sua cabeça senão a de ter conseguido cavar uma mina nunca antes aberta, ideia que, diante de evidências tão fortes, redobrou imediatamente a sua ternura por mim e o seu ardor por arrombá-la de vez. Beijando-me então com o mais profundo enlevo, ele me reconfortou e pediu-me perdão pela dor a que me havia submetido, observando que esse percalço fazia parte do caminho, mas que o pior já havia certamente passado e que, com um pouco de coragem e constância, eu teria tudo resolvido de uma vez e, depois disso, nunca mais experimentaria outra coisa senão o maior prazer. Bem aos poucos, fui permitindo que ele prevalecesse sobre mim, e dando, por assim dizer, caminho para ele, fiz com as minhas coxas, abrindo-as como quem não está alerta, permitissem a liberdade de acesso, o qual, aumentando, ele consegui entrar um pouquinho em mim, quando, por uma recepção bem manobrada, executei o aperto feminino tão direitinho que lhe impedi o rumo fácil pelo meio do canal e, por meio de habilidosas torções e contorções, criando uma dificuldade artificial para a entrada, eu o fiz ganhá-la centímetro a centímetro com os esforços mais laboriosos, o tempo todo fechando-me dolorosamente, até que afinal, usando de toda a força, insinuando-se caminho adentro, ele o alojou por completo e, dando à minha virgindade, conforme pensou, o coupe de grace *, forneceu-me a deixa para lançar um grito terrível, enquanto ele, triunfante e feito um galo batendo as asas sobre a sua patroa escarrapachada, deu seguimento ao seu prazer, o qual, nesse momento, em virtude dessa ideia de vitória completa, chegou a um auge que logo me fez sentir seu momento de dissolução, enquanto eu agora me encontrava deitada, interpretando a jovem profundamente ferida, sem fôlego, apavorada, estragada, já não mais donzela.”








*Golpe de misericórdia (N.T.)



(Fanny Hill ou Memórias de uma mulher de prazer, 
tradução de Eduardo Francisco Alves)




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