terça-feira, 18 de outubro de 2011

EROTISMO E HUMOR – 2





A literatura erótica tem por objetivo despertar a libido, com descrições e narrações de conteúdos sexuais. No entanto, quando cai no humor, a descrição mais fescenina torna-se apenas humor, nada mais. O erotismo desvanece. Henry Miller, em O Trópico de Capricórnio, talvez sem o querer, estabelece bem a diferença entre humor e erotismo, quando descreve a mulher divertida no sexo:






(Autor não identificado)





“Evelyn [...] tinha uma boceta que ria. [...] Tudo era piada, inclusive foder. Ela seria capaz de fazer um pau duro rir, o que não é pouca coisa. Dizem que um pau duro não tem consciência, mas um pau duro que ri também é fenomenal. Só posso descrever o negócio dizendo que quando ela, Evelyn, quero dizer, ficava quente e interessada, encenava um ato de ventriloquia com sua boceta. Você estava pronto para enfiar o membro quando de repente o boneco que ela tinha entre as pernas soltava uma gargalhada. Ao mesmo tempo, avançava em sua direção e dava-lhe um alegre puxão e apertão. Sabia cantar também, esse boneco de boceta. Na verdade, portava-se como uma foca amestrada.



 



(Autor não identificado)



Nada é mais difícil que fazer amor em um circo. À força de executar constantemente o número de foca amestrada, ela se tornara mais inacessível do que se tivesse sido fechada entre grades de ferro.

[...]

Quando a fêmea ri, o melhor que o macho tem a fazer é correr para o abrigo contra ciclones. Nada resiste àquela gargalhada vaginal, nem mesmo concreto armado.”

(Trópico de Capricórnio, tradução de Aydano Arruda)




Acho que podemos exemplificar o humor no erotismo com dois trechos de duas obras: a primeira, do século XVIII – Teresa Filósofa; e a segunda, contemporânea – Pornopopeia.

Teresa Filósofa, de autor anônimo, é um clássico. Conta a história de uma moça “esperta” tanto nas artes da sacanagem quanto nas firulas da filosofia da época. É um livro de sacanagem com filosofia, ou seja, primeiro vem a sacanagem, depois o pensamento erudito que busca justificar, diante de deus, a sacanagem dos homens, e das mulheres. Muito bom.

No trecho selecionado, uma velha cafetina combinara um programa entre uma prostituta e três frades. Combina o programa com a “senhora” Bois-Laurier (amiga de Teresa) que narra o episódio.

No meio da orgia, um dos padres, já totalmente bêbado e frustrado por não conseguir trepar com a Bois-Laurier (por um motivo que só lendo o livro, para acreditar!), revolta-se e diz que não irá embora, “enquanto não tiver fodido, nem que seja o diabo”. Então, entra em ação a velha cafetina, a senhora Dupuis:


 



(Fujiwara-Hazuki)





“[...] – Pois bem, fode! – disse ela, arregaçando as suas roupas até o umbigo. – Olha essa boceta venerável, que vale por duas. Sou uma ótima diabinha... Fode-me então, se ousares, e ganha o teu dinheiro!

Ao mesmo tempo ela pega o padre Ange pela barba e o arrasta para cima dela, deixando-se cair na pequena cama. O Padre não está nada desconcertado pelo entusiasmo da sua Proserpina, ele se dispõe a meter e o faz imediatamente.







(Autor não identificado)


Mal a sexagenária Dupuis provou da fricção de algumas sacudidelas do padre e esse prazer delicioso, que nenhum mortal tivera a ousadia de fazê-la experimentar há mais de vinte e cinco anos, transporta-a e logo a faz mudar de tom:



 



(Autor não identificado)



- Ah, meu Papai – dizia ela, debatendo-se como uma raivosa, meu querido Papai! Mete, vamos... dá-me prazer... tenho somente quinze anos, meu amigo. Sim, estais vendo? Tenho somente quinze anos... Estás sentindo esse ritmo? Vai, então, meu pequeno querubim! Estás me devolvendo a vida... estás fazendo uma obra meritória...








(Autor não identificado)


No intervalo dessas ternas exclamações, a Dupuis beijava o seu campeão, beliscava-o, ela o mordia com os dois únicos tocos de dente que lhe restavam na boca.




De um outro lado, o padre, que estava sobrecarregado de vinho, nada mais fazia do que O relinchinar, mas esse vinho começando a subir, logo a galeria composta pelos Reverendos Padres Anselme, Hilaire e eu, percebeu que padre Ange perdia terreno e que os seus movimentos deixavam de ser regularmente periódicos.







(Autor não identificado)

- Ah, droga! – exclamou de repente a conhecedora Dupuis –, acho que estás brochando... Cachorro, se me fizesse tal afronta...

Nesse instante o estômago do padre, cansado pela agitação, faz bluf e lá se foi a inundação diretamente no rosto da infeliz Dupuis, no momento de uma das exclamações amorosas que mantinham sua boca aberta; a velha sente-se contaminada por essa exlibação infecta, o seu estômago se revolta e ela paga o agressor com mesma moeda.








(Autor não identificado)


 


Jamais houve espetáculo mais horroroso e mais risível ao mesmo tempo. O monge torna-se pesado sobre a Dupuis, esta faz poderosos esforços para virá-lo de lado e consegue. Ambos nadam na sujeira, seus rostos estão irreconhecíveis. A Dupuis, cuja raiva estava somente suspensa, cai sobre o Padre Ange com fortes socos. Meus risos imoderados e os dos dois espectadores tiram nossa força para lhes prestar socorro. Enfim, fomos até eles e separamos os campeões. Padre Ange adormece, a Dupuis se limpa. Chegando a noite, cada um se retira e volta tranquilamente para o seu solar.”






(Teresa Filósofa, tradução de Carlota Gomes)







O segundo texto foi extraído da obra do brasileiríssimo Reinaldo Moraes. Pornopopeia é a história de um publicitário às voltas com sua falta de criatividade para elaborar um anúncio de uma fábrica de embutidos de frango. Sua trajetória é forrada de muita droga, muita bebida e muito sexo, mas sexo escrachado, como podem ver no trecho abaixo, onde o narrador participa de uma orgia pseudo-budista:



 



(Autor não identificado)



[...] Caminhei de língua em riste em busca do grelo perdido, dando de passagem uma lustradinha no brinco dourado, uma joia incrustada na outra.

A guria deu uns tremeliques e voltou a arrebitar a bundinha facilitando meus trabalhos linguais. O gosto de sangue prevalecia no coquetel, e eu entendi mais uma vez, como sempre acontece quando me ponho a chupar uma buça regrada, qualé a grande onda dos vampiros. De fato, nada como o liebfräublut colhido na fonte. A transilvânica e canibalesca iguaria me dá uma turbinada fudida no tesão. Sem contar que, ao praticar o cunnilingus pelo derrière de milady, você vai incorrer fatalmente no narigânus, que outra coisa não é senão o contato direto da sua napa com o orobó da fêmea que você está a cunnilinguar, ora pois.







(Autor não identificado)




Sei lá, viu. A vida humana ainda é muito primitiva em vários aspectos. Quem tivesse vivido ou apenas visto aquelas evoluções no porão não duvidaria dessa minha alta constatação antropológica.






(Autor não identificado)


Enquanto devorava a buceta da Sossô, eu ia me proporcionando uma punhetinha maneira pra manter o nível paudurístico. A certa altura, dando uns tiros de olho ao redor, flagrei-me num dos espelhos mágicos com a cara lambuzada de rouge-xoxotte. Boca, nariz, queixo, parte das bochechas, tudo vermelho, feito lobisomem de filme B depois de jantar um figurante distraído. E a Sossô, só ali, lustrando o cabeçote do bailarino. De vez em quando, liberava a mão direita e dava umas apalpadas na volumosas almôndegas dentro do saco preto do cara, coisa que pude constatar por debaixo da xotinha dela, ao recuar minha cara pra tomar fôlego e decidir se metia duma vez por todas o bruto na racha ou se continuava chupando mais um pouco. Até agora não entendo como foi que o Melquíades conseguiu brecar por tanto tempo a ejaculação, na certa esperando que eu me resolvesse a enfiar logo a piça na frangota. Daria um artista pornô de primeira, o filhadaputa. No lugar dele eu já teria gozado umas oito vezes sem tirar das amígdalas da sinhá-moça.






(Autor não identificado)

Uma hora lá me bateu uma puta inveja do Melquíades. Não ciúme, inveja mesmo. Queria eu ter um pingolim daquele tamanho e homenageado daquele jeito, com anima & cuore, pela petite diablesse du petit pagode. Ocorreu-me, então, uma joia de reflexão psicanalítica: quem tem inveja do pênis alheio é o homem, não a mulher, que, afinal de contas, se não for uma baranga desgraçada, nem uma veia coroca, pode ter quantos deles quiser.[...]


(Autor não identificado)


(Pornopopeia, de Reinaldo Moraes)




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