sexta-feira, 16 de setembro de 2011

PROVA DE VIRGINDADE




(André Lambert)

Esta “LUA” resolveu investigar um pouco mais o “tabu da virgindade” (título, aliás, de um livro de Freud) e encontrou o delicioso artigo abaixo, de Luís da Câmara Cascudo, nosso grande folclorista.

Leia, divirta-se e tire suas conclusões...



EXIBIÇÃO DA PROVA DE VIRGINDADE


Luís da Câmara Cascudo








Minha avó materna, Dona Maria Ursulina da Camara Fernandes Pimenta (1835-1929), referindo-se a uma moça desenvolta e airada no seu tempo, disse, distraída e precisa: "Aquela não mostra os panos!..."




Eu já estava, há muitos anos, pesquisando etnografia e terminava o curso jurídico. Perguntei a razão da frase. Vovó atrapalhou-se e foi com muita insistência minha que atendeu explicar. Outrora, mesmo no tempo da Guerra do Paraguai, uma hégira nos serões do Brasil, era costume a exibição dos panos íntimos da desposada, mas a mãe ou a sogra ia provar a virgindade da filha ou da nora recém-casada, mostrando as nódoas de sangue na cambraia doméstica. Os membros da família, tios, avós, tinham o direito de ver o documento da violação legal do hímen. Quando tal exibição nao ocorria, era natural a suposição de que a noiva tivera matrimônio com marido não paciente na ocultação de pecado anterior da nubente. "Aquela que não mostra os panos..." não poderá documentar sua donzelice. Mesmo casada, ficava com fama de "mulher-solteira".







Na sua autobiografia, Freud alude à infinita hipocrisia com que todos escondem quanto se refira à sexualidade, como se dela não participassem. Nos estudos de etnografia e registros do folclore essa seção é tabu respeitado e ambivalente na atração e repugnância de sua pesquisa e fixação.






Estudante de medicina, convivi em Natal com os velhos médicos parteiros e deles ouvi muita anedota curiosa sobre o pudor que enrolava ciumentamente a vida sexual dos cônjuges consulentes. Quando lhes perguntava por que não escreviam sobre aquele precioso material, limitavam-se a sorrir ou abanar a mão num gesto de afastamento da tentação. Era assunto proibido. Ninguém mais os consultaria depois de divulgada tal observação. Segredo profissional.






Um estudioso honesto e de meticulosidade comprovada, Sr. Manuel Rodrigues de Melo, revelara observação feita no sertão do Seridó: "Com o casamento, o lençol da noiva era furado no centro para facilitar a cópula, resguardando, naturalmente, o corpo dos olhares do noivo. Na manhã seguinte ao casamento os lençóis eram estendidos à admiração do público, como prova da virgindade da noiva e virilidade do noivo". Ora, a exigência do pudor físico outrora atingia minúcias inauditas. Rara seria a mulher casada que se despisse diante do marido. Para muitos homens a nudez feminina era vista na intimidade mercenária das cidades, fora uma revelação perturbadora. Nem a mulher se despia nem eles o faziam, igualmente. O corpo era vedado ao olhar conjugal, para que não excitasse demasiado, privando o homem do emprego de maior energia nos trabalhos da rotina cotidiana. A cópula debilita como uma grande sangria na veia, diziam os antigos. Ficava-se com o corpo aberto, enfraquecido pela descarga seminal. Cangaceiros, caçadores, viajantes não praticavam o coito em véspera de ação profissional.








Meu pai, em 1885, no lugar Quixabá, sete léguas ao norte da cidade de Sousa, Paraíba, viu um pequeno avental de linho, bordado de retrós preto e vermelho reproduzindo o órgão feminino, e com cordões para ser atado à cinta. Meu pai deparou aquele folium vitis matuto enxugando ao sol numa dependência da casa onde se hospedara. Empregavam o avental na própria junção carnal. Afirmou-me ser de uso comum naquele tempo. Meu pai confirmava a normalidade do uso do lençol furado para casados de pouco tempo, primeiros meses de união íntima. O lençol era bordado com lavores em relevo e peça valiosa do enxoval.




O Sr. Álvaro José de Melo, alagoano d Sant'Antônio Grande, ouviu do seu tipo, Ernesto Marinho de Melo, que na mesma cidade de Alagoas Velha (hoje Deodoro), havia antigamente a mesma tradição do lençol furado, enfeitado ricamente e também a exibição da camisa ou panos íntimos da recém-casada no dia seguinte ao matrimônio. Expunham à janela ou dobrada na meia-porta, bem visível a parte manchada, e o pai da noiva ficava sentado, esperando os transeuntes que, deparando a prova da virgindade, saudavam-no afetuosamente: "Meus parabéns!" E o velho respondia amável: “Muito obrigado”. Assim dezenas de vezes. Quando não havia tal documento visível, os comentários eram desfavoráveis e cruéis à honestidade da nova senhora. Ela não mostrara os panos. Minha avó dissera, evidentemente, um fato indiscutível e que desaparecera na citação comum e popular, perdida à memória do uso e mesmo uma alusão à sua passada vulgaridade.








Com tais rigores de evitação, seria um índice de espantosa força a tradição de alguém expor aos parentes a camisa ou o lençol da noiva, ainda manchado das provas da virgindade desfeita na noite anterior. Para essa amostra pública o pudor era não praticá-la, porque implicava confissão expressa de desonestidade indiscutível.




Meu pai, informador maravilhoso do sertão e agreste do seu tempo (1863-1935), evocava que, em certas ocasiões, indo os noivos residir em casa separada daquela em que a festa se fazia durante toda a noite, os parentes e familiares que estavam dançando e bebendo eram avisados da situação regular dos recém-casados por um foguete ou disparo de espingarda. O estampido tranquilizava a todos e as alegrias recrudesciam, mais intensas, sonoras e prolongadas. Não havendo o sinal esperado, ficavam aguardando o desfecho melancólico, a entrega da noiva, humilhada, ao sogro confuso pelo seu pouco cuidado com a filha, impaciente de amor sem casamento.







O lençol furado e os aventais bordados denunciavam o tabu do contato epidérmico, materializando formas de impedir ou evitar a atordoante nudez feminina. A mesma proibição, formal e categórica, não permitindo banhos conjuntos, de homens e mulheres, para gregos e romanos, vive entre ameríndios e africanos, orientais e ocidentais, de maneira positiva e total. O negro e o indígena nem mesmo atravessam as águas dos banhos femininos. Acreditam as mais humildes e pobres meretrizes que esse banho irresponsável, provocando a imagem confusa e reprovada da promiscuidade, inferior e bestial. Deverá interferir a lembrança do banho sagrado, ritual lavador de mazelas morais, ao lado da defesa convencional ou instintiva, do pejo e da vergonha.








(Ilustrações: autor não identificado)



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