sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A PRIMEIRA VEZ... DO POETA


(Eugène Reunier)

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Duvidosa afirmação. Podemos, sim, esquecer, pois a vida nos leva para caminhos tão diversos e o tempo nos faz esquecer coisas que jamais gostaríamos de esquecer. Privilégio lembrar, principalmente em detalhes, por significativa, a primeira relação sexual. Porém, mais estranho que lembrarmos, é alguém lembrar por nós. E mais: relatar em livro. É o que acontece com um dos maiores poetas do século XX, o estadunidense E. E. Cummings (ele preferia assinar-se “e. e. cummings”, com minúsculas): sua primeira vez está relatada no livro de Wiilliam Wiser, Os Anos Loucos.

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(Man Ray)

Esse livro é uma deliciosa reconstrução da década de vinte, em Paris, les années folles, os anos loucos. A época dos cabarés, do absinto, do florescimento das artes, enfim, um tempo de viver a ressaca da primeira grande guerra, antes que o pesadelo nazista jogasse o mundo num novo pesadelo.

Divirta-se, como eu me diverti, com o relato de Wiser, ainda nos finalmentes da primeira grande guerra (194-1918):

(e.e.cummings - selfportrait)

E. E. Cummings chegou a Paris, virgem, aos 22 anos. “Levaram-nos para um país estrangeiro”, explicou Malcom Cowley, ”o primeiro que a maioria de nós tinha visto; ensinaram-nos a fazer amor, a gaguejar amor, numa língua estrangeira.” “A Cidade Imensa”, Cummings chamou à cidade – “a mulher vaidosa e delicada”. A associação de Paris à Mulher era inevitável para o jovem criado em Boston, cujo pai era pastor unitário e funcionário da zelosa Watch and Ward Society. Paris, vazia de homens, mas fartamente provida das “melhores mulheres que Deus já permitiu que apascentassem no ar dessa fresca terra”, tornava difícil para um jovem poeta resistir ao “Tu viens?” soprado em todos os cantos. Deliberadamente ou por acaso ele levou cinco semanas para localizar o quartel da sua unidade, durante as quais perambulou à vontade por Paris. Mulheres, por toda a parte, adejavam em seu caminho, à disposição. “Tu viens?” Esse idílio prolongado apagou praticamente os pensamentos de Boston; a criação puritana do rapaz não o impediu de apaixonar-se por uma prostituta.

(e.e.cummings -  striper)


Ele conheceu Marie-Louise no restaurante e Sultana Cherque, o Oasis, na rue du Baubourg-Montmartre. Quando Marie-Louise acabava de fazer seu clássico trottoir na região entre a République e a Madeleine, ela e Cummings iam sentar-se até o raiar do dia entre as garotas e os cafetões do Oasis. Em francês colegial o poeta balbuciou seu amor a esse deleite estrangeiro. O caso não foi uma transa em tempo de guerra entre uma meretriz de Montmartre e um soldadinho na pândega: Cummings enamorou-se autenticamente e ela, pelo que as aparências indicam, sentiu-se atraída por ele.

(e.e.cummings - blue nude)

Contrariando todas as tradições da fille de joie profissional, Marie-Louise convidava o rapaz para sua casa, um apartamento mínimo na rue Dupetit-Thouars, e para sua cama – muito embora eles não consumassem o amor do modo que a ela pareceria mais natural. Era na mais inocente das intimidades que os dois dormiam juntos até o fim das manhãs. Cinco semanas não foram suficientes para que o garoto de olhos azuis de Boston se libertasse do moralismo da Watch and Ward. Impossível imaginar a reação da mulher francesa a essa persistente castidade – mas Marie-Louise manteve o relacionamento com seu ingênuo americano até que Cummings, ainda virgem, se apresentasse ao serviço.

(Man Ray - Le violon d’Ingres)

Na linha de frente, o motorista de ambulância Cummings foi envolvido numa trama kafkiana que animou o restante de se seu tempo na França e forneceu-lhe o material para o primeiro livro. Em defesa de um amigo que havia escrito uma carta indiscreta sobre o baixo moral das tropas francesas (a carta, naturalmente, foi interceptada pela censura), Cummings, junto com esse amigo, foi acusado de simpatizar com o inimigo. Os dois voluntários americanos foram internados no centro de detenção de La Ferté Macé, um campo de concentração para militares desajustados.






(La Ferté Macé – Place du Midi - início do século XX

O reverendo Cummings levou ao máximo que pôde a pressão política, através de uma série de cartas ao presidente Wilson, para garantir a libertação do seu filho. O poeta, ao finalmente receber permissão para sair de La Ferté Macé, recebeu também ordem de apresentar-se à embaixada americana, onde o instruíram sobre o regresso à pátria. Ele teve três dias em Parias antes de o seu navio partir.





(Paris - 1918)

No Hôtel dês Saints-Pères, no coração do Quartier Latin, Cummings lavou-se da sujeira e das pragas de sua vida na prisão. O trabalho na ambulância e a implacável realidade de La Ferté Macé tinham alterado certos conceitos de moralidade da Nova Inglaterra. O jovem poeta logo saiu pela rue dês Saints-Pères atento a todas as sensações, excitado por todas as possibilidades. Ao lançar-se à procura da amada de antes, pelas ruas sabidamente frequentadas por ela, Cummings mais uma vez se apaixonou por Paris.





(Paris - 1918)

Era hora de terminar com a já insuportável virgindade, nessa cidade onde tal perda ou ganho transpira sempre tão a jeito. Mas prostitutas são as criaturas mais impermanentes da noite. Pelo que encontrasse de substância de sua evanescente borboleta, Cummings poderia ter imaginado a garota. Ela havia deixado o apartamento da rue Dupetit-Thouars. Ele refez o caminho erradio das suas noites de trabalho da République à Madeleine – um vasto território coberto por três arrondissements; demorou-se em calçadas e esquinas onde era mais provável que as abordagens dela ocorressem. Voltou seguidamente ao Oasis, onde eles tinham se encontrado tantas vezes para uma conversa tranquila na madrugada sem pressa. Mas o poeta nunca iria recapturar seu primeiro amor, a não ser em verso. Era o último ano da Grande Guerra. Muita gente já havia passado por Paris – e fugido, morrido ou desaparecido.

(Salão de Paris - 1918)


A última noite de Cummings na cidade foi dominada pelo desejo de terminar sua inocência incômoda: ele tinha se tornado um homem em todos os sentidos, menos neste. Já muito tarde, no Oasis, uma garçonete bem bonitinha, Berthe, dividiu com ele uma mesa e uma garrafa de champanha. Antes de a cidade voltar à agitação da vida no romper da manhã, e ele pegar um trem para embarcar em seu navio no Havre, Cummings acompanhou a doce e complacente garçonete à sua chambre de bonne. Berthe tornou-se a substituta de última hora para Marie-Louise, uma parceira de amor por procuração, uma despedida agridoce de Paris.

(Woman with hat and pearls, 1918, Paris)




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