sexta-feira, 22 de julho de 2011

O MEDO DA CASTRAÇÃO: A VAGINA COM DENTES






Um dos maiores terrores do macho, no terreno do sexo, é o medo da castração. Os mitos relacionados a uma vagina com dentes percorrem o imaginário humano. Abaixo, um trecho do livro “A História da V.”, de Catherine Blackledge acerca dessas histórias tenebrosas. Os mitos referidos por ela podem esclarecer muitos aspectos da sexualidade humana.



ABRINDO A CAIXA DE PANDORA





Uma mandíbula esfomeada. Uma goela gulosa. Um abismo denteado, voraz, faminto. Vagina dentata – a vagina com dentes – uma antiga imagem ansiosa que percorre o folclore, mitologia, a literatura, as artes e o mundo onírico da humanidade. Para muita gente, o mais poderoso de todos os mitos e superstições a respeito da vagina, a vagina dentata talvez seja o mais comum. Sua presença ao redor do globo é estonteante. Despedaçando e grunhindo, emasculando e mutilando homens, encontra-se o mito da vagina dentata da América do Norte à América do Sul, através da África, e também na Índia e na Europa. A onipotência desse motivo da vagina devoradora também sobreviveu por milênios, e muitos mitos da criação de muitas culturas estão impregnados de imagens castradoras e mortais. Dizia-se que as primeiras mulheres dos índios do Chaco tinham dentes em suas vaginas, com as quais comiam, e os homens não podiam se aproximar delas até que Caroucho, o herói do Chaco, quebrou seus dentes.





Os ianomâmis, da América do Sul, dizem que um dos primeiros seres sobre a terra era uma mulher cuja vagina se tornou uma boca denteada e cortou fora o pênis de seu parceiro. Na Polinésia, Hine-nui-te-po, a deusa do mundo subterrâneo e a primeira mulher sobre a terra, de cujo útero tombaram todos os demais, usa sua vagina para assassinar Maui, o herói polinésio. Maui rasteja até a vagina de Hine-nui-te-po com a esperança de retornar para seu útero, e dessa forma enganar a morte e atingir a imortalidade. Ao invés disso, ele é partido em dois pelas bordas pétreas de sua vagina decepante produtora de relâmpagos e faíscas e, devido à sua derrota para a deusa vagina, todos os outros homens devem morrer.




A psicologia sugere que o folclore sexual está repleto de histórias de dentes vaginais cortantes devido ao medo que os homens têm do escuro, do desconhecido, do espaço misterioso invisível que há no interior da vagina. Outros veem as imagens da vagina dentata como a corporalização da angústia masculina diante do vórtice insaciável da energia sexual feminina. Nas próprias histórias, nem sempre se explicam a origem dos dentes genitais afiados e os motivos por trás desse comportamento, por vezes mortal. Em algumas delas, a culpa é atribuída tanto a fontes materiais como espirituais. Um mito dos índios norte-americanos conta como um peixe carnívoro habita a vagina da Mãe Terrível. Na Idade Média, as autoridades cristãs apontavam a lua e a magia ao tentar encontrar uma explicação para o assim chamado fato de feiticeiras roubarem os pênis dos homens com seus dentes vaginais.


A seguinte fábula dos mehinau, uma tribo habitante da floresta tropical do Brasil, sugere um papel masculino na dentição vaginal.

Nos tempos antigos, havia um homem furioso que sempre criticava os demais. Uma tarde, uma mulher pegou várias conchas – que se pareciam a dentes – e colocou-as em seus pequenos lábios. Mais tarde, quando escureceu, o homem quis ter uma relação sexual. “Ó, ela linda”, ele pensou. A mulher fingia dormir. “Vamos ter uma relação sexual”, ele disse. Mas, ó, seu pênis era muito grande. Ele enfiou... enfiou tudo... Tsiuu! A vagina cortou seu pênis fora, e ele morreu bem ali, na rede.

Esta história, como muitas outras, culmina na castração e na morte do homem.




Em algumas lendas folclóricas, principalmente nas dos navajos e apaches, vaginas denteadas mortais vão mais além, e são descritas como órgãos separados, que saem por aí de maneira independente e dando mordias ao caminhar. [...] Os apaches jicarilhas do Novo México, por exemplo, contam de um tempo no qual apenas quatro mulheres no mundo possuíam vaginas. Essas mulheres, conhecidas como “meninas-vagina” tinham a forma de mulher, mas eram essencialmente vaginas. Eram também filhas de um monstro assassino chamado Monstro Chutador.



Imagine a cena. De acordo com a lenda, a casa em que as quatro meninas-vagina moravam estava cheia de outras vaginas, todas penduradas nas paredes. E, o que é bem compreensível, os comentários sobre as meninas-vagina e sua casa trouxeram muitos homens para dentro da casa, para nunca mais voltar. Diz a história que isso continuou, e homem após homem desparecia, aparentemente engolidos pelas vaginas penduradas nas paredes da casa das quatro meninas-vagina. Entra em cena o Matador-de-Inimigos, o maravilhoso herói-menino.



Enganando o Monstro Chutador, Matador-de-Inimigos entrou na casa e as quatro meninas-vagina se aproximaram dele, loucas para manter relações sexuais. Mas ele perguntou: “Para onde foram todos os homens chutados para dentro deste lugar” “Nós os comemos”, elas disseram, “porque gostamos de fazer isso”, e tentaram abraçá-lo. Mas ele as manteve à distância e gritou: “Fiquem longe. Isso não é jeito de usar a vagina”. E ele lhes contou: “Primeiro eu devo lhes dar um remédio, feito de bagas azedas, que vocês nunca provaram; depois eu faço o que vocês querem”. Ao que ele lhes deu para comer quatro tipos de bagas azedas. “A vagina”, ele disse, “ficará sempre doce se vocês fizerem isto”. As bagas fizeram suas bocas enrugar, a tal ponto que não conseguiam mais mastigar, apenas engolir. Elas gostaram muito... Quando o Matador-de-Inimigos viera, elas tinham fortes dentes com os quais comiam suas vítimas. Mas esse remédio destruiu completamente seus dentes.





É horrível, mas é a remoção dos dentes vaginais (que simbolizam o aspecto devorador da sexualidade feminina) por bravos heróis masculinos que é um elemento central de muitas histórias da vagina dentata. Tenazes, lascas de pedra, pedaço de corda, o remédio de bagas do Matador-de-Inimigos, pinças de ferro, pedras e paus compridos ou grossos como pênis, tudo isso é usado como instrumento excisório na tentativa de domar a vagina denteada e criar uma mulher obediente. É revelador que, em alguns casos. Só depois que se extraíram os dentes de uma mulher – ou seja, que ela foi domada pela destruição de seu espírito e de sua insaciável e ameaçadora sexualidade – é que um homem se casará com ela. Nesse sentido, a extração dos dentes vaginais é uma metáfora de como os homens gostariam de transformar as mulheres em seres dóceis e submissos, remodeladas de forma definida por eles. Nessas histórias, ao invés de serem submetidas pela vergonha, empregam-se meios físicos para domar sua sexualidade. A seguinte descrição de extração dental vem da Índia:





Havia uma filha de Rakshasa (demônio) que tinha dentes na vagina. Quando ela via um homem, transformava-se numa linda moça, seduzia-o, cortava fora seu pênis, comia-o e dava o resto do corpo para seus tigres. Uma vez, ela encontrou sete irmãos na floresta e casou-se com o mais velho para, dessa forma, poder dormir com todos eles. Após algum tempo ela levou o mais velho dos rapazes até onde viviam os tigres, fez com que se deitasse com ela, cortou fora seu pênis, comeu-o e deu seu corpo para os tigres. Da mesma forma, ela matou seis dos irmãos até que sobrou o mais novo. Quando sua vez chegou, seu deus protetor mandou-lhe um sonho. “Se você for com a moça”, disse o deu, “pegue um tubo de ferro, enfie-o na vagina e quebre seus dentes.” O rapaz assim fez...




A fabricação de armas fálicas rígidas que jamais ficarão flácidas diante da genitália feminina também é um tema comum nesses mitos da vagina dentata. É provável que isso tenha relação com temores masculinos da natureza sexual aparentemente insaciável das mulheres, de sua capacidade de ter orgasmo sobre orgasmo com seus genitais, enquanto que os homens só conseguem ter um antes de amolecer. Tenho certeza que a escolha de dentes afiados, devoradores, como arma de escolha feminina não é mera coincidência – eles são o nítido contraste dos medos masculinos de um pênis mole e impotente. 






A criação de um instrumento alternativo constitui o núcleo de outra história de sete irmãos e seus esforços para remover os dentes vaginais de uma mulher. Essa vem dos mitos pré-colombianos dos índios norte-americanos, e está representada explicitamente numa cerâmica dos pueblos do século XI. Essa tigela dos mimbres se refere ao mito dos esforços finais dos irmãos para extrair os dentes vaginais de uma mulher com um pênis falso de carvalho e nogueira. Encontram-se representações de despedaçamento de dentes nos rituais de algumas culturas. No folclore navajo e apache o Monstro Matador mata com um porrete a Vagina Cheia, uma das mais perigosas de sua espécie, que se acasala com cactos. Hoje os pueblos e outros nativos norte-americanos usam um falo entalhado em madeira para romper simbolicamente os dentes da vagina de uma mulher.






(A História da V – Abrindo a caixa de pandora; tradução de J. M. Bertolote)

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