sexta-feira, 15 de julho de 2011

GRITOS E SUSSURROS





O que incomoda mais, vindo do apartamento vizinho, no meio da noite?


1. o som de uma batedeira de bolo;

2. música alta de uma festa;
3. latido de cachorro;
4. briga, com palavrões;
5. casal fazendo sexo.



Se fizéssemos uma enquete, é provável que a quinta alternativa ficasse em último lugar.

No entanto, não é o que pensa determinado vizinho de um casal de moradores de um prédio da cidade de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, conforme reportagem que leio em O Estado de São Paulo de 13 de junho de 2011:




“Incomodado com os sons emitidos por seus vizinhos de porta – uma professora e um aposentado, com idade entre 45 e 50 anos – um morador passou a registrar queixas no livro do condomínio.”


Até aí, nada de mais. Acontece que esses sons eram do casal fazendo sexo. E o tal vizinho fez o registro no livro do condomínio – acessível a todos – usando termos considerados ofensivos, o que levou o casal a mudar-se para o Rio de Janeiro, por causa da exposição pública, e a entrar na Justiça, pedindo indenização por invasão de privacidade e de intimidade.





O fato ficaria por isso mesmo, não fosse a condenação – que achei justíssima e, acima de tudo, exemplar – do tal vizinho rancoroso ou, talvez, invejoso da performance da professora e do aposentado. Ele deve pagar ao casal amoroso, um total de dez mil e duzentos reais de multa, além das custas judiciais.


Fiquei pensando: se fossem outros os ruídos, como os listados acima, ou até mesmo se fossem os ruídos de uma oração coletiva, como acontece, por exemplo, com templos evangélicos por aí, a berrar sua crença aos quatro ventos, como se o deus deles fosse surdo, será que haveria tanta intolerância?





Além disso, os sons do sexo, gritos e sussurros, às vezes mais gritos do que sussurros, não duram mais do que uns instantes, quase sempre no momento do orgasmo. Que eu saiba, só atores de filmes pornográficos ficam fazendo sexo por intermináveis minutos. Mortais comuns, principalmente tratando-se de pessoas, digamos, mais velhas, como o nosso aposentado e sua mulher, não se esgoelam durante o sexo por mais do que um tempo bastante exíguo.


Então, por que a intolerância para algo que vem sendo feito desde que a primeira ameba macho encontrou a primeira ameba fêmea, nos primórdios da história do homem? Se todos os seres vivos fazem sexo, por que ainda não nos acostumamos com isso? Por que todo esse preconceito?





Por isso, rolei de rir com a condenação do tal vizinho idiota e preconceituoso: afinal, casais barulhentos no sexo deviam ser música aos nossos ouvidos, incentivo à nossa libido e diversão aos nossos sentidos. Não motivo de reclamações preconceituosas e idiotas.




Faça amor, não faça fofoca, devia ser, a partir de agora, o lema do tal prédio em Nova Friburgo.


E fora com o vizinho (provavelmente) broxa e (com certeza ) invejoso!







(Ilustrações de Agostino Carracci (Bolonha, 16 de Agosto de 1557 — Parma, 22 de Março de 1602), pintor e gravador italiano. Era irmão de Annibale Carracci e primo de Lodovico Carracci. Foi, junto com seus irmãos, fundador da Accademia degli Incamminati, que levou mais tarde à Escola de Bolonha).

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