terça-feira, 3 de maio de 2011

PRIAPEIA GREGA E LATINA - 3



(Priapo - ilustração romana, s/d)



PRIAPEIA LATINA - 1



Uma pequena observação do professor João Angelo: “Ao contrário dos poemas gregos (...), os poemas latinos são verdadeiramente Priapeia, pois integram um corpus, um corpus anônimo, já que não se sabe quem é o autor dos poemas nem se foram escritos por uma só pessoa (...)”.




(Autoria não identificada)




De modo obscuro eu poderia te dizer:
“me dá o que, se deres, nada perdes;
dá o que um dia em vão talvez queiras dar quando
invejosa invadir teu rosto a barba;
o que a Júpiter
(1) deu quem (2), raptado por sacra
ave, entorna ao amante gratos copos;
o que à primeira noite ao noivo a virgem dá
se, inepta, noutra parte teme a dor”.
Muito mais simples é dizer: “me dá teu cu”.
O que fazer? Minerva
(3) em mim é grossa.





(1) Júpiter, o Zeus grego, filho do titã Crono e de Reia. Matou o pai, porque impedia os filhos de nascer. Assim, mais que tudo, Júpiter é manifestação do poder e da soberania.

(2) Ganimedes: jovem de estirpe e de imensa beleza, excitou o desejo de Júpiter, que incumbiu sua ave favorita, a águia, de raptá-lo e o levar ao Olimpo, para com ele satisfazer seus desejos sexuais. O rapto de Ganimedes é assim o arquétipo mítico da pederastia. Na celeste morada, Ganimedes é escanção, aquele servidor (em latim minister) que entorna, que ministra o néctar na taça de Júpiter e dos outros deuses.




(3) Minerva, Atena grega. É filha de Métis e Júpiter/Zeus, que a engoliu frávida, aconselhado por Urano e Geia, que lhe revelaram que, se Métis gerasse uma filha, esta iria desposar um homem que arrebataria a Júpiter o poder celeste. No parto, o deu ordenou a Vulcano que fendesse a machadadas a cabeça, da qual saiu uma menina totalmente armada. Tem como insígnias a lança, o capacete e a égide, que divida com Júpiter; sobre o escudo fixou a cabeça da Górgona; seu animal predileto era a coruja, sua planta, a oliveira.







(Escutura pré-colombiana, s/d)




Priapo de madeira embora eu seja,
com foice de madeira e pinto, vou
prender-te e te prensar, e todo o meu
pau, mais teso
(1) que a amarra em catapultas,
que as cordas da guitarra em ti eu vou
meter até a sétima costela.



(1) Teso... cordas da guitarra : imagem de excitação sexual.




(Autoria não identificada)




Cuida que eu não te pegue (1); pego, não terás
açoites nem feridas más da foice:
vai trespassar-te um pau enorme e apertar tanto
que acharás que teu cu não tinha pregas.





(1) Não te pegue: Priapo dirige-se a um homem que pretende roubar frutos do pomar sob sua guarda.





(Escultura de Albert Castle)




Se menino, enrabar; se menina, foder;
Ladrões barbados têm terceira pena
(1)




(1) Terceira pena: tertia poena, penetração oral (irrumare), não nomeada no poema. As três – penetração anal (percidere), vaginal (futere) e oral (irrumare) – correspondentes à “triporneia”, são reservadas a cada espécie de ladrão – rapaz, menina, homem adulto – que invadirem o pomar vigiado por Priapo. A condição de adulto é marcada pelo termo “barbados”, barbatium, que não designa apenas a barba, mas também os pelos genitais.






(Autoria não identificada)




Importuno guardião, por que te metes?
Por que proíbes vir aqui ladrões?
Deixa entrarem pois vão sair mais largos.







(Cerâmica pré-colombiana, s/d - Museu R.L. Herrera)




A vantagem maior que há no meu pinto é esta:
p’ra mim mulher alguma nunca é larga
(1).



(1) A vantagem (commoditas) que Priapo alardeia pressupõe também a intenção de ocultar um defeito moral: o membro grande, ao contrário do que ocorre em certos níveis de nossa cultura, era sinal degradante de excesso, de modo que associá-lo a alguém era insulto.



(João Angelo Oliva Neto, Falo no Jardim – Priapeia Grega, Priapeia Latina; Ateliê Editorial; Editora da Unicamp, 2006).



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