terça-feira, 12 de abril de 2011

UMA CARALHADA DO SÉCULO XVI




(autor não identificado)




Antonio Vignali. Nasceu em Siena, em 1501, e morreu em 1559, em Milão, onde estava exilado. Dedicou-se inicialmente às letras jurídicas e era bastante versado em letras latinas e em vários dialetos peninsulares que precederam o italiano. É o autor de uma obra licenciosa – A CAZZARIA!








(autor não identificado)



CAZZARIA significa, mais ou menos, CARALHADA. É uma paródia dos diálogos aristotélicos, ou seja, é escrito em forma de conversa entre Arsiccio e Sodo. Arsiccio (Esturricado) é o nome acadêmico do autor e Sodo (Atarracado), o de um colega seu de Academia, Marcantonnio Piccolomini, um estudante de direito e conhecedor das letras clássicas.






(autor não identificado)



A obra estrutura-se a partir de uma questão metafísica: por que os colhões nunca entram na boceta nem no cu? O discurso segue uma linha de raciocínios e citações absurdas, numa crescente espiral de ironia e galhofa da qual nada escapa, nem os antigos filósofos, nem a Igreja e seus filósofos. Mistura uma retórica refinada com termos vulgares, num estilo que parece, às vezes, saído dos surrealistas do século XX. Os capítulos iniciam-se, sempre, com uma pergunta retórica do tipo “Por que as mulheres engravidam quando são fodidas?”, “Por que a Boceta sente prazer ao se unir ao Caralho?” ou “Por que a Boceta fica escondida e por que é tão vasta?” Divirtam-se, amigos e amigas dessa Lua Quebrada, com um pequeno trecho da CAZZARIA, numa tradução de J. M. Bertolote. As ilustrações são de uma artista francesa do século XX, Suzanne Ballivet (!904-1985).





Por que o Caralho é chamado matéria?





(Suzanne Ballivet)


“... o Caralho às vezes é chamado matéria ou coisa e, em termos de excelência e perfeição da matéria, não se encontra nada parecido ao Caralho; em suma, entre todas as coisas da criação, ele é de tal perfeição e de tanta necessidade, que sem ele nenhum homem ou animal existiria no mundo. Além do mais, não vejo nenhum ser vivo capaz de se mover sem osso, exceto o Caralho, o qual, por um admirável artifício, se levanta sem o apoio de nenhum osso, além de ultrapassar todos demais em termos de graça. Não conheço nenhum outro animal tão domesticado a ponto de se deixar manipular como ele o faz, e causa-me espanto que um objeto tão prezado, um membro tão glorioso não seja sempre mencionado com a maior das reverências.”





Por que a Boceta é chamada natureza?




                                                                                                                                         (Suzanne Ballivet)


Mas deixemos o Caralho de lado para entrarmos na Boceta, e consideremos um pouco sua glória e sua grandeza: veremos que os elementos sublimes e profundos que a compõem são únicos em sua perfeição, sua sublimidade, seu artifício e sua nobreza. É claro que se quiséssemos enumerar minuciosamente as glórias, as honras, os triunfos e todas as coisas grandiosas que dela saíram, precisaríamos viver mais que Titão (*), sem contar que ela ainda é a fonte de toda a beleza, de todo o prazer para os homens. Seria mais fácil contar as estrelas do que suas graças infinitas, seus encantos e suas gentilezas, pois não há vil patife nem desprezível biltre que não se tenha saciado inúmeras vezes com sua liberalidade. Passo por algo o fato de que, para demonstrar o quanto é magnânima e cortês, ela permanece sempre pronta, sempre aberta e escancarada, sem nenhuma barreira, de forma que nenhum poltrão, por mais miserável, ousaria chamá-la de avarenta. E, para demonstrar a sua extrema cortesia, ela jamais se preocupou com qualquer lei, tratado ou religião; nunca se deixou intimidar por perigos nem situações arriscadas, ao contrário, empenhou-se com todas as forças em seguir suas próprias inclinações. Assim como a Natureza é coisa perfeita, do mesmo modo quer que as coisas criadas para respeitar suas leis sejam perfeitas: a natureza sempre se mostrou benfazeja, ampla e e bem suprida, e a Boceta em tudo a imitou, mantendo-se sempre benfazeja, ampla e bem suprida. É por causa desta grande semelhança entre a natureza e a Boceta que às vezes, em nosso desejo de nos exprimir mais corretamente, damos à Boceta o nome de natureza, como à coisa a ela parecida em perfeição e em capacidade. E da mesma forma que o conhecimento dos segredos da Natureza representa glória, honra e reputação, a busca dos segredos da Boceta deveria ser plena de louvores e glórias, sobretudo se considerarmos o cuidado que a sagaz natureza lhe dedicou pensando em fazê-la como a forma e o refúgio de um animal tão nobre quanto o homem.”




                                                                                                                                        (Suzanne Ballivet)





(*)Titão. Marido de Aurora, o qual recebera de Júpiter o dom da imortalidade mas não o da eterna juventude, razão pela qual se tornou o mais longevo de todos os homens.






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