terça-feira, 5 de abril de 2011

UM DIA DE AMOR, COM MARINA




MARINA COLASANTI, POETA



Marina Colasanti (Asmara (Etiópia), 1937) chegou ao Brasil em 1948, e sua família se radicou no Rio de Janeiro. Entre 1952 e 1956 estudou pintura com Catarina Baratelle; em 1958 já participava de vários salões de artes plásticas, como o III Salão de Arte Moderna. Nos anos seguintes, atuou como colaboradora de periódicos, apresentadora de televisão e roteirista. Em 1968, foi lançado seu primeiro livro, Eu Sozinha; de lá para cá, publicaria mais de 30 obras, entre literatura infantil e adulta. Seu primeiro livro de poesia, Cada Bicho seu Capricho, saiu em 1992. Em 1994 ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, por Rota de Colisão (1993), e o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil, por Ana Z Aonde Vai Você?. Suas crônicas estão reunidas em vários livros, dentre os quais Eu Sei, mas não Devia (1992). Nelas, a autora reflete, a partir de fatos cotidianos, sobre a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade. Curtamos o erotismo irônico e sagaz de Marina, com ilustrações de Paul Emille-Bécat:





Amor ao meio dia





O sol

no pau

a pique.


A sombra


da vulva telha-vã.







Corpo adentro

Teu corpo é canoa

em que desço


vida abaixo


morte acima


procurando o naufrágio


me entregando à deriva.


Teu corpo é casulo


de infinitas sedas


onde fio


me afio e enfio


invasor recebido


com licores.


Teu corpo é pele exata para o meu


pena de garça


brilho de romã


aurora borealdo longo inverno.





Frutos e flores






Meu amado me diz

que sou como maçã


cortada ao meio.


As sementes eu tenho


é bem verdade.


E a simetria das curvas.


Tive um certo rubor


na pele lisa


que não sei


se ainda tenho.


Mas se em abril floresce


a macieira


eu maçã feita


e pra lá de madura


ainda me desdobro


em brancas flores


cada vez que sua faca


me trespassa.






Tua mão em mim





Você me acorda no meio da noite

e eu que navegava tão distante


cravada a proa em espumas


desfraldados os sonhos


afloro de repente entre as paradas ondas dos lençóis


a boca ainda salgada mas já amarga


molhada a crina


encharcados os pelos


na maresia que do meu corpo escorre.


Cravam-se ao fundo os dedos do desejo.


A correnteza arrasta.


Só quando o primeiro sopro escapar


entre os lábios da manhã


levantarei âncora.


Mas será tarde demais.


O sol nascente terá trancado o porto


e estarei prisioneira da vigília.






Sexta-feira à noite







Sexta-feira à noite os homens acariciam o clitóris das esposas

com dedos molhados de saliva.


O mesmo gesto com que todos os dias


contam dinheiro papéis documentos


e folheiam nas revistasa vida dos seus ídolos.




Sexta-feira à noite


os homens penetram suas esposas


com tédio e pênis.


O mesmo tédio com que todos os dias


enfiam o carro na garagem


o dedo no nariz


e metem a mão no bolso


para coçar o saco.




Sexta-feira à noite


os homens ressonam de borco


enquanto as mulheres no escuro


encaram seu destino


e sonham com o príncipe encantado.





(Felicien Rops - ofertoire)


3 comentários:

Bernardo disse...

Estou emba(s)bacado com essa Outra Marina, Que descoberta! Parabéns pela escolha apropriada das ilustrações.

daniel welbert disse...

descobri seu blog por acaso, vagando na internet após um curto dia de inúteis agonias.
foi um refrigério.

http://ossosdosnomes.blogspot.com/

dubaloop disse...

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