terça-feira, 26 de abril de 2011

PRIAPEIA GREGA E LATINA - 2



PRIAPEIA GREGA






Uma pequena observação: o título do livro – FALO NO JARDIM – refere-se à tradição de colocarem os gregos e os romanos uma estátua de Priapo nos jardins, nas hortas, nos portos ou em colinas para proteção de suas propriedades ou da própria cidade ou porto. É claro que a arma de Priapo contra os ladrões é seu imenso caralho. O poema de número 5 exemplifica bem esse fato. E Priapo é pródigo em ameaças, com essa arma poderosa. 




1. Hédilo (século III a.C)





O cinto, a roupa íntima purpúrea, a túnica
Lacônia
(1), e as contas de ouro em seus adornos,
tudo Nicônoe levou de vez
(2), divino
rebento dos Amores e das Graças.
Pois a Priapo, que a julgou
(3) ser a mais bela,
tosão de gamo oferta e áureo cântaro
(4).



(1) túnica lacônia: era leve e transparente, na cor púrpura.

(2) levou de vez: ganhou, obteve, semelhante ao uso familiar de nosso “papar”
(3) Priapo que a julgou: o “julgamento de Priapo” é o desejo sexual e o favor que Nocônoe causa nos homens
(4) tosão de gamo/áureo cântaro: atributos de Dioniso que sugerem que Nocônoe é bacante



2. Antípatro de Sídon (séculos I a.C. – I d.C.)






Priapo, vendo em pé o pau de Címon, disse:
“ai!, a mim, imortal, vence um mortal”.



3. Filipe (século II d.C.)






“Maduro vejo os figos
(1). Se me permitires
colher alguns...” “Não toques nem num só!”
“Priapo irado!” “E peço-te um favor, e não
virás em vão: me dá, que estou carente!”
“Queres algo de mim? Diz!” “Há uma lei: QUEM DÁ
RECEBE”. “Tu. que és deus, queres dinheiro?”
“Quero outra coisa.” “O que é?” “Após comer meus figos,
teu figo aí detrás me dá contente.”



(1) figos: de maneira geral, as palavras gregas para “figo” conotam o ânus e o coito anal.


4. Erício (século I a.C.)




Como pesa, Priapo, e como é dura a arma
que toda inteira estendes da virilha,
não inepta ao amor: tens sede de mulher,
ó meu caro, e o teu peito todo é cheio,
é só desejo. Mas repousa o falo enorme,
oculta-o na túnica florida,
que erma colina não habitas mas proteges
a sacra Lâmpsaco, nas praias de Hele
(1).




(1) praias de Hele: trata-se do Helesponto, estreito que fica no Quersoneso, na Trácia (atual estreito de Dardanelos na Turquia), em cuja margem está a cidade de Lâmpsaco, berço de Priapo e mais famoso local de seu culto.



5. Antístio (século I a.C. – I d.C.)





Guardião do campo em pé eu fico em ricas terras,
olhando a choupa, as plantas de Fricão.
E digo a cada um: “depois de ver e rir
de meu equipamento
(1) segue estrada.
Mas se avanças onde é proibido, hirtos pelos
(2)não vão valer-te: eu sei varar a todos”. (4)



(1) rir de meu equipamento: em outros poemas, há referência ao “rir sardônico”, isto é, arreganhando a boca, com referência clara à felação.



(2) hirtos pelos: refere-se não apenas à barba, mas aos pelos genitais. Há três penas reservadas aos ladrões que invadem o pomar vigiado por Priapo: se rapaz, sexo anal; se menina, sexo vaginal; se adulto (barbado), sexo oral. A referência aos pelos hirtos (da barba e dos genitais) é ameaça dupla ao ladrão.



(3) sei varar a todos: o verbo, aí, equivale a “penetrar o ânus”.


(João Angelo Oliva Neto, Falo no Jardim – Priapeia Grega, Priapeia Latina; Ateliê Editorial; Editora da Unicamp, 2006).





(Ilustrações de autores não identificados)



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