sexta-feira, 11 de março de 2011

LETTRES PORTUGAISES / CARTAS PORTUGUESAS






(Autor não identificado)





Causou furor, quando surgiu, em 1810, uma coleção de cinco cartas escritas em francês, no século XVII, por uma freira portuguesa a seu amante, um oficial francês.



A história é nebulosa. Ainda hoje há controvérsias sobre a autencidade das tais cartas e se o romance entre a freira e o soldado realmente aconteceu.

As personagens: sóror Mariana Alcoforado (1640-1723), monja do Convento da Conceição, em Beja e Noel Bouton de Chamilly, conde de Saint-Léger, oficial que lutou em solo português, na Guerra da Restauração.


A história (real ou ficctícia, mas plausível): entre 1667 e 1668, durante as manobras do exército na região, eles se conheceram, provavelmente durante algum culto religioso, se apaixonaram e tiveram um tórrido romance. O caso teria virado escândalo e o conde abandonou Portugal, prometendo mandar buscar Mariana. Isso, no entanto, nunca aconteceu. Daí as cartas. Que podem ser lidas – e são magníficas – no blog TRAPICHE DOS OUTROS:





(Mariana Alcoforado no teatro: autor não identificado)



Corta. 





Portugal no século XX. A mulher, como no tempo de Mariana Alcoforado, ainda é uma escrava do macho – o pai, o marido... – na sociedade governada por Marcelo Caetano, sucessor do ditador Antônio Salazar.


Três escritoras, as “três Marias” - Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa – publicaram em 1972 AS NOVAS CARTAS PORTUGUESAS, denunciando a condição da mulher portuguesa, relacionada com a repressão ditatorial e o poder do patriarcado. Teve a obra repercussão internacional, contribuindo para a queda posterior do regime, três anos depois, na famosa REVOLUÇÃO DOS CRAVOS.



O livro compõe-se de textos – crônicas, poesias, contos, cartas etc – de grande beleza literária, como este que publicamos a seguir. Leia e deguste:



A PAZ



(Mariana Alcoforado: autor não identificado)





Compraz-se Mariana com seu corpo.

O hábito despido, na cadeira, resvala para o chão onde as meias à pressa tiradas, parecem mais grossas e mais brancas.



As pernas, brandas e macias, de início estiradas sobre a a cama, soerguem-se levemente, entreabertas, hesitantes; mas já os joelhos se levantam e os calcanhares se vincam nos lençóis; já os rins se arqueiam no gemido que aos poucos se tornará contínuo, entrecortado, retomado logo pelo silêncio da cela, bebido pela boca que o espera.






(Martin von Maele - la sorciere)



Que interessa então a Mariana as mãos que o encaminham? Se as suas que lhe descem lentas pelas ancas, se as dela que a largaram de improviso...



Quebra-se, pois, a clausura: pelos seios ele a tem segura a rasgar-lhe os mamilos com os dentes.



Quebra-se pois a clausura?


Recurva, tenso, o ventre: a língua entumescida. Dele a língua quente, áspera de saliva e o demorado sugar, rente, ritmado, a esvaziá-la devagar da vida.





(Autor não identificado)




Compraz-se Mariana com seu corpo, ensinada de si, esquecida dos motivos e lamentos que a a levam às cartas e a inventam – “Descobri que lhe queria menos do que à minha paixão (...)”: – ei -la que se afunda em seu exercício. Exercício de corpo-paixão, exercício da paixão na sua causa.

Os olhos tem fixos, escancarados, no rosto dele presos, a inventá-lo em seus traços que de memória retém ou não sabe se os inventa, enquanto sobre o peito lhe descai, no movimento ritmado das coxas, a possuí-lo como macho – sente – e lhe vê os lábios crispados, se enterra mais nele, se empala num enorme prazer, no uivo de quem foge ou se dá. Dádiva em toda aquela obcecante conquista da dureza violenta do pênis: os dedos bem fundo perdidos na humidade viscosa da vagina, os ombros erguidos, a cabeça apoiada no travesseiro, os braços tensos como que para lhe reter os quadris estreitos que se movem na consentida busca da voragem do útero.



(A. não identificado)

Sei como és daninha, mulher retomada do rio que esforças por calar nas veias, maligna. Na seda das nádegas, no odor abrasado das axilas. Terra, que a haustos respiro e formo com teu esperma, meu sêmen; tua amante-esposa não deixaste perdida nem lograda; eis como me entrego e me ofereço, me conduzo e te ensino até o jeito mais breve ou demorado para melhor gozo. De pé agora te retomo, te cruzo, te possuo; minhas secreções já espessas, à mistura com as tuas, inundam-me as entranhas tão estéreis, herméticas, adormecidas.

Mariana deixa que os dedos retornem da vagina e procurem mais alto o fim do espasmo que lhe trepa de manso pelo corpo. A boca que a suga, a galga, é como um poço no qual se afoga consentida, ela mesmo a empurrar-se, enlouquecida, veloz.

(A. não identificado)

Devagar meu amor, devagar o nosso orgasmo que contornas ou eu contorno com a língua. Devagar te perco de súbito, te esqueço, não sendo tudo mais que uma enorme vaga de vertigem.

E a noite devora, vigilante, o quarto onde Mariana está estendida. O suor acamado, colado à pele lisa, os dedos esquecidos no clitóris, entorpecido, dormente.

A paz voltou-lhe ao corpo distendido, todavia, como sempre, pronto a reacender-se, caso queira, com o corpo, Mariana se comprazer ainda.



(Autor não identificado)



NOVAS CARTAS PORTUGESAS, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa; Círculo do Livro, 1974, São Paulo, SP. 

(Se quiser conhecer as cartas portuguesas,  acesse o blog TRAPICHE DOS OUTROS -  e procure pelo nome de Mariana Alcoforado).







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