terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

OUTRA CRÔNICA PORTUGUESA, COM CERTEZA




(Ilustração: Ballivet)




Num site luso, encontrei a preciosidade abaixo. Não sei se pela queixa, engraçada, ou pelo linguajar, pitoresco. Mas, engraçada ou pitoresca a reclamação, o fato é que a Playboy portuguesa parece estar vivendo uma crise de moralismo. Que, aliás, anda por toda parte. Não sou totalmente contra o tal “politicamente correto”, mas há limites. Andam exagerando, e o mundo pode ficar muito chato, sem uma sacanagenzinha.


Antes, porém, que isso aconteça, podemos botar a boca no trombone (ou em coisas melhores), como fez o “João” da crônica a seguir.



Ah, sim, uma pequena observação linguística, se me permitem meus cultos leitores e leitoras: vulva, lá na terrinha, é a nossa boceta, já que, em terras lusas, boceta é boceta mesmo, ou seja, caixa, caixa de rapé, e é uma palavra que pode ser dita tranquilamente até na frente dos putos, digo, das crianças. Por aqui, nestas terras incultas, é que tudo se torna motivo de maldade e já estamos adotando a corruptela “buceta”, para diferenciar da “caixinha de rapé” portuguesa, com certeza (ai, que saco, isso de ter de dizer sempre “portuguesa com certeza”!).



Vamos ao texto:






Portugueses queixam-se de falta de vulvas





(Ilustração de Fendi)



Parece existir alguma consternação, nos espaços de discussão da especialidade, sobre a ausência de fotografias vulvares na edição portuguesa da Playboy. Os portugueses, esses grandes malucos, queriam ver vulvas. Melhor: queriam ver as vulvas, de perto, das mulheres que estão habituados a ver na televisão, nas revistas, etc. Como se a qualidade de ser boazona ficasse dependente da fotogenia da sua vulva.


(A. não identificado)



Lamentavelmente, e até ver, a Playboy portuguesa não brinda ninguém com vulvas. As mulheres que até ao momento apresentam a sua nudez, fazem-no de forma razoavelmente discreta, sempre com uma pernoca de ladecos, escondendo a origem do Homem (anatomicamente falando, e mesmo assim, poder-se-ia argumentar que a origem fosse outra).




(Ilustração de Fredillo – un instant de repos)




Eu não sei quem é a Claudia Jacques que aparece no segundo número da Playboy. Só soube da existência dessa senhora, com os seus aparentemente bem conservados 44 anos (ou photoshop, não sei), depois de ver as fotos na internet. Não creio que a conhecesse mais, ou melhor, se lhe visse a vulva. Suponho que a tenha, como todas as do seu género, e que seja em tudo similar.


(A. não identificado)



Deve ter dois pares de lábios, um orifício uretral (há-de ter um nome mais clínico o raio da coisa) e um clitóris, para além de dar acesso a uma vagina. Com todo este elencar de peças da vulva, só me resta pensar que os portugueses descontentes só acreditam que as mulheres são mulheres se comprovarem, tipo checklist, que tudo quanto atrás descrevi está presente e operacional.







(Ilustração de Garv)



Ora, sendo certo que não viro a cara a uma boa vulva – que as há bonitas, e mesmo as mais esfrangalhadas podem ter a sua magia -, não me parece essencial para uma boa sessão fotográfica. Coisa que, aliás, a playboy portuguesa parece não ter conseguido, porque do que vi até à data, as sessões são medianas. Tenho visto coisas com muito mais classe por outros fotógrafos, com muito menos pretensões. Efectivamente, se o objectivo é vender sexo, a revista está a falhar porque não tem vulvas. Se é vender arte, está a atirar ao lado e há quem a faça melhor. Se é só para vender erotismo, não faz grande falta porque outras publicações já o andam a fazer há bom tempo.






(Ilustração de Giovanna Casotto)



Consequentemente, e embora durma igualmente bem qualquer que seja a decisão, ou é para ter vulvas que satisfaçam o voyeurismo nacional, ou então dediquem-se a outra coisa qualquer porque estão a falhar o alvo: é provável que nem mesmo os masturbadores compulsivos estejam a ter sucesso ao folhear a revista. E uma revista destas, já se sabe, mede o seu sucesso em número de páginas coladas.







(Foto: Cláudia Jaques, Playboy)








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