sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

UMA ALICE QUE TEM BARREIRA SÓ NO NOME




Alice Barreira, poeta. E que delícia de poeta. Sem peias nem barreiras, vai tecendo poemas como quem sabe o que diz, com dedos de fada e foda. Que é, afinal, a temática dos poemas abaixo: dedos. Se é que me entendem.

Nada mais próprio. Já que faz parte de Dedo de moça — uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009).

Nascida em Barura, no Amapá (1968), enfermeira do Manicômio Municipal de sua cidade, também escreve contos (Pequena enciclopédia de inutilidades, 1987) e, como fotógrafa, participou da Quarta Bienal Internacional de Fotografia, com a exposição "A Fé Não Costuma", em Lisboa, 1995.

E foi no site das “Escritoras Suicidas” que eu a encontrei e trago, para o deleite de meus/minhas leitores/as, algumas de suas pérolas eróticas.

Dedilhem com prazer: 




1.






percorro perpasso me perco
às escuras
até onde a mão alcança & a vista turva

meus dedos anunciam
a mina daguamel

do vale gramado das coxas
brotam meus abaulados gemidos 






2.





como bicho do mato
sigo meu tato
atrás do teu capricho
escondido
no mato do teu bicho



3. 




te conto histórias
de fadas bem debochadas

brincando atrás do muro
com valetes de pau duro

imagino sem o pensamento
só com a vagina

tiro lá do fundo
teu desejo mais abismal
teu abismo mais desejado

enquanto minha mão encontra o teu pau



4.






abra em frente ao espelho
minha caixa de pandora

loucura mentira paixão
tudo se espalha no mundo

& me roube o fogo dos deuses
pra sempre escondido
escandido
entre minhas pernas




5.





dedo-mindinho
seu-vizinho
pai-de-todos
fura-bolo
mata-piolho
cadê o toucinho que estava aqui

a gata comeu
& lambeu os dedos




6. 






num ônibus rio–são paulo
na festa de aniversário da madrinha
numa cabine de banco 24 horas
nas escadas do prédio
no banheiro da receita federal
em frente à jaula do leão
no banco de trás de um táxi
nos pedalinhos da lagoa rodrigo de freitas
na torre eiffel
atrás da muralha da china

foda-se!



7.



no meio do caminho das minhas pernas
tinha teus dedos no meio do caminho
tinha teus dedos
no meio do caminho das minhas pernas

nunca me esquecerei desse acordecimento
na vida de minha vagina tão re-catada
nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha teus dedos
tinha teus dedos no meio do caminho
no meio do caminho das minhas pernas 





Escritoras suicidas: 


http://www.escritorassuicidas.com.br/ 



(Ilustrações: Suzanne Ballivet - Paris, 1904 - 1985)



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