sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

PUNHETA: DE NOVO!?






Pois, é, parece fixação, mas não resisti e voltei ao assunto.

E a culpa é do Luís Fernando Veríssimo.

O escritor é bastante finório para não entrar em canoas furadas e mais fino ainda em se tratando de assuntos, digamos, mais cabeludos.

No entanto, fugindo a seu discreto discorrer sobre sexo, deixou a pena correr solta para tratar da famigerada punheta. Com o humor de sempre. Com a “finesse” de quase sempre.

Bem, não vou me alongar mais. Divirtam-se com a crônica abaixo, publicada no vetusto Estadão (e no Caderno 2!) de domingo passado, 9 de janeiro de 2011.






O HOMEM QUE CASOU COM SUA MÃO DIREITA











Herculano era um homem sério, o que tornava suas esquisitices ainda mais divertidas para o grupo. Mesmo quando não estava na roda, o Herculano era assunto da turma. Volta e meia alguém chegava com uma história nova do amigo, sempre prefaciada com a frase:

- Sabem a última do Herculano?
Pois a última do Herculano ele mesmo anunciou, um dia, ao chegar no bar.
- Pedi minha mão em casamento.
- O quê?!
- Você vai casar com você mesmo?
- Não, só com a minha mão. Esta.
E Herculano levantou sua mão direita. A noiva abanou para todos na mesa.






Herculano explicou que não tinha sido uma decisão súbita e impensada. Ele e sua mão eram ligados desde pequenos. Tinham se criado juntos. A partir da puberdade haviam começado a fazer sexo regularmente, mas nada sério. Coisa de adolescentes. Com o tempo, no entanto, o relacionamento mudara. Crescera uma real afeição entre os dois, que aos poucos se transformara em amor. A verdade, contou Herculano, era que encontrara na sua mão direita o que nunca encontrara numa mulher. Além de ser uma companheira constante que jamais o contrariava e fazia todas as suas vontades, era uma amante perfeita. Nenhuma mulher conseguia satisfazê-lo como sua mão direita.
- Me apaixonei, pronto – disse Herculano.




Herculano enumerou todas as vantagens de ter sua mão direita como esposa. Ela jamais lhe seria infiel. Ela jamais se recusaria, com um gesto que fosse, a fazer amor com ele. Estaria sempre pronta para o sexo, incapaz de alegar dor de cabeça, tendinite ou o que fosse. E não esperaria que ele fizesse conversa de neném antes e depois do ato, como algumas mulheres exigem. Sua mão direita não esperaria nada, não exigiria nada, seria uma amante – alem de exímia nas artes do amor – silenciosa.





Não era brincadeira. Herculano levou adiante o plano de casar com sua mão direita. Durante algum tempo – o tempo do noivado – a noiva usou duas alianças no seu dedo anular, uma dela e outra do Herculano. Depois do casamento a aliança do Herculano passou para a sua mão esquerda. Todos na roda queriam saber quando seria o casamento, quem seriam os padrinhos, etc., mas Herculano informou que a cerimônia seria simples e sem testemunhas. Ele sabia que não seria difícil arranjar alguém para oficializá-la. Hoje em dia, como se sabe, tem até padre casando surfistas em cima da prancha e pegando onda. Mas Herculano preferiu a discrição. A lua de mel foi em Cancún.






E aconteceu uma coisa que ninguém poderia prever. O Herculano, que nunca fora disso, se revelou um grande ciumento. Continua frequentando a roda mas se desconfia que alguém está dando muita atenção à sua esposa, põe a mão no bolso.



(Fotos e ilustrações da internet, sem indicação de autoria)




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