sexta-feira, 26 de novembro de 2010

BREVE HISTÓRIA DE UM QUADRO POLÊMICO




(Gustave Courbet - a origem do mundo)


De acordo com a História, esse quadro, pintado por Gustave Courbet em 1866, provocou uma gritaria geral. Courbet, nascido em Ornans em 31 de dezembro de 1819, cria rapidamente uma sólida reputação demoníaca: ele bebe muito, fala outro tanto com aquela espécie de franqueza com que se ganham tanto amigos quanto inimigos em poucos segundos, exageradamente vaidoso tanto quanto engajado em política (ele foi ligado à Comuna de Paris em 1871 e defende os ideais republicanos e socialistas em oposição a Napoleão III). É necessário “ler” Courbet para perceber que esse espírito belicoso e vaidoso faz aparecer uma pessoa mais sutil e mais fina.


(Gustave Courbet)


Muito ligado à sua região, Courbet a pintou por muitas vezes em cenas de vida surpreendentemente rudes que constituem, ao cabo, sua delicadeza.



O “pintor” Courbet aparece também na imagem do Courbet “comum”: sem laços, livre, subversivo, não tendo mestre assim como não terá discípulo. E essas telas darão o que falar dele no sentido próprio e figurado. Entre elas, justamente A Origem do Mundo.



(Gustave Courbet)


O quadro foi pintado em 1866. Representa as coxas abertas mostrando um púbis peludo, com lábios inchados que, ligados à visão de um seio túrgido, permite imaginar que uma relação sexual acabou de acontecer. Estaríamos, então, logo após o orgasmo.



Vamos agora à breve história. O quadro foi encomendado por Khalil-Bey, um diplomata turco estabelecido em Paris, e proprietário de numerosos quadros com conotação erótica, como o Banho Turco de Dominique Ingres, ou O Sono, outro quadro de Courbet.




(Ingres – o banho turco)



Courbet pintou quatro quadros durante o ano de 1866 recorrendo ao mesmo modelo feminino: Joanna Hiffernan, apelidada de Jô. Essa Joana Hiffernan vai desencadear uma tempestade não só no mundo das artes, mas também na vida doméstica de Courbet. Com efeito, Joanna era então amante do pintor James Whistler. Este conhece muito bem Courbet, mas as representação do sexo de Joanna, aliado à relação extra-conjugal entre a modelo e o pintor francês, provoca uma séria disputa entre os dois artistas e a separação entre os dois amantes. Whistler volta para os Estados Unidos, deixando, contudo, um testamento em favor de Joanna.


(James Whistler – simphony in white nº 1: the white girl, tendo Joanna Hiffernan como modelo)


Em sua apresentação, o quadro desencadeia paixões. A crítica conservadora acusa Coubert de pintor sujo, de cultivar a torpeza, de achincalhar a tradição. Com efeito, estávamos longe, muito longe mesmo, das representações de nus até então realizados, às vezes eróticos na intenção, mas com os atributos geralmente ocultos pela presença oportuna de uma coxa ou de um mão passando por ali... Os detalhes pintados (seios túrgidos, o rosa do interior dos lábios, púbis entreaberto pelo afastamento das coxas) introduzem a obra no realismo mais completo, que não tinha ido tão longe até então! Não é somente toda uma moral de época que é colocada em cheque, mas também os cânones da pintura narrativa... Quanto à Courbet, surdo aos protestos provocados, declara: “a pintura é uma arte essencialmente concreta e não pode consistir em representar senão as coisas reais e existentes” .



(Pierre Bonnard – Model in Backlight)



Courbet se une então a artistas como Lautrec, Manet, Degas ou ainda Bonnard, para que a vida parisiense do dia a dia seja fonte de obras. Bem longe das obras mitológicas ou bíblicas, representa-se a intimidade das pessoas, entra-se no “micro” com tudo aquilo que ele tem de desconcertante: depois disso, o sexo da mulher poderia ser o seu (se o leitor é uma leitora), ou o de sua irmã, de sua mãe. Ele é ao mesmo tempo pessoal e de todo mundo: pode-se vê-lo tal como é, descoberto, nu, aberto, oferecendo-se à vista de todos. Há qualquer coisa de atrativo e de insuportável, há muito de voyeurismo e um tantinho de repugnância.

(Gustave Courbet)


Uma análise proposta por Bertrand Naivin (www.art11.com, 27 de janeiro de 2007) defende sobretudo a ideia da ligação da visão desse sexo ao lado animal do homem: A nudez segundo Courbet não tem mais a leveza diáfana da alegoria ou do mito, mas ao contrário o peso da terra, da carne, dos corpos. Também essa obra assinala uma reviravolta na história do nu artístico. Desde as primeiras representações primitivas de seios e falos hiperbólicos, tornando-se obra de arte, elas foram sempre recobertas pelo véu do símbolo. Imagem da fertilidade, alegoria de todas as virtudes, representação do Belo ideal antigo, a nudez nunca deixou de ser vestida de conceitos.





(Gustave Courbet)

Por isso, quando o pintor francês vende seu quadro a Khalil-Bey, um diplomata turco, nós compreendemos que ele não poderá ser visto senão sob um lençol. Com efeito, como não ficar chocado pela vista desse sexo tão presente e, sobretudo, tão animal. Porque é exatamente isso que está em jogo. Courbet dá as costas, com esse corpo sem rosto, com esse sexo verdadeiro, a todo um pensamento ocidental que desde Antiguidade grega até o Século das Luzes via na humanidade a história de uma separação total de nossas origens animais. O homem seria um ser ilhado, único, voltado à perfeição. O artista realista, quanto a ele, nos obriga a assumir nossa animalidade ao aceitar esse pelos que Ingres se teria apressado em banir. O corpo se oferece, então, em toda a sua brutalidade ao observador impressionado por tanta materialidade. Assim como a fotografia, a realidade começa a bater à porta da arte. Coincidência?...





(Gustave Courbet - la belle irlandese – portrait of Jo)


A tela, ainda em nossos dias, continua a inflamar os espíritos: a tese oficial acredita que a representação pubiana seria a de Joanna Hiffernan, apesar da diferença de cor entre os pelos do púbis do quadro e os cabelos representado no quadro A Bela Irlandese. Apesar de tudo, Courbet pode ter querido “maquiar” o púbis demoníaco para não “ligá-lo” a sua proprietária? Outros sustentam que Courbet teria pintado esse púbis a partir de uma fotografia e que eles não seriam o de Joanna Hiffernan...



(Autor não identificado: pintura claramente inspirada na origem do mundo)



Fonte: A Naked World

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