terça-feira, 31 de agosto de 2010

UM CONTO DE MARTIN AMIS





Do livro "Água Pesada e outros contos", apresento-lhes um conto – erótico – de Martin Amis, escritor britânico nascido em 1949 e com uma vasta obra já publicada. Mas, como esse blog é meio sacana, vamos ilustrar o conto do autor contemporâneo com ex-libris antigos.





Diz-nos a Wikepedia que ex-libris é uma expressão latina que significa literalmente "dos livros" empregada para determinar a propriedade de um livro. Portanto, ex libris é um complemento circunstancial de origem (ex + caso ablativo) que indica que tal livro é "propriedade de" ou "da biblioteca de".







A inscrição pode estar numa vinheta colada em geral na contra capa ou página de rosto de um livro para indicar quem é seu proprietário. A vinheta em geral contém um logotipo, brasão ou desenho e a expressão "Ex libris" seguida do nome do proprietário. É possível que contenha um lema, ou citação.



Divirtam-se com:



VERNON E SEUS CÁLCULOS DE AMOR








Vernon fazia amor com a esposa três vezes e meia por semana, e isso estava muito bem. Por algum motivo, fazer amor sempre tinha essa média.




Normalmente - se bem que nunca invariavelmente - eles faziam amor uma vez a cada duas noites. Por outro lado, sabia-se que Vernon podia fazer amor com a esposa sete noites consecutivas; nas sete noites seguintes, não faziam amor - ou talvez viessem a fazer uma vez só, mas nesse caso só fariam amor duas vezes na semana seguinte, mas quatro vezes depois disso - ou talvez só três vezes, e nesse caso fariam amor quatro vezes na semana seguinte, mas só duas vezes na semana subsequente - ou talvez uma vez só. E assim por diante. Vernon não sabia por quê, mas fazer amor sempre dava essa média; parecia invariável. De vez em quando – e por acaso isso era de admirar? – Vernon descobria que tinha vontade de que a semana tivesse apenas seis dias, ou nada menos do que oito dias, para tornar esses cálculos (que tinham sempre um efeito aprazivelmente fortificante para o espírito) mais fáceis de manejar.







Sem exceção, era o próprio Vernon quem dava início a seus atos conjugais. Sua esposa retribuía toda vez com a mesma vivacidade acanhada. As preliminares orais não eram de maneira nenhuma desconhecidas para eles.






Em média - e de novo sempre ficava dentro de uma média, e de novo Vernon cumpria sempre o papel do compenetrado animador de circo -, a felação era executada pela esposa uma vez a cada três cópulas, ou 60,8333 vezes no ano, ou 1,1698717 vez por semana.






Vernon praticava a cunilíngua mais raramente ainda: uma vez a cada quatro cópulas, em média, ou 45,625 vezes por ano, ou 0,8774038 vez por semana. Seria também um erro imaginar que isso abrangia todas as variações que eles punham em prática.



Vernon sodomizava a esposa duas vezes por ano, por exemplo - no dia do aniversário dele, o que lhe parecia muito apropriado, mas também, ironicamente (pelo menos era o que ele pensava), no dia do aniversário dela. Vernon punha isso na conta das noites dispendiosas que eles sempre desfrutavam nessas ocasiões e, mais especialmente, o creditava aos efeitos do champanhe. Vernon sempre sentia uma vergonha horrorosa depois e, no café da manhã do dia seguinte, parecia um claudicante espectro de remorsos e constrangimento. A esposa de Vernon nunca falava uma palavra sobre o assunto, o que não era nada mau. Se alguma vez falasse, Vernon na certa pararia de fazer aquilo. Mas ela nunca dizia nada.







A mesma coisa acontecia quando Vernon ejaculava na boca da esposa, o que, em média, ele fazia 1,2 vez por ano. A essa altura, estavam casados havia dez anos. Isso era conveniente. Como não seria quando estivessem casados por onze anos - ou por treze! Uma vez, e só uma única vez, Vernon estava a ponto de ejacular na boca da esposa quando de repente mudou de ideia: em vez disso, ejaculou em cima de todo o rosto da mulher. Ela também não falou nada sobre o assunto, graças a Deus. Por que ele resolveu mudar de ideia na última hora, isso Vernon nunca entendeu. Agora, não achava que tinha sido uma boa ideia.







Atormentava-o imensamente pensar que esses raros atos libidinosos patenteassem um desejo de humilhar e degradar a pessoa amada. E ela era a pessoa amada. Contudo, ele só fizera isso uma única vez. Vernon ejaculava em cima da cara da esposa 0,001923 vez por semana. Isso não era ejacular muitas vezes em cima da cara da mulher, era?









Vernon era um homem de negócios. Seu escritório continha várias calculadoras eletrônicas. Vernon frequentemente submetia seus dados conjugais a essas máquinas rápidas, eficientes e impecavelmente discretas. Elas sempre retribuíam, radiosas, com a mesma resposta, como se dissessem: "Sim, Vernon, é este o número de vezes que você faz isso". Ou : "Não, Vernon, você não faz isso mais do que tantas vezes". Vernon gastava todas as horas do almoço curvado em cima da calculadora. E no entanto sabia que todos esses números eram, em certo sentido, aproximados. Ah, Vernon sabia, Vernon sabia.








Então, um dia, um poderoso computador branco foi entregue ao departamento de contabilidade. Vernon percebeu logo que um sonho longamente acalentado agora podia se tornar realidade: saltar sobre os anos.



Ah, Alice. Não quero ser incomodado, entendeu? - disse ele muito sério à faxineira, quando se deixou ficar no escritório naquela noite. Tenho que fazer umas contas muito importantes no departamento de contabilidade.








Pouco depois de meia-noite, os olhos vermelhos e ardentes de Vernon miravam freneticamente a tela do monitor, onde toda a sua vida sexual se achava distribuída em tabelas, na forma de prismas recorrentes de três e seis lados, dispostos em séries infindáveis, como espelhos colocados uns diante dos outros.










A esposa de Vernon era a única mulher que Vernon havia conhecido. Ele a amava e gostava demais de fazer amor com ela; com certeza, nunca aspirou a outro desaguadouro para seus impulsos. Quando Vernon fazia amor com a esposa, só pensava no prazer dela e na beleza dela: os sons pouco frequentes, mas animadores, que ela emitia através dos dentes harmoniosamente entreabertos, a elasticidade divina de seus braços e pernas, o fervor, o delírio e a segurança do momento.







O sentimento de paz que se seguia tinha só um pouco a ver com a grande probabilidade de a noite seguinte ser de folga. Até os sonhos de Vernon eram monógamos: as mulheres que habitavam aquelas paisagens desconexas mas essencialmente cotidianas eram meros ícones do auto-suficiente reino feminino, enfermeiras, freiras, motoristas de ônibus, guardadoras de estacionamentos, policiais.









Só de vez em quando, digamos, uma vez por semana, ou menos, ou de uma forma incalculável, ele via coisas que o faziam desconfiar de que a vida podia ter espaço para abrigar mais elementos - uma fita luminosa que demarcava a curvatura convexa de uma ponte, algumas formações de nuvens, figuras afoitas que corriam em meio à luz cambiante.






(Água Pesada e outros contos - tradução: Rubens Figueiredo)




sexta-feira, 27 de agosto de 2010

HOMENS INCENDIÁRIOS







Hoje é tão fácil – tanto para homens quanto para mulheres – ter um rosto bonito, um corpo perfeito e um bom marketing, para que alguém se torne uma celebridade instantânea, “café solúvel” no imenso cipoal da mídia que “ergue e destrói” reputações e belezas e perfeições físicas num piscar de olhos. E há, ainda, os famosos retoques na bunda, nos seios, nas pernas musculosas ou longilíneas, no rosto...

(Robert Mapplethorpe)


Então, vamos ao passado. Àqueles tempos em que um homem bonito tinha que ser realmente bonito ou ter muito talento, para arrastar multidões de cocottes alucinadas. E o cinema era a fonte para toda a histeria.




Apenas uma ressalva, nesta breve, muito breve história de homens incendiários: não nos importemos com boatos que, depois, destruíram inúmeras reputações. Só contemplem, amigas (principalmente) e amigos (eventualmente), sem nenhum preconceito estas maravilhas da evolução humana.



Que tal começarmos com Valentino – Rodolfo Valentino – na década de 20 do século passado? Celebridade arrasadora, morto aos 31 anos, para desespero de milhares de fãs pelo mundo. Diz a lenda que muitas se suicidaram com a notícia de sua morte, em 1926:







Um rebelde sem causa que muitas/os prefeririam “sem calça”: James Dean. Incendiou a imaginação das mulheres (e, claro, de muitos homens) da década de 50. Também morreu cedo, muito cedo, aos 24 anos, em 1956, num acidente de carro:


Agora, esqueçam o velho gordo e decadente morto aos 80 anos, em 2004. Lembrem-se de que foi, sempre, um extraordinários ator. Mas, sem dúvida, sua performance e sua sensualidade em “Um bonde chamado desejo” (1951) foram um arraso, não só para a coitada da Blanche, mas para todas as mulheres (e homens) mundo a fora. Marlon Brando:



Outro veterano, agora lá das Europas, cujo sucesso começou com o filme “O Sol por testemunha”. E mesmo já maduro, continou fazendo suspirar corações, em muitos e muitos filmes. Com vocês, Alain Delon:






É claro que muitos e muitos outros poderiam fazer parte dessa breve galeria. E, se avançarmos para o presente, não haveria espaço suficiente para tantos rostos e corpos bonitos do cinema, da televisão, das passarelas. Certo de que é impossível agradar a gregas e troianas (e, até mesmo, sem qualquer ironia, gregos e troianos), elejo um cinquentão (ou quase) da atualidade para encerrar essa crônica. Com vocês, George Clooney (e não se fala mais nisso, ok?):






terça-feira, 24 de agosto de 2010

QUANDO NÃO HAVIA LUZ ELÉTRICA






















"Não chame o mordomo às onze horas da noite para pedir-lhe uma banana. A essa hora peça-lhe uma vela.” 
(Pierre Louÿs – Manual de boas maneiras para as meninas para uso nas escolas)





Uma banana, às onze horas da noite, levantaria suspeitas de seu uso, para uma menina de boas maneiras. Já uma vela, se não havia luz elétrica, seria seria só um inocente meio de iluminação.


(Francisco Zuniga - nude with candle)


Pois, múltiplo uso tinham as inocentes velas. Para melhor enxergar, claro, era a primeira utilidade:





Podiam ser colocadas em lugares estratégicos:






Serviam a vícios solitários, sem despertar nenhuma suspeita às senhoras e senhoritas que, assim, apagam as chamas de seu desejo com as chamas das boas e velhas velas (não resisti ao trocadilho infame):







Ou, entre duas discretas senhoras ou senhoritas, substituíam consolos e outros artefatos, sem grandes preocupações:








Numa festa de aniversário, quem já não comeu bolo babado pela saliva da linda criança que sopra as velinhas inocentes ao som do parabéns pra você?









Velas: dão graça e beleza a cerimônias leigas e religiosas e estão presentes em casamentos, enterros, jantares etc.






O apelo erótico das velas se mantém desde os tempos em que eram absolutamente indispensáveis.








Porque, dos inúmeros símbolos fálicos com que convivemos diariamente nessa sociedade falocêntrica, as velas nunca foram e não são apenas um símbolo.








Se começamos esta pequena crônica iluminada com Pierre Loÿs, encerremo-la com ele:


“Algumas meninas muito vigiadas compram uma virgem santa de marfim polido e usam-na como consolo. É um costume condenado pela igreja. Em compensação, você pode servir-se de uma vela para esse fim, desde que não seja uma vela benta.”






sexta-feira, 20 de agosto de 2010

MULHERES INCENDIÁRIAS




(Marilyn Monroe)





Permita-me, caro leitor, amiga leitora, um momento de nostalgia. De nostalgia erótica.



Pois vou falar de algumas – poucas, dentre muitas – mulheres.



Não de mulheres que tive, não sou assim tão pretensioso. Mas de mulheres que incendiaram a imaginação do moleque que eu era, no interior de Minas, lá pelos anos... deixa pra lá: você vai sacar que faz muitos, muitos anos...



Não importa.

Os anos passaram, elas – as mulheres incendiárias – ficaram na minha imaginação. Vou apenas me lembrar delas, nada de biografias, nada de escândalos de suas vidas. Apenas lembranças.


No cinema de minha cidade, passava um filme proibido para dezoito anos. E eu passava pela porta, quando um senhor – conhecido na sociedade – irrompeu porta a fora, esbravejando contra a licenciosidade do filme, contra a nudez da atriz – que pouca vergonha! – gritava ele. Olhei o cartaz – nem me lembro o nome da película, ela fez tantas! – e lá estava, deslumbrante: MARIA ANTONIETA PONS!

Foi meu primeiro alumbramento cinematográfico:






Mas nada se comparava ao furacão francês. Deixava-nos a todos arrepiados, quando pensávamos – só pensávamos! – no que passava pela tela do velho cinema, quando surgiam os cartazes pudicos, mas extremamente provocadores de um filme de BRIGITTE BARDOT. Nossa imaginação realmente fervia:





Ah, e quando soubemos que RITA HAYWORTH ficara nuinha em pelo – era o que juravam os que viram o filme, na época, siderados pela diva – num strip tease em que ela tira apenas e unicamente a longa luva da mão direita! Loucura, loucura geral:








Mais tarde, já quase adultos, não mais no interior, mas na cidade grande, São Paulo, nos deliciávamos com o erotismo light de MICHELE MERCIER, ao encantar o mundo com a beleza de Angélique, uma série de filmes no melhor (ou pior) estilo capa-e-espada:






E então, o erotismo veio cheio de intensões, de preocupações filosóficas, para incrustar em nosso imaginário a beleza que tinha o gelo da Suécia sobre o fogo dos seios de INGRID THULIN, que inaugura a galeria dos filmes de Bergman, com O Silêncio:






Daí, escancarou de vez o erotismo e nossas cabeças, com o cinema brasileiro, quando a câmera rodopia em torno de uma nua NORMA BENGELL sobre as areias de uma praia do Rio, em Os Cafajestes:







Mas, então, já éramos adultos e imaginávamos poder assimilar tudo o que viria em seguida, até que a onda verde se instalasse e decretasse que devíamos continuar sendo os mesmos inocentes lá do interior. E que não podíamos dispor de nosso próprio discernimento para compreender a beleza estampada no rosto de JEANNE MOREAU na famosa cena de Os Amantes:





Quando tiramos o olho do buraco da fechadura e escancaramos as portas, as divas incendiárias já eram todas senhoras respeitáveis e respeitadas, tocando suas vidas como mães, avós e artistas. Maria Antonieta morreu em 2004, no México.



E a chama?





Bem, a chama está aí, bruxuleando às vezes, acesa outras tantas, mas já não tem o mesmo brilho da inocência que perdemos todos pelos caminhos da vida.


Que continua, claro, mesmo que alguns produtos farmacêuticos acabem tendo alguma ou muita influência na nossa libido de homens e mulheres do século XXI, nascidos e crescidos sob o signo da liberdade que brilhou nos olhos, nos seios e nos corpos das divas do século XX.





(foto de Judy Dater)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

UM BELO POEMA




(Alexandre Dupouy)



Edmond Haraucourt – 1856-1941 – poeta e romancista francês, foi também compositor, letrista, jornalista, dramaturgo e museólogo.



De sua autoria encontrei o poema que se segue, que foi musicado pelo autor e interpretado pela cantora Suzy Solidor, cuja voz rouca e bela pode ser ouvida neste endereçao, cantando Lili Marlene:









(Tamara de Lempicka - Suzy Solidor)





OUVRE



(LA modèle du peintre de François Benveniste)



Ouvre les yeux, réveille-toi ;

Ouvre l'oreille, ouvre ta porte :

C'est l'amour qui sonne et c'est moi
Qui te l'apporte
.
Ouvre la fenêtre à tes seins ;
Ouvre ton corsage de soie ;
Ouvre ta robe sur tes reins ;
Ouvre qu'on voie.
.
Ouvre à mon cœur ton cœur trop plein
J'irai boire sur ta bouche !
Ouvre ta chemise de lin :
Ouvre qu'on touche
.
Ouvre les plis de tes rideaux :
Ouvre ton lit que je t'y traîne
Il va s'échauffer sous ton dos
Ouvre l'arène
.
Ouvre tes bras pour m'enlacer :
Ouvre tes seins que je m'y pose ;
Ouvre aux fureurs de mon baiser
Ta lèvre rose !
.
Ouvre tes jambes ; prends mes flancs
Dans ces rondeurs blanches et lisses ;
Ouvre tes genoux tremblants...
Ouvre tes cuisses
.
Ouvre tout ce qu'on peut ouvrir :
Dans les chauds trésors de ton ventre
j'inonderai sans me tarir
L'abîme où j'entre.



Edmond Haraucourt (Sire de Chambley) 1902.


ABRE




(Midnight torso by Uly)



Abre os olhos, desperta;
Abre os ouvidos, abre tua porta:
É o amor que chama e sou eu
Quem o mostra a ti.


Abre a janela de teus seios;
Abre tua blusa;
Abre teu vestido sobre teus rins;
Abre para que te possamos ver.


Abre ao meu coração teu coração repleto
Eu irei beber em tua boca!
Abre tua camisa de linho:
Abre para que te possamos tocar


Abre tuas cortinas:
Abre teu leito para nele eu te jogar
Que ele vai queimar sob tuas costas
Abre a arena


Abre teus braços para me enlaçar:
Abre teus seios para que neles eu repouse;
Abre ao furor de meu beijo
Teus lábios cor-de rosa!


Abre tuas pernas, aperta meus flancos
Em teu corpo branco e liso;
Abre teus joelhos trêmulos...
Abre tuas coxas


Abre tudo o que se pode abrir:
Dentro dos quentes tesouros de teu ventre
Eu invadirei sem me cansar
O abismo onde eu entrar.



(Tradução: Isaias Edson Sidney)