terça-feira, 13 de julho de 2010

PALAVRAS... PALAVRAS...





(A. não identificado)

Não há dúvida de que a língua é um importante órgão sexual. Não só a língua-língua, que lambe, que aprecia o sabor, que faz gozar, como no pequeno conto do post anterior. Também a língua-idioma é importante no sexo.




(Autor não identificado)



Precisamos dar nomes aos nossos órgãos e a nossos atos, como forma de processar em nosso cérebro a relação “coisa” e “ato”, a fim de exacerbar a libido. Excita-nos ouvir o/a parceiro/a falando ou narrando ou pedindo coisas que incendeiem nossa imaginação.


(Brebis)




Quando a mulher diz ao companheiro: “me come”, “mete mais”, “gostoso” (ou outras “obscenidades”) – a transformação do prazer em palavras excita o homem e leva-o mais facilmente à fantasia e ao gozo. Da mesma forma, quando o homem diz à mulher coisas como “gosta do meu pau?”, “goza, vai, goza” (ou outras “obscenidades”) – não está ele em busca apenas de seu reconhecimento como macho, mas, através das palavras, despertando sentimentos do mundo onírico e sensual da companheira, o que a leva também ao orgasmo.






(A. não identificado)



Então, gozar não é fruto apenas do ato mecânico, mas também da fantasia que desperta nossa libido através de palavras ou, da falta delas, da nossa imaginação, que é feita de memórias sensoriais e de... outras palavras, que estão em nossa memória. Complicado isso? Sei lá. Só sei que a palavra é tão importante no sexo, como o próprio ato em si. E que isso tem a ver com nossa imaginação.



(A. não identificado)


Mas, o que eu queria mesmo era comentar algo bastante engraçado que encontrei por aí, na velha e boa rede de computadores.



Um parêntese, antes. Uma vez, num discurso (diz a lenda) que Rui Barbosa usou mais de sessenta sinônimos da palavra “prostituta”. Se consultarmos um dicionário, realmente tem muitas, muitas palavras, a designação da velha profissão. E sempre pensei que seria ela a campeã de sinônimos na língua portuguesa.



Ledo engano.








A “coisa” (desculpe o termo) que mais tem designações em português é, sem dúvida, o órgão genital feminino. Ou seja, a vagina, a boceta, a vulva. São centenas de palavras que o povo usa para nomear o maior objeto de desejo do macho. Desde palavras simples e aparentemente descoladas ou não-eróticas, como “bela”, “ursa”, “vão”, “segredinho”, “panela-rachada” (expressão usada – vejam só! – pelo patriarca José Bonifácio para sua filha recém-nascida), até termos estranhos como “prexeca”, “popoca”, “inhanha”. Há termos depreciativos, como “cheiro-de-bacalhau” ou carinhosos como “toninha”. Enfim, há uma longa lista de termos e expressões curiosas e para todos os gostos – mais ou nenos 360 palavras!








(Rowlandson)



Dentro de minhas limitações, procurei pesquisar em outras línguas. E o fenômeno se repete em maior grau, como em inglês, que tem mais expressões ainda do que o nossa flor do Lácio – mais de 400! – ou em menor grau, como em francês, com cerca de 100 e em espanhol.



(Rowlandson)


Espanhol. Tem um problema a língua espanhola nesse quesito. Primeiro, a diversidade de povos que falam o espanhol, principalmente na América Latina. Costumamos ver nossos hermanos como uma mancha única, mas isso é miopia. Países pequenos como Cuba, Jamaica, Honduras têm culturas fortes e muito diferentes de Chile, Argentina ou México, que, por sua vez, também são muito diferentes entre si. E essas diferenças, claro, repercutem no espanhol falado em cada um dos países latinos, bastante diferente do espanhol da Espanha. Assim, pude verificar que expressões usadas num país não têm nenhum significado em outro ou em outros, principalmente em relação a algo muito regional ou idiossincrático como a denominação dos órgãos sexuais. Assim, o popular “coño” (boceta) é mais ou menos comum a todos, mas fora este são pouquíssimos os termos de uso comum para designar a vagina, na linguagem do povo. Isso justifcaria, em parte, a pouca quantidade de sinônimos em espanhol que encontrei para a vulva, vagina, coño.



(Rowlandson)

Uma pergunta: por que um povo que tem toda uma poesia em relação ao gênero (masculino/feminino), como dar uma carga emotiva a “el mar” (masculino) e designá-lo conotativamente como “la mar” (feminino), usa um termo masculino – coño – para o que a mulher tem mais de feminino? Mistérios da linguagem... e da cultura.






(Rowlandson)


Bem, fechemos o parêntese e vamos a uma notícia que encontrei num site espanhol



(A. não identificado)



A INDÚSTRIA PORNÔ BUSCA NOVAS METÁFORAS PARA A VAGINA.


Diz mais essa reportagem:



Acabaram-se as palavras para falar da boceta, dizem os especialistas: o presidente da Vivid Entertainment (multi da indústria pornô) declara que nossa linguagem está ficando monótona e previsível, ou seja, estão faltando palavras para serem usadas durante o ato sexual para se referir à vagina.”





(Schiele)



Reclama o tal produtor (eis o nome do cara: Steve Hirsh) que são muito poucas as palavras para falar da “boceta” e que é necessário fomentar uma renovação na narrativa do pornô. Para isso, pede ajuda a filólogos e poetas. Ou seja, que se inventem novos termos, novas palavras para serem usadas nos filmes e nas narrativas eróticas!





(Songoku)



Termina a reportagem dizendo que o poeta espanhol Augustín Fernández Mallo, “que já percebera o deserto metafórico da indústria pornô mundial, propõe a palavra “fuagrás” como sinônimo de boceta”.

Fuagrás? – pergunto eu. Chamar el coño, a boceta, the pussy, la chatte de “fuagrás”? Será que estou delirando ao descobrir que isso sigifica “foie-gras”, ou seja, pasta de fígado de ganso!? (Horrível será dizer que, tem sentido, sim, chamar el coño de fuagrás, porque, afinal, no sexo como na produção de foie-gras, o ganso é afogado.



(A. não identificado)



Bem, pode-se gostar muito de patê de fígado de ganso, mas acho que se gosta muito mais de boceta ou seja lá que nome tenha em qualquer língua. Só concordo com o tal poeta quando ele diz que “deveria haver tantos sinônimos da palavra ‘boceta’/’coño’ etc. quantas bocetas há no mundo”.





(Mark Blanton)



Não se chega a tanto, mas que há, sim, uma quantidade muito grande de termos, expressões e gírias para o nome sagrado da boceta, em todas as línguas do mundo, disso temos a mais absoluta certeza! Se há crise na indústria pornô, não é de falta de palavras, como diz o tal Steve Hirsh. Ele está transferindo para a língua (com todos os trocadilhos possíveis) uma situação que é dos produtores pornôs: falta de imaginação!








(Obolenski)






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