sexta-feira, 16 de abril de 2010

UMA CRÔNICA PORTUGUESA, COM CERTEZA







Quem tem peito vai a Lisboa. É isso? Ou nada disso, ó pá?



Procura-se, acha-se. Por lá, por cá, há sempre um site, um blog, um texto que nos chamam a atenção, nessa rede infernal.



Por acaso – sempre ele! – encontrei a Teresa C. Só isso, Teresa C. Portuguesa, blogueira, cronista com sabor da velha terrinha, sardinha assada e pastéis de Belém. Bebem-se ou comem-se suas palavras com o sotaque carregado da lusa gente, tão diferente, sendo tão igual.



Teresa C. e os sutiãs. Que fala de peitos, de seios, de encantos, de mulheres.



Dou-lhos a ti, caro(a) leitor(a) eventual desta Lua, às vezes quebrada, às vezes em frangalhos, mas sempre novidadeira.


Para ler com o lusitano sotaque de Lisboa, de Coimbra, de Trás-Os-Montes, se quiser (e... ah, sim: seu blog chama-se SEM PÉNIS NEM INVEJA):


SUTIÃS






«Soutenir». Aparar. «Soutien». Sutiã. «Poitrine». Peito, mamas. «Apara mamas» na gíria. Masculina. Nacional. Sugerindo decadência. Atributos pingões. Prontas a deslizar se libertas da suspensão. Como calças de barrigudos que por via dos suspensórios as retêm. Ou pénis estafado sem reacção. Em qualquer caso decadência. Ou se aparam, ou caem no chão. Aqui chegados, é altura de olhar de lado os cães, não estejam esfaimados e abocanhem o que caiu.




As mamas naturais, isentas de cortes, implantes, injecções de sutiã químico, escasseiam nas proeminências sociais que da imagem fazem sustento. E compreendo - em tempo de espírito diminuído, a generosidade dos atributos pudendos cresce na mesma proporção. Em qualquer dos casos carecendo de mais do que suporte - tapa-mamilos. Esta é a verdadeira questão. Os mamilos são atrevidos. Revelam, sem apelo ou agravo, da mulher a natureza sexual. No tempo quente, a finura dos tecidos carece de forro íntimo, não se arrepiem os bicos mamários e expluda a fantasia dos espectadores. Masculinos, já se vê, porque as damas conhecem desses botões os humores irracionais.






A escolha de um sutiã não é acto leviano. Preservando o que o nascimento forneceu, raro é o contento feminino com cabelo, rabo, e mamas. Podem eles admirar o que nós desaprovamos que nada altera. Admito que um quarenta, até ao metro e setenta de altura, é excesso escusado. Inclina a coluna e sobrecarrega o aspecto da mulher. Depois, obriga a sutiãs reforçados, que disfarcem o peito e permitam figura elegante. Ficam espalmadas as mamas como biscoito que não cresceu. Por outro lado, sendo redondas, o sutiã é suposto exibir delas a conjunção (rego) sem dispersões banais. 





Entram ao serviço os arames forrados para as conter no centro. Pequenas, obrigam aos arames e a enchumaços nos sutiãs. De bom tamanho, porém largas, ou caídas, vão-se os enchumaços e ficam os arames. Com vestido cai-cai, a complicação é maior. O nada é o que prefiro. Porém, para os extremos da abonação, enormes ou pequenas, caídas como sacos de supermercado, termina pouco acima da cintura o que a caixa do peito não prevê. A desarrumação é total. Os sutiãs sem alças ou marcam gorduras ou espreitam do vestido ou não cumprem de suporte a função.




A metafísica do sutiã carece de estudo adaptado a mulheres. Empanturrados que os homens estão de imagens da perfeição dos mutantes femininos, os inocentes desiludem-se com o real, os experientes, cumpridos os mínimos, valorizam o toque, a forma que lhes enche ou sobra da mão, a macieza da pele, o mamilo eréctil à carícia, o prazer que nelas e por elas a mulher tem. E eles por vida delas – das ditas e da dona que sabe aproveitar o que tem.




(Teresa C. – Portugal)



http://sempenisneminveja.weblog.com.pt/arquivo/2006/09/sutias.html



(Ilustrações: Barndog)



Um comentário:

Leo Milani disse...

Kra, vc poderia me dizer quem é o autor dessas ilustrações? são excelentes!
meu e-mail é leo_mmilani@yahoo.com.br