terça-feira, 2 de março de 2010

DE TODOS OS NOMES, QUAL O NOME?







(Picasso)


Lembro uma canção americana, cantada pela banda Bloodhound Gang, chamada The Vagina Song (A canção da vagina), cuja primeira estrofe é assim:



Some of them are hairy

Some of them are bald

Some are kind scary

And this is what they're called



Vagina!

Vagi-hoo-a!
They call that thing
Vagina




Numa tradução livre:

Algumas são cabeludas
Algumas são lisinhas
Algomas são assustadoras
E assim é como são chamadas

Vagina!
Vagi-hoo-a!
Chamam-nas de
Vagina

(Se quiser ouvir a música, veja este vídeo do Youtube, que tem só a canção e a letra, sem imagens: http://www.youtube.com/watch?v=FcQCcYkLMzU).






(Anthony Christian: erotic hands)



Pois, é: “vagina” é a palavra “oficial” para “ela”, em inglês. Embora possam ser até assustadoras!


Em português, qual o nome, digamos, oficial?



Os livros científicos quando falam em “vagina” querem dizer “o canal entre o útero e a vulva”, o que é, portanto, uma outra “coisa”, não exatamente aquilo que pensamos, deixando o termo “vulva” para “a parte exterior do aparelho genital da mulher”, ou seja, exatamente aquilo que pensamos, quando pensamos naquilo.




(A.C.: striped stocking)


Mas, será que alguma mulher usa este termo – vulva – em conversas normais, como “vou depilar minha vulva” ou, para o amante, “você gostou da minha vulva”?



Acho, ou melhor, tenho certeza, que não!





Num episódio do famoso seriado televisivo SEX AND THE CITY, Sônia Braga vive uma artista brasileira lésbica que seduz a personagem de Kim Catrall (a insaciável Samantha Jones) e, numa cena, explica-lhe que há em português uma palavra “muito bonita” para designar “vagina”: boceta.



                                                                                                                        (A.C.: the green torso)



Em todas as línguas, eu creio, há inúmeras palavras para designar o “órgão genital feminino” (órgão genital feminino: típica expressão broxante!, de livro católico de educação sexual e assemelhados). Em português, não é diferente. Já computei centenas de nomes populares e regionais para a “boceta” (que muitos preferem grafar “buceta” – questão de gosto, sem trocadilho, ou de tornar o vocábulo mais escrachado).





(A.C.: the rose)


Como “boceta” significa “caixa”, muitas outras palavras desse campo semântico, ou seja, que lembrem vasos, entradas, receptáculos etc. passaram a ter o significado de boceta, como nestes exemplos: arapuca-de-caçar-pinto, bainha, bainha-de-homem, baú, boca-de-baixo, boca-de-cabelo, boca-sem-dentes, buraco-de-minhoca, caixinha-de-segredos, caneco-de-couro, canoinha, chincha (= canoa, canoinha), engole-cobra, fenda, grota, greta, gruta, gretagarbo, gruta-do-amor, goelão, enxu (= vespeiro, colmeia), lascadinha, lascada, mealheiro (= cofre), moente (= moedor = moedouro, sendo moer = "copular"), ninho-de-piroca, ninho-de-rola, olha (ôlha = panela, já em Gregório de Matos), panela-rachada (empregada em carta familiar pelo patriarca José Bonifácio para sua filha recém-nascida), pichéu/pichel (= vasilha de vinho), porteira-do-mundo, racha, rachadura, rego, rego-de-mijar, samburá (= cesta), tabaqueira (donde "tirar o tabaco, da [tabaqueira]"= deflorar), tabaco, tigela-com-pêlos, vaso, vaso dianteiro, vão...





(A.C.:the beauty and the feast)


Certos elementos de nosso imaginário, como a cor, os pelos, a beleza, a rechonchudez e a até a hediondez, podem levar a conotações tanto de desejo quanto carinhosas e nobres ou até pejorativas e despeitadas para dar nomes curiosos e, às vezes, estranhos, à boceta (oficializemos a boceta!), como, por exemplo: aranha, arraia-preta, bacalhau (há aqui alusão olfativa, dominantemente), bacorinho, barata, baratinha, bichana, borboleta, cachorro, caranguejeira, caranguejo, concriz/concliz (currupião), cururu (o sapo), lacraia, marisco-da-barra, marmota, mosca, pássara, passarinha (no masculino é, em geral, o pênis), perereca, periquita/priquita, pomba, pombinha, rata, rola, rolinha, sapo, sururu, tatu, ursa...





São também comuns nomes associados a funções, a formas, a cheiros e outros elementos culturais, como nestas designações, dentre muitas: áfrica (alusão ao negrume do cabelo pixaim, dominante entre nós, malgrado as louras e as falsas louras), almofada, bigode, bombril ( por sua função como utensílio e por ser eficaz só quando bem esfregado), caiçara (no sentido de recesso ou mata espessa onde o caçador se embosca), cara-preta, cara-de-sapo, casco-de-veado e casco-de-veadinho (alusão à forma, quando protuberante), cuscuz (uma abundância de sentidos: duplo, doce, múltiplo para as chamadas partes, para os seios, para as ancas, para as nádegas), engenho-d’água, entre-pernas (puro locativo), fábrica-de-fazer-boneco e fábrica-de-fazer-menino (funcional), ferida (visual), fidel-castro (pelas barbas), fonte, gramado (pelas ervas/pelos), ilha-negra, ímã-do-mundo, isqueiro (porque se incendeia e incendeia), lambedeira (= lambedouro, lugar onde se lambe, cunilinga), nascedouro (onde se nasce), mata, mata-homem, mijador, carne-mijada, olho-d’água, países-baixos, pé-de-barriga, jóia, joinha (infantil), prendas, segredinho (infantil), tira-prova-de-homem, touceira, triângulo...







São também interessantes os nomes que não apresentam nenhuma relação aparente com objetos, flores, frutos, funções, cheiros etc., mas apenas apresentam uma relação onomatopaica (ou seja, soam de forma agradável ou imitam onomatopeias infantis, com sons repetidos, como “xixi”). Encontram-se neste caso: pichita, pixana, pixéu/pichéu, prexeta, prexexa, xerecas, xexeca, xiba, xibio, xinxa, xinim, xiranha, xiri, xiricas, xiruba, xixim, xota, xoxota, bixota, bixoxota, pachecha, pachuda, pachada, pachocho, pachucha. Como são vocábulos não dicionarizados, a grafia oscila entre o “x” e o “ch”.





Em particular, muitos amantes dão nomes aos respectivos órgãos sexuais, como parte do jogo amoroso, como forma de carinho ou como a assinalar a posse pelo nome (nomear é uma forma de possuir, pelo menos no sentido imagético). Assim, um sujeito chamado Francisco, pode ter um “joãosinho”ou um “zezinho”, para sua namorada. E ele referir-se à “laurinha” ou à “margarida” de sua Andreia, por exemplo.







Em francês, também abundam (epa!) nomes, mas chamo a atenção para, pelo menos, um: chatte (gata, em tradução literal). Porque, em português, não costumamos chamá-la de “gata” (que tem outro sentido, de mulher bonita, agradável etc), mas usamos um codinome bem parecido: xana ou xaninha (não sei por que a preferência pelo “x”), que são diminutivos de “bichana” por associação com “bichano”, nome popular para gato. Ou seja, as metáforas e associações parecem repetir-se, não importa a cultura. E somos sempre muito criativos, quando desejamos, através de nomes e designações especiais, contornar os aspectos morais que envolvem dizer com palavras precisas aquilo que se quer dizer (sobre isto, aguarde, no próximo post, um texto genial de Leilah Assunção).



Enfim, de todos os nomes – e são tantos, que citei apenas uma pequena parcela – qual o nome?



E por que é importante ter um nome?




(Gustave Courbet: the origin of the world)



Um comentário:

Escrevendo na Pele disse...

Ai, ai, ai, meu querido! Rindo muito aqui com esse seu texto "punhético" sobre as xiranhas, rsrsrsrs. Os nomes são incríveis e alguns nunca escutei, rsrsrsrs Afffmaria! SEmpre entro no seu blogue para dar aquela espiada e nunca me arrependo. O bicho tá danado de gostoso! Mil beijos nessa sua boquinha santa.