terça-feira, 30 de março de 2010

DESATINOS... COM ABSINTO







As águas de março.

Fecham verões e abrem sulcos, vertentes. Jorram, fáceis, em leitos, não de rios, nem de lagos, mas em leitos de cetim, sobre alcatifas, sob dosséis.

E o prazer vem, se com Absinto regado.

Absinto. Bebida forte. Da belle époque. A fada azul.


(Degas - l'absinthe)


Tanto levou à loucura homens e mulheres, que foi proibido. E proibido ficou por muitos e muitos anos.

Absinto: um dos pseudônimos de Márcia Alencar, no seu blog ESCREVENDO NA PELE (link ao lado, por favor). Seus versos deixam, sim, na boca, o travo agridoce do absinto. Calor e prazer. Provemo-la e degustemo-los ou vice-versa. 

Pois, com suas águas, fecho o verão.




DESATINOS, 

de  Márcia Alencar



(Martin Van Maele - trilogie érotique)


desmancha-me na loucura


em águas de rio solto
quedas d'águas e cascatas
como a nascente
na cabeceira da tua cama



(Martin Van Maele)

não solte o teu urro agora
retese-me na nuca
na língua que serpenteias
com a Píton envenenada
no arrepio do meu dorso

(Martin van Maele)

Sinta...
sinta-me largada
nos suores dos pelos
pelas coxas desnudas
esfregando as almofadas


(Martin Van Maele)

não, não jorre agora a tua vida
guarde-a mais um pouco
desse copo-de-leite
- planta estarrecida -
de tanto esplendor
agora deixe-me solta
flutuando com os anjos
e esbraveje aos demônios
que o vermelho que me sai
são águas escaldantes
do teu corpo que tanto amo.


(Luiz Royo)




sexta-feira, 26 de março de 2010

MUITA SACANAGEM... COM ARETINO






Pietro Aretino. Já falei dele aqui, há algum tempo. A seus versos volto, com muita sacanagem, falando daquilo que ele mais gosta: de caralho e de cona. E diverte-se com isso, o velho chantagista. Vejam o que ele escreveu sobre os seus próprios poemas:



(Dubigeon)



"Diverti-me [...] escrevendo os sonetos que podeis ver [...] sob cada pintura(*). A indecente memória deles, eu a dedico a todos os hipócritas, pois não tenho mais paciência para as suas mesquinhas censuras, para o seu sujo costume de dizer aos olhos que não podem ver o que mais os deleita".


(Dubigeon)


E antes que algum moralista – de antanho ou de hoje – pudesse erguer seu braço vingador para execrá-lo, ele mesmo, Aretino, tratou de dar uma boa resposta:

(Dubigeon)


"Que mal haverá em contemplar um homem a possuir uma mulher? Serão os mesmos animais mais livres do que nós? Não é mister ocultar órgãos que engendraram tantas criaturas belas. Seria antes mister ocultar nossas mãos, que nos dissipam o dinheiro, fazem juramentos falsos, emprestam a juros usurários, torturam a alma, ferem e matam".








As duas citações são de “Carta sobre os Sonetos”. E os sonetos a que ele se refere são os famosos SONETOS LUXURIOSOS, que José Paulo Paes traduziu para o português. E eis um deles, para deleite de todos (e escândalo, talvez, de alguns):


(Dubigeon)


Um caralho papal, Faustina, é este.
Pois diz-me onde melhor se te afigura
— Em cona ou cu, que rara é a ventura.
Na cona te porei, se a elegeste.

Mas se no cu o queres, então neste
Há de entrar. Mexe agora com brandura.
Uma bela mulher nunca se apura
Se recebê-lo como o recebeste.

Aperta-o, meu bem, faz da seringa
Do meu belo caralho igual poema.
Aperta, coração, de novo aperta.

Uma das mãos põe-me no cu, oferta
-Me tua língua, abraça-me, vai, ginga,
Mexe, meu bem, oh! que doçura extrema!

Meu Deus, tanto se estrema
O prazer que um prodígio se ambiciona:
O pau fodendo juntos cu e cona.




(*) Aretino escreveu os Sonetos Luxuriosos inspirado em 16 gravuras (que foram destruídas) de Marcantonio Raimondi... Voltarei ao assunto!



sexta-feira, 19 de março de 2010

FLOR DE MAIO




(Georgia O'Keeffe - Black iris)


Abriste-me teu corpo,
com todo o teu perfume,
com todo o teu orvalho,
por uma noite apenas,
apenas por uma noite
.


(Isaias Edson Sidney)

(Anthony Cristian - Zachy II)



terça-feira, 16 de março de 2010

O TESTE DO MASTURBADOR FLESHLIGHT







Para os punheteiros de plantão: encontrei, num site francês, um teste, ou uma avaliação, de um produto bastante engraçado (já até falei dele por aqui, en passant) – o masturbador. Ou seja, uma engenhoca para os homens se masturbarem.


A tal avaliação passa por algo como “tudo o que você queria saber a respeito de masturbadores, mas não tinha a quem perguntar”. Ou, para as mulheres: você daria um masturbador para seu namorado, amante, marido, ficante etc?

Bem, se não há restrição, pelo menos muito explícita, a que as mulheres alardeiem seus “brinquedinhos” sexuais, que não passam de masturbadores, por que, entre os homens, isso é meio tabu?

Atire a primeira pedra aquele machão que, em criança, não tenha, pelo menos, participado de um bom campeonato de punheta. Além disso, dizem médicos e sexólogos, o autoerotismo é saudável.

Autoerotismo é só um eufemismo para a velha e boa punheta, ou para a sempre decantada siririca. Ok?





(Anthony Cristian – a moment alone)



Então vamos lá. Eis aqui, em resumo, o que o cara falou a respeito desse produto, como se fosse a avaliação de uma compra feita, por exemplo, no Mercado Livre:


Eu ganhei de presente, há alguns meses, um Fleshligt. Com já faz um certo tempo que eu o tenho, acredito que é hora de lhes contar esta experiência: o uso desse masturbador muito especial.




Primeiro, Fleshlight é uma marca de masturbador realista, para homens, em forma de vagina artificial. Esse nome é um jogo de palavras (flesh = carne; light = luz) sobre o fato de que o dispositivo é inserido num compartimento em forma de lanterna (flashlight, em inglês), com 24 cm de comprimento e 10 cm de diâmetro.
Os diferentes modelos estão disponíveis com orifícios em forma de boca, de vagina ou de ânus, para simular, respectivamente, a felação, o coito vaginal e o coito anal. É também fabricado com um orifício em forma de bunda de homem ou de mulher.


O Fleshlight apresenta-se com diferentes texturas internas, que permitem sensações suaves ou intensas, em função de movimentos mais fortes ou mais lentos:


O Fleshlight é um objeto bem concebido. Assim que o desembrulhamos, o primeiro espanto vem de sua textura: uma boa imitação de carne. Colocado em água quente durante alguns minutos antes de utilizá-lo, para aquecê-lo, tem-se realmente a impressão de um verdadeiro sexo feminino nas mãos. Os lábios e o orifício vaginal são muito realistas.

Antes de usar, é necessário lubricá-lo corretamente, com um lubrificante à base de água. Não economize lubrificante, porque, com o atrito, ele tende a secar e você se arrisca a irritar o seu sexo. Quanto mais, melhor.

Se bem lubrificado, as sensações são, simplesmente, fantásticas, próximas da realidade. A entrada da vagina é estreita, mas por ser bastante elástica, fica parecendo uma penetração real. Além disso, a vagina se alarga pouco até a extremidade do Fleshlight e as texturas internas aumentam as sensações.


Atenção: sendo tão agradáveis as sensações, é possível gozar muito rapidamente, porque o Fleshlight tem um efeito de de sucção bastante interessante, quando o sexo vai e vem em seu interior. Eu até mesmo recomendo brincar com ele, a dois, durante as preliminares ou assistindo um filme pornô. Pode-se, nesse caso, obter prazer simulando uma festa a três, em posição 69, em que o homem se ocupa do sexo da mulher e a mulher utiliza o fleshlight enquanto lambe o ventre do homem, por exemplo:





Sozinho, o ideal talvez seja enfiar o Fleshlignt entre almofadas, por exemplo, de modo simular os movimentos do coito em posição de missionário (papai e mamãe). Use a imaginação, enfim.

A vantagem do fleshlight é que ele é tampado na extremidade, o que possibilita gozar sem espalhar esperma por todos os lados. Por outro lado, é necessário observar que, durante a utilização, o Fleshlight faz uma espécie de barulho de succão bastante forte. É o único inconveniente que eu econtrei nesse masturbador.

A limpeza e a conservação são fáceis: a parte carnuda pode ser limpa com um jato de água quente de torneira e depois é só enxugá-lo com uma toalha, tomando o cuidado de não esfregar para não danificá-lo. O melhor é deixá-lo secar naturalmente, envolto na toalha.

Conclusão:


Gostei do presente e o recomendo aos casais que desejam brincar durante as preliminares ou às pessoas que procuram sensações bastante próximas da realidade. Mas, é só um masturbador, não fique sonhando! A textura de carne é realmente incrivelmente bem resolvida e o produto é de muito boa qualidade, apesar dos cuidados na limpeza e do desagradável barulho de sucção.



Dou, então, nota 4 (de 5), para o Fleshlight.”





Então, tá, né?








sexta-feira, 12 de março de 2010

ETERNO







Para que no me olvides,
disseste.
E enfiaste as unhas
em minhas costas.
Não gritei.
Não xinguei.
Apenas te olhei.
E, como se fosse possível
esquecer-te,
deixei,
com minha língua,
um gosto amargo
em tua boca.
E gozei.





(Isaias Edson Sidney)



terça-feira, 9 de março de 2010

PRAZER AOS PEDAÇOS... COM SALOMÃO




"Que formosos são os teus pés nos sapatos,ó filha de príncipe!"






"As voltas de tuas coxas são como joias,trabalhadas por mãos de artista."





"O teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida;






o teu ventre como um monte de trigo cercado de lírios."






"Os teus dois peitos como dois filhos gêmeos da gazela."




"O teu pescoço como a torre de marfim;



os teus olhos como os viveiros de Hesebom, junto à porta de Bete-Arabim:





o teu nariz como a torre do Líbano, que olha para Damasco."




"A tua cabeça sobre ti é como o monte Carmelo, e os cabelos da tua cabeça como a púrpura:o rei está preso pelas suas tranças."





"Quão formosa, e quão aprazível és, ó amor em delícias!"




(Foto de Pascal Renoux)




"A tua estatura é semelhante à palmeira. E os teus peitos aos cachos de uvas."




(Foto de ABarreiros)



"Dizia eu: Subirei à palmeira, pegarei em seus ramos;e então os teus peitos serão como os cachos na vide, e o cheiro da tua respiração como o das maçãs."





(Foto de Paulo Almeida)




(Cantares de Salomão – 7, 1-8 – tradução de João Ferreira de Almeida)



sexta-feira, 5 de março de 2010

A PALAVRA, de Leilah Assunção




(Mark Blanton)




“Xotinha é a das outras. Uma fêmea linda e tesuda como você tem é uma bela de uma bo-ce-ta.”

A palavra estalou no quarto. Como gema de ovo. Gelada. Ribombou nas paredes.

Como tambor. E parou. Parou suspensa. Solidificada.

Leda não sabia se afundava pela terra adentro, se ia embora, ou se fingia simplesmente não ter escutado a palavra horrível.





Não, impossível não ter escutado. Lá estava ela, a palavra, paralisada no ar, não só escutada como soletrada, arregalada, descarada, bo-ce-ta. Horrível. De todas, a única que ela jamais conseguiria pronunciar. Medonha. Quando a via escrita nos muros, lá no Interior, mesmo com bu em vez de bo, se avermelhava toda e virava o rosto. Quando começara a dizer alguns nomes feios, com as meninas do internato, esse era, de comum acordo, feio-além-da-conta, esse era “aquele” que não se ousará nunca dizer. Quando, já moça feita e desinibida, nos amores com o noivo pedia-lhe entre suspiros que “a possuísse logo”, sabia muito bem que os “desvarios” tinham limites claros, que a vulgaridade estava obviamente fora dos limites, e que “essa” palavra então, “essa” palavra destruiria tudo. 




E agora ali estava, na cama com um estranho, o noivado mal rompido, na cama com um estranho que lhe admirava a bo-ce-ta. Ai, não, que horror, não conseguia sequer “pensá-la” inteira. E a palavra ali na sua frente, boiando e planando, paradona, encarada, encarada, ah meu Deus, que lhe dera na cabeça? Como pôde chegar a isso? A menos de três horas atrás estava com o noivo no restaurante, anel no dedo, móveis comprados, casamento marcado, futuro planejado, definido, garantido. Uma briga de nada, começou com qualquer coisa sobre a roupa colorida dela e ela acabou se mandando do restaurante sozinha. 





Quando ia entrando no seu prédio viu o moço. Deu bola. Ele seguiu, entrou, agarrou e pronto. Ela deixou. Louca. Não, não dava pra não ter deixado, não dava. O noivado rompido, o clima de aventura, a excitação, o inusitado, o desconhecido. Ela deixou e até ousou bastante, pedindo a um estranho: “Põe, põe na minha xotinha, põe.” Pra escutar aquilo. Que xotinha era a das outras. Que a dela, bem, pra escutar aquilo, aquela resposta-palavra despudorada solta no ar encarando ela, como se sentia ridícula. “Põe, põe na minha xotinha.” Uma débil mental miando baixo, uma menina boba esganiçando fino, uma cavalona com a xotinha impúbere. Ficou se imaginando imensa e com a xota de bebê, um tracinho fino e pelado no meio das pernas compridíssimas, das ancas parideiras, do ventre aveludado, dos seios de macieira. Foi aí então que Leda percebeu que a palavra não estava mais no quarto. Foi só então que ela viu que o som, como que por encanto havia desaparecido da frente dela. Aí ela sentiu. Sentiu numa contração quente e funda, quase doída, que a palavra havia caído e se agarrado nos confins das suas entranhas. Se agarrado feito torniquete contorcendo o útero, tinha virado brasa, bo-ce-ta. 






Cheia e polpuda, ele continuava, crespa, carnuda, e ele foi lá então, carnuda e saborosa, gostosa, gostosa, e se enfiou, bo-ce-ta, a sua bo-ce-ta, boceta de mulher feita de mulher fêmea desabrochada, exuberante, é carne, é suco, é flor, é fruta, é figo, é figo, é boceta, boceta, e com a língua lá dentro ele beijou e lambeu e chupou e se lambuzou, chupa, ela se escutou falando então, chupa, lambe, morde, assim, molha, cospe e beija e saliva molhado, endurece a língua e enfia firme, assim, deixa ela dura como o teu. . . ca-ra-lho. Essa ela já nem se escutou falando mais. Já estava entregue. Ela já não escutava, nem pensava, nem sabia. E nem sentia. 





Ela “era” todas as emoções e sentimentos, ela era todas as palavras mais sublimes e as mais chãs, ela era todas as poesias e todos os calões mais baixos, amor, amor, ela falava, mesmo sabendo que esse tesão não era amor ela falava amor, não te conheço e te amo, vem amor, me fode com esse teu pau gostoso, não, você não tem pau, você tem ca-ra-lho, pau é o dos outros, você tem ca-ce-te, de homem macho plantado firme, de base sólida se levantando rijo, me dá, me deixa apalpar, assim, me dá, é meu, me deixa passar os lábios e te sentir com a língua, duro, firme, decidido, deixa que a minha boca te engula inteiro, e te sugue e sugue e chupe e nos lambuzemos juntos, vem, investe firme neste meu campo teu, escoiceia e enfia fundo, me entala com o teu talo forte e me estala, me arrebenta, tome posse desse poço, caramba, que foi que eu disse, não sei mais se apenas penso ou digo e faço, eu enlouqueço, e Leda então também beijou e lambeu e chupou e se lambuzou, queria morrer agora e nos cristalizar assim neste prazer tão doido e eternizar este meu gozo novo, este meu gozo único, este meu gozo, ah, caceta, não sei se penso ou falo, fazemos, vem meu tesão louco, desvairado assim, assim, vem, bem fundo, enfia e queima lá no fundo, é de lá que eu... vem amor, ah, me trepa e mete, eu enlouqueço, junto comigo agora, vem meu amor, agora, o gozo nosso, eu vou.... ah, amor, meu amor... meu am... Gritaram juntos. As contrações e o gozo foram completamente inverbalizáveis. 







A impressão era que depois do gozo eles dois planaram e depois pousaram, relaxando calmos, como se fossem santos. Fecharam os olhos e assim ficaram muito tempo, deitados de mãos dadas, agora sem falar e nem pensar nada. Então ele acariciou os cabelos dela e disse seu nome, Luiz, mas ela pediu silêncio. Então ela mentiu que era casada e que o marido ia chegar. Ele se levantou, mudo, vestiu-se. Rabiscou o telefone num papel, jogou sobre a cadeira e foi-se embora. Ela se espreguiçou, andou um pouco pelo quarto, amassou o papel que estava na cadeira e jogou no lixo, displicentemente. O telefone tocou, era o noivo dela, ela disse que ele tinha um pirulito e ela uma bela de uma boceta, e desligou. Vestiu-se cantarolando, alegre, pela primeira vez na vida sentia-se liberta, segura e solta, dona de si e do mundo. Pegou a bolsa, abriu a porta, chamou o elevador. Saiu pra rua. Nunca tinha visto antes uma noite linda como aquela, o ar tão fino e puro, o céu tão estrelado, nunca se sentira antes tão assim, sem medos, tão assim dona de si, do mundo, e de todos os homens do mundo. Um cara passou e falou que não sabia que boneca andava, ela pensou que cretino e continuou andando. O segundo cara disse que ela era a nora que a mãe dele sonhava, ela pensou que imbecil e continuou andando. Dois, três, cinco quarteirões e finalmente o quarto cara que mexeu com ela fez um barulho molhado com a boca e disse—“ô tesuda, posso dar uma chupada nessa sua boceta gorda?” Ela parou e olhou pra ele. Ficou olhando, e escutando. Ficou esperando. Mas nada. Ela esperando e nada. Nada. Não havia meio, a palavra continuava lá, suspensa e horrorosa. Não havia meio de a palavra cair e se contrair no fim do fundo das suas entranhas e do seu útero. Ficava lá, suspensa e paradona em cima da cabeça dele, sem tesão nem excitação nenhuma, apenas chapada, feia, arregalada e arreganhada. Pornograficada. Ela então voltou pra casa, foi até o lixo, desamassou o papel, foi até o telefone e discou.

“Luiz? Olha, eu não sou casada não e...”

E foram felizes pra sempre.

(Status Literatura No. 76A.)




(John Currin – After Courbet)




terça-feira, 2 de março de 2010

DE TODOS OS NOMES, QUAL O NOME?







(Picasso)


Lembro uma canção americana, cantada pela banda Bloodhound Gang, chamada The Vagina Song (A canção da vagina), cuja primeira estrofe é assim:



Some of them are hairy

Some of them are bald

Some are kind scary

And this is what they're called



Vagina!

Vagi-hoo-a!
They call that thing
Vagina




Numa tradução livre:

Algumas são cabeludas
Algumas são lisinhas
Algomas são assustadoras
E assim é como são chamadas

Vagina!
Vagi-hoo-a!
Chamam-nas de
Vagina

(Se quiser ouvir a música, veja este vídeo do Youtube, que tem só a canção e a letra, sem imagens: http://www.youtube.com/watch?v=FcQCcYkLMzU).






(Anthony Christian: erotic hands)



Pois, é: “vagina” é a palavra “oficial” para “ela”, em inglês. Embora possam ser até assustadoras!


Em português, qual o nome, digamos, oficial?



Os livros científicos quando falam em “vagina” querem dizer “o canal entre o útero e a vulva”, o que é, portanto, uma outra “coisa”, não exatamente aquilo que pensamos, deixando o termo “vulva” para “a parte exterior do aparelho genital da mulher”, ou seja, exatamente aquilo que pensamos, quando pensamos naquilo.




(A.C.: striped stocking)


Mas, será que alguma mulher usa este termo – vulva – em conversas normais, como “vou depilar minha vulva” ou, para o amante, “você gostou da minha vulva”?



Acho, ou melhor, tenho certeza, que não!





Num episódio do famoso seriado televisivo SEX AND THE CITY, Sônia Braga vive uma artista brasileira lésbica que seduz a personagem de Kim Catrall (a insaciável Samantha Jones) e, numa cena, explica-lhe que há em português uma palavra “muito bonita” para designar “vagina”: boceta.



                                                                                                                        (A.C.: the green torso)



Em todas as línguas, eu creio, há inúmeras palavras para designar o “órgão genital feminino” (órgão genital feminino: típica expressão broxante!, de livro católico de educação sexual e assemelhados). Em português, não é diferente. Já computei centenas de nomes populares e regionais para a “boceta” (que muitos preferem grafar “buceta” – questão de gosto, sem trocadilho, ou de tornar o vocábulo mais escrachado).





(A.C.: the rose)


Como “boceta” significa “caixa”, muitas outras palavras desse campo semântico, ou seja, que lembrem vasos, entradas, receptáculos etc. passaram a ter o significado de boceta, como nestes exemplos: arapuca-de-caçar-pinto, bainha, bainha-de-homem, baú, boca-de-baixo, boca-de-cabelo, boca-sem-dentes, buraco-de-minhoca, caixinha-de-segredos, caneco-de-couro, canoinha, chincha (= canoa, canoinha), engole-cobra, fenda, grota, greta, gruta, gretagarbo, gruta-do-amor, goelão, enxu (= vespeiro, colmeia), lascadinha, lascada, mealheiro (= cofre), moente (= moedor = moedouro, sendo moer = "copular"), ninho-de-piroca, ninho-de-rola, olha (ôlha = panela, já em Gregório de Matos), panela-rachada (empregada em carta familiar pelo patriarca José Bonifácio para sua filha recém-nascida), pichéu/pichel (= vasilha de vinho), porteira-do-mundo, racha, rachadura, rego, rego-de-mijar, samburá (= cesta), tabaqueira (donde "tirar o tabaco, da [tabaqueira]"= deflorar), tabaco, tigela-com-pêlos, vaso, vaso dianteiro, vão...





(A.C.:the beauty and the feast)


Certos elementos de nosso imaginário, como a cor, os pelos, a beleza, a rechonchudez e a até a hediondez, podem levar a conotações tanto de desejo quanto carinhosas e nobres ou até pejorativas e despeitadas para dar nomes curiosos e, às vezes, estranhos, à boceta (oficializemos a boceta!), como, por exemplo: aranha, arraia-preta, bacalhau (há aqui alusão olfativa, dominantemente), bacorinho, barata, baratinha, bichana, borboleta, cachorro, caranguejeira, caranguejo, concriz/concliz (currupião), cururu (o sapo), lacraia, marisco-da-barra, marmota, mosca, pássara, passarinha (no masculino é, em geral, o pênis), perereca, periquita/priquita, pomba, pombinha, rata, rola, rolinha, sapo, sururu, tatu, ursa...





São também comuns nomes associados a funções, a formas, a cheiros e outros elementos culturais, como nestas designações, dentre muitas: áfrica (alusão ao negrume do cabelo pixaim, dominante entre nós, malgrado as louras e as falsas louras), almofada, bigode, bombril ( por sua função como utensílio e por ser eficaz só quando bem esfregado), caiçara (no sentido de recesso ou mata espessa onde o caçador se embosca), cara-preta, cara-de-sapo, casco-de-veado e casco-de-veadinho (alusão à forma, quando protuberante), cuscuz (uma abundância de sentidos: duplo, doce, múltiplo para as chamadas partes, para os seios, para as ancas, para as nádegas), engenho-d’água, entre-pernas (puro locativo), fábrica-de-fazer-boneco e fábrica-de-fazer-menino (funcional), ferida (visual), fidel-castro (pelas barbas), fonte, gramado (pelas ervas/pelos), ilha-negra, ímã-do-mundo, isqueiro (porque se incendeia e incendeia), lambedeira (= lambedouro, lugar onde se lambe, cunilinga), nascedouro (onde se nasce), mata, mata-homem, mijador, carne-mijada, olho-d’água, países-baixos, pé-de-barriga, jóia, joinha (infantil), prendas, segredinho (infantil), tira-prova-de-homem, touceira, triângulo...







São também interessantes os nomes que não apresentam nenhuma relação aparente com objetos, flores, frutos, funções, cheiros etc., mas apenas apresentam uma relação onomatopaica (ou seja, soam de forma agradável ou imitam onomatopeias infantis, com sons repetidos, como “xixi”). Encontram-se neste caso: pichita, pixana, pixéu/pichéu, prexeta, prexexa, xerecas, xexeca, xiba, xibio, xinxa, xinim, xiranha, xiri, xiricas, xiruba, xixim, xota, xoxota, bixota, bixoxota, pachecha, pachuda, pachada, pachocho, pachucha. Como são vocábulos não dicionarizados, a grafia oscila entre o “x” e o “ch”.





Em particular, muitos amantes dão nomes aos respectivos órgãos sexuais, como parte do jogo amoroso, como forma de carinho ou como a assinalar a posse pelo nome (nomear é uma forma de possuir, pelo menos no sentido imagético). Assim, um sujeito chamado Francisco, pode ter um “joãosinho”ou um “zezinho”, para sua namorada. E ele referir-se à “laurinha” ou à “margarida” de sua Andreia, por exemplo.







Em francês, também abundam (epa!) nomes, mas chamo a atenção para, pelo menos, um: chatte (gata, em tradução literal). Porque, em português, não costumamos chamá-la de “gata” (que tem outro sentido, de mulher bonita, agradável etc), mas usamos um codinome bem parecido: xana ou xaninha (não sei por que a preferência pelo “x”), que são diminutivos de “bichana” por associação com “bichano”, nome popular para gato. Ou seja, as metáforas e associações parecem repetir-se, não importa a cultura. E somos sempre muito criativos, quando desejamos, através de nomes e designações especiais, contornar os aspectos morais que envolvem dizer com palavras precisas aquilo que se quer dizer (sobre isto, aguarde, no próximo post, um texto genial de Leilah Assunção).



Enfim, de todos os nomes – e são tantos, que citei apenas uma pequena parcela – qual o nome?



E por que é importante ter um nome?




(Gustave Courbet: the origin of the world)