sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

QUEM TEM MEDO DO PONTO G?








Por aqui, o assunto não passou de pequenas notas nos jornais. Mas, na Europa, muitas pessoas têm discutido a mais nova bomba da sexologia:


O PONTO G NÃO EXISTE!

Essa é a conclusão de uma pesquisa realizada na Inglaterra.

Bem, se ele existe ou não, acho que será um bom propósito de uma uma saudável vida sexual não deixar de procurá-lo! Não acham?

Em todo caso, para meter (epa!) a colher nessa encrenca, convoquei a já nossa conhecida Agnés Giard, do blog LES 400 CULS, para dar sua opinião. Que, como poderão observar, é um tanto irada.



Sabendo que os pesquisadores que negam a existência do ponto G são ingleses e que nossa articulista é francesa, pode-se pensar que estamos diante de mais uma pinimba da tradicional briga entre as duas nações. Que não se entendem desde o tempo de Joana D’Arc. Ou talvez desde muito antes.

Será que estamos diante de mais uma guerra entre os frios ingleses e o esquentado mau humor francês? Agora, na guerra do ponto G?


(Carla Bruni - foto de a. não identificado)

O que será que pensa a Carla Bruni disso tudo? Jogará mais lenha nessa fogueira? Convocará o maridão para provar que não só existe o ponto G, mas também o A... o B... o alfabeto inteiro? Afinal, ela conhece bem os homens – tanto de um lado quanto do outro do canal da Mancha... (Cala-te, boca!)

Enfim, leiam o artigo. E tirem suas conclusões.

PONTO G: 

O ESTUDO IDIOTA DO ANO


Não gozem mais! Vossos orgasmos resultam de autossugestão.” Após interrogar 1804 mulheres, dois pesquisadores concluem que o ponto G não existe. Ou melhor, que ele existe somente “na cabeça”. Pois vejamos.



Em 4 de janeiro de 2010, como se fosse preciso começar o ano com um estudo que não serve para nada, uma equipe do King’s College de Londres, formada por Tim Spector (professor de epidemiologia genética) e Andrea Burri (psicóloga bernense) publicou o resultado da “maior pesquisa jamais realizada sobre o ponto G” (sic), com as conclusões seguintes: “o ponto G é uma premissa totalmente subjetiva”.

(Apollonia Saint-Clair)


Subentende-se: as mulheres que pretendem ter um teriam é muita imaginação. Andrea Burri até mesmo acusa os sexólogos de terem inventado essa zona erógena, tornando assim loucas de preocupação as infelizes que não têm conseguido encontrar seu ponto G. “É totalmente irresponsável proclamar a existência de uma entidade sobre a qual não existe nenhuma prova e, fazendo isto, pressionar as mulheres que se sentem diminuídas pelo fato de não estarem conforme a regra.”










Para a realização desse estudo, 1804 mulheres com idades entre 23 e 83 anos preencheram questionários. Trata-se unicamente de gêmeas (curiosamente, heterossexuais). Partindo do princípio de que as gêmeas têm o mesmo DNA, os dois pesquisadores se esforçaram por mostrar que não seria normal que certas mulheres tenham um ponto G e não sua irmã... Sob o ponto de vista genético, é “impossível” (explicaram eles) que uma gêmea apresente uma característica fisiológica e a outra, não. “Se o ponto G existisse, ambas as gêmeas teriam um, não é?” “Falso”, rebatem outros médicos: “As gêmeas geralmente não tem o mesmo parceiro sexual”. 

(Apollonia Saint-Clair)
A sexóloga Beverly Whipple, que popularizou a existência do ponto G em 1981, tem especialmente negado a pesquisa: “Não se nasce com um ponto G, a gente o encontra”. Assim como o orgasmo, o prazer proporcionado pelo ponto G é fruto de treino, de uma progressiva domesticação do corpo e, sobretudo... da sorte. Você pode encontrá-lo a partir de uma penetração manual ou peniana. Você pode encontrá-lo por você mesma ao se tocar. Você pode aumentar seu poder e tocá-lo como um instrumento... É como uma loteria. Nem todas as mulheres o têm. Algumas o “encontram” numa idade avançada, de modo surpreendente. Outras têm a oportunidade acertar em cheio muito rápido.





A existência aleatória do ponto é comparável, de uma certa maneira, à estimulação dos seios: alguns homens (e mulheres) não sentem nada quando se lhes acariciam os mamilos. Outros “treinam” suas tetas até toná-las verdadeiras receptoras-emissoras. Outros têm, naturalmente, os seios tão sensíveis que pulam ao menor roçar e não suportam que se lhes toquem. O corpo humano é tão mutável que é preciso muitas vezes uma carícia inédita, um(a) novo(a) parceiro(a), uma mudança de regime alimentar ou uma gravidez, para colocar de repente sob tensão partes do corpo que até aquele momento não pareciam mais do que mediocremente inervadas... Cada centímetro de pele esconde tesouros de sensações. Para quê, nessas condições, se lançar a um estudo assim absurdo como esse, que consiste em dizer que uma determinada parte do corpo não é erógena, enquanto todas as demais o são, potencialmente?


O ponto G designa uma zona erógena sob a face anterior da vagina, situada aproximadamente de um a quatro centímetros da entrada, na qual a estimulação pode provocar uma grande excitação. “Descoberto” pelo doutor Gräfenberg, em 1950, o “ponto Gräfenberb” não tem nada a ver com um “ponto”: trata-se, na realidade, de uma zona sensível correspondente, segundo algumas pesquisas recentes, à parte imersa do clitóris. O clitóris não se reduz, na verdade, à pequena protuberância que encima a vulva. 


O clitóris tem semelhança com o pênis e se enraíza profundamente ao longo da parede da vagina, separado da superfície por uma membrana com a consistência próxima de um corpo cavernoso. Essa membrana atenua as sensações, à maneira de um tampão. Isso explica por que uma mulher tem muito menos sensações dentro da vagina do que no clitóris. Mas a membrana fica relativamente fina na entrada da vagina: quando é tocada, pode-se estimular o clitóris através dela. Eis, então, no que consiste o ponto G: tratar-se-ia de uma parte onde a parede vaginal, menos espessa, permite estimular o clitóris que se encontra por dentro.


O problema com esta zona é que é preciso encontrá-la e, às vezes, até mesmo “ativá-la”. Mas, não é esse o problema com todo o nosso corpo, em geral? Devemos educá-lo. Para apreciar o vinho, muitos treinam suas papilas a detectar cada aroma. Para diferenciar e memorizar os perfumes, outros participam de concursos de incensos. Aguça-se o odor, como se aguçam outras sensações... venham elas das mucosas ou não. E isso, provavelmente, é o ponto fraco desse estudo britânico. 


Ao negar a existência do ponto G, os cientistas afirmam que eles libertam as mulheres (e os homens) de carregar um grande peso. Eles se enganam de objetivo. Aqueles que se queixam da obrigação do prazer ficariam bem mais aliviados ao perceber que não existe apenas um, mas centenas de pontos G, de sensores e de receptores capazes de transformar os sons, as carícias, os odores, as palavras, as cores ou os sinais químicos em outros tantos estímulos afrodisíacos. Por que circunscrever as zonas erógenas, reduzi-las a alguns dados médicos (corpúsculos de Krause, glândulas de Skene ou sabe-se lá), com esta horrível mania de “objetividade”?




Existem mulheres que gozam quando se estimula o interior da vagina. Por que desacreditar essas mulheres, afirmando que elas são vitimas de uma pretensa propaganda conduzida por um lobby de sexólogos? Elas não esperaram 1950 e Gräfenberg para gozar assim. Elas, muitas vezes, jamais ouviram falar do ponto G. Elas gozavam. Gratuitamente negativo, o estudo do Kings College de Londres não tem nenhum propósito se não negar a evidência. E fazendo isso, fazer regredir o modo de pensar de nossa época. 



“Digam não ao prazer. Já que ele não se explica, é porque ele não existe”. Assim se poderiam resumir as conclusões desse estudo idiota. Idiota e desesperador. Andrea Murri e Tim Spetor fariam melhor se buscassem compreender por que algumas parte do corpo proporcionam prazer. Coisa que a genética não explica. Tudo o que eles conseguiram demonstrar até aqui foi sua impotência em compreender. Somente sua impotência, posso dizer.




Nota complementar: eu não critico a pesquisa científica. Ao contrário: parece-me extremamente importante saber mais sobre o corpo humano e seu funcionamento. Critico a metodologia de alguns pesquisadores. Em vez de se ater à simples constatação segundo a qual o ponto G não era um elemento genético (ainda que a forma que eles o demonstram me parece um pouco simplória), Tim Spector e Andrea Murri deduziram de seu estudo que o ponto G não existe no plano material. Ora, recentes estudos parecem, ao contrário, provar que se trata sim de algo real. Eu tratarei disso num próximo artigo. A esperar, portanto.



Agnés Giard





(Tradução: Isaias Edson Sidney)




Confira-se o original em:





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