terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O ÚLTIMO A COMER-TE





A boa, velha e sacana musa erótica pousa, quase sempre, nos versos de poetas menos conhecidos. Que não têm medo do risco e escancaram o estro à sua inspiração. É uma teoria pessoal. Que pode ou não ser comprovada, de acordo com os exemplos que se busquem. Drummond: o maior poeta brasileiro não deixou por menos e contraria um tanto o que eu disse. Fez boa poesia erótica, embora sempre mais cerebral que emocional. Suas amarras não se soltaram completamente, mesmo com o aparente despudor no uso das palavras.


Gosto muito deste soneto:





Não quero ser o último a comer-te


Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde

em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde

a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.






Deve ter tido seus motivos o poeta, por não querer a amada depois de decorridos os anos, mesmo limpa de “toda a gala”, “intata”, “renascida”. Mas, não acho que ser último na vida de uma mulher seja algum desdouro. Pode, pelo contrário, até ser a glória suprema da vida de um homem. E vice-versa, claro.

Amor e sexo são tão intimamente ligados que, radicalizando um pouco a imaginação, pensei num poema-resposta a Drummond. Não, é lógico, tendo a pretensão de sequer chegar próximo à sua luz, mas é, enfim, um direito que todo poeta tem de tentar glosar ou parodiar a outro.


Eis, portanto, meu ousado contraponto ao Poeta Maior:


Último






Enquanto no banho te lavas,
Penso, louco por foder-te:
Vieste, puta, como as escravas,
Mas não é assim que quero ver-te:
Se por qualquer dinheiro me davas,
Quero, sim, ser o último a comer-te.



(Isaias Edson Sidney)



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