terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O OLHO ERÓTICO DE GEORGES BATAILLE - 1







George Bataille (1897-1962), um dos mais polêmicos escritores do século XX, militou em diversas áreas, desde a literatura até à filosofia.

E deixou obras marcantes na Literatura Francesa.


“História do olho” é uma narrativa surrealista, contada de forma simples e direta. Escreveu-a por sugestão de seu psicanalista, como forma de se libertar de obsessões perturbadoras.

“Escrevo para apagar meu nome” – escreveu ele.

Ainda bem que não apagou.

Confirme sua transgressão erótica, seu gosto pelo inusitado, sua forma genial de escrever, no trecho abaixo de “HISTÓRIA DO OLHO”:



O olho de gato



(Renoir)



Fui criado sozinho e, até onde me lembro, vivia angustiado pelas coisas do sexo. Tinha quase dezesseis anos quando conheci uma garota da minha idade, Simone, na praia de x. Nossas famílias descobriram um parentesco longínquo e nossas relações logo se precipitaram. Três dias depois do do nosso primeiro encontro, Simone e eu estávamos a sós em sua casa de campo. Ela vestia um avental preto e usava uma gola engomada. Comecei a me dar conta de que ela partilhava minha angústia, bem mais forte naque dia em que ela parecia estar nua sob o avental.



Suas meias de seda preta subiam acima do joelho. Eu ainda não tinha conseguido vê-la até o cu (esse nome, que sempre empregava com Simone, era para mim o mais belo entre os nomes do sexo). Imaginava apenas que, levantando o avental, contemplaria a sua bunda pelada.








Havia no corredor um prato de leite para gato.


- Os pratos foram feitos para a gente sentar – disse Simone. – Quer apostar que eu me sento no prato?


- Duvido que você se atreva – respondi, ofegante.


Fazia calor. Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou a bunda no leite. Por um momento fiquei imóvel, tremendo, os sangue subindo à cabeça, enquanto ela olhava meu pau se erguer na calça. Deitei-me a seus pés. Ela não se mexia; pela primeira vez, vi usa “carne rosa e negra” banhada em leite branco.


Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados.





De repente, ela se levantou: o leite escorreu por suas coxas até as meias. Enxugou-se com um lenço, por cima da minha cabeça, com um pé no banquinho. Eu esfregava o pau, me rexendo no assoalho. Gozamos no mesmo instante, sem nos tocarmos. Porém, quando sua mãe retornou, sentando-me numa poltrona baixa, aproveitei um momento em que a menina se aninhou nos braços maternos: sem ser visto, levantei o avental e enfiei a mão por entre suas coxas quentes.


Voltei para casa correndo, louco para bater punheta de novo. No dia seguinte, amanheci de olheiras. Simone me olhou de frete, esondeu a cabeça contra o meu ombro e disse: “Não quero mais que você bata punheta sem mim”.








Assim começou entre nós uma relação amorosa tão íntima e tão urgente que raramente passamos uma semana sem nos ver. De certa forma, nunca falamos disso. Percebo que ela tem, minha presença, sentimentos semelhantes aos meus, difíceis de descrever. Lembro-me de um dia em que passeávamos de carro, em alta velocidade. Atropelei uma ciclista jovem e bela, cujo pescoço quase foi arrancado pelas rodas. Contemplamos a morta por um bom tempo. O horror e o desespero que exalavam aquelas carnes, em parte repugnantes, em parte delicadas, recordam o sentimento dos nossos primeiros encontros. Em geral, Simone é uma pessoa simples. É alta e bonita; nada tem de angustiado no olhar ou na voz. Mas é tão ávida por qualquer coisa que perturbe os sentidos, que o menor apelo confere ao seu rosto uma expressão que evoca o sangue, o pavor súbito, o crime, tudo que arruína definitivamente a beatitude e a consciência tranquila. Vi pela primeira vez essa crispação muda e absoluta – que eu partilhava – no dia em que ela meteu a bunda no prato. Nunca nos olhamos atentamente, a não ser nesses momentos. Nunca estamos calmos, nm brincamos, a não ser durante os breves minutos de relaxamento, depois do orgasmo.




(Georges Bataille, História do Olho; tradução de Eliane Robert Moraes)

(Ilustrações e foto da internet, sem indicação de autoria)





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