terça-feira, 3 de novembro de 2009

YONI, A VAGINA DENTADA






O triângulo invertido que representa a vulva da deusa parece ter sido adorado desde a Pré-História. Existem provas de sua utilização no Paleolítico, como pendente, símbolo de fertilidade ou amuleto para afastar o perigo, e foi realçado em estatuetas de Vênus e estilizado em diversas formas de arte e nas escritas cuneiformes que constituem os textos mais antigos.





O triângulo genital da deusa, bastante conhecido atualmente devido ao seu nome sânscrito de yoni, e cujo símbolo é uma flor de lótus, é a entrada e a saída para o mundo uterino. Todavia, o yoni da deusa não é apenas gerador da vida, o caminho pelo qual a vida entra no mundo, é também o mesmo por onde sai, e o yoni tem sido retratado em várias culturas como uma entidade temível, faminta e independente, com dentes vorazes - a vagina dentada.






Os navajos e os apaches contam muitas histórias de órgãos sexuais femininos decepados, que andam e mordem, e que foram castigados por heróis civilizacionais, como o Matador de Monstros, filho da Mulher Que Muda, traduzindo essas histórias por imagens fálicas de elevado potencial sexual, como aquela em que o citado Matador de Monstros Mata Vagina Cheia (uma das mais ferozes de sua espécie, pois até acasala com cactos) atirando-lhe um pau que lhe parte os dentes afiados. Também os pueblos e outros nativos norte-americanos representam o esmagamento dos dentes da vagina de uma mulher com um falo de madeira.



Em termos mitológicos, é muitas vezes neste ponto que os tabus da menstruação e do nascimento se impõem à mulher, cuja hemorragia vaginal, que em tempos controlava e que constitui uma faceta importante do seu poder, fica restringida a um ciclo mensal e ao parto.


(Karina Kohoutek)

Curiosamente, o medo da vulva devoradora está ausente das imagens dominantes do culto indiano do yoni, onde a deusa, em geral personificada por Devi ou Kali, surge deitada de costas, com as pernas inclinadas, ou de pé, com as pernas afastadas, libertando o seu fluido vaginal, o yoni-tattva, um elixir divino que os seus devotos recebem na boca.



Num texto místico denominado Yoni-Tantra conta-se que o deus Brahma cortou aos pedaços o cadáver da deusa Sati (Parvati) para aliviar o fardo de seu marido Shiva, que andava com ele de um lado para o outro, desolado. A vulva caiu à terra em Kamakhya Assam, e foi construído um templo em sua honra, no interior do qual o yoni está representado por uma rocha fissurada, sempre umedecida por uma nascente subterrânea natural, de onde a água sai avermelhada uma vez por ano, devido ao óxido de ferro, na fase inicial da monção. Essa menstruação natural é interpretada pelos fiéis como uma maneira de a natureza confirmar a adoração da vulva feminina e dos processos a que ela está sujeita e como prova de que a Deusa é a terra.




Em toda a Índia encontram-se formações rochosas, grutas e dólmenes semelhantes ao yoni, e muitas vezes os peregrinos entram de rastos pela abertura, se esta é suficientemente grande, e saem também de rastos, imitando o renascimento divino - a entrada e o regresso do ventre celestial - quando tais estruturas naturais não existem, são construídas em formas de lagos triangulares no exterior dos templos.




É também freqüente os altares dos templos hindus ostentarem manchas vermelhas ou triângulos pintados junto deles que simbolizam o yoni, que por vezes exibe um falo preto e erecto no meio, caso em que se chama yoni-lingam e simboliza a união do deus Shiva com o seu princípio feminino, Shakti. Outras vezes é o próprio yoni que está na posição vertical, em especial quando colocado mesmo em frente de um altar.




O fluido do yoni é freqüentemente confundido com o sangue menstrual nos textos místicos do budismo tântrico e tem o nome de alimento de sangue, sendo muito venerado pelo poder especial que possui de curar e fazer magia.






O fluido do yoni também tem o nome de pushpa, ou flor, porque, "tal como a flor da árvore", anuncia o seu poder de dar frutos.


O culto do sangue





Desde o Paleolítico que o sangue se encontra intimamente associado ao ritual e ao culto. Os seus símbolos eram o ocre vermelho (usado para tingir imagens e também encontrado sobre cadáveres em posição fetal, a fim de que estes regressassem ao ventre da terra, prontos a renascer) e o vinho tinto.

O sangue constitui a base do clã, da realeza e da herança, e tem-se admitido que as mulheres se beneficiavam de um elevado status nas sociedades antigas por serem guardiãs e transmissoras - através da procriação - do sangue do clã e, portanto, do seu espírito.




Outrora, o sangue menstrual era considerado benéfico de muitas formas, sendo derramado nos campos como fertilizante e usado para curar e para conferir poder - nos tantras indianos há ainda alusões ao "sangue como alimento". Os homens tentaram muitas vezes imitar a hemorragia menstrual nos seus rituais, em atos como a circuncisão, a subincisão, entre alguns aborígenes australianos, e o corte dos mamilos, que se realiza durante a Dança do Sol dos sioux.



Afirma-se por vezes que os sacerdotes inventaram tabus menstruais para não usar o sangue feminino em rituais que numa determinada época se confinavam às sacerdotisas. Assim, rejeitado como impuro, o sangue menstrual tinha de ser substituído nas cerimônias sagradas por outro proveniente do sacrifício de seres humanos e animais.










(O texto é um excerto das páginas 96 e 97 do livro 
Divindades Femininas, de Shahrukh Husain, 
publicado pela editora Evergreen/Taschen)



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