sexta-feira, 20 de novembro de 2009

AS GAROTAS SÃO FEITAS DE AÇÚCAR E DE ESPECIARIAS?





Piadas machistas sobre o "cheiro da mulher", o cheiro de boceta, rolam em muitas culturas. No entanto, há o contraponto de que a maioria dos homens parecem gostar do cheiro ou dos perfumes que exalam as mulheres, principalmente de seus órgãos sexuais. A quebra do preconceito pode ser lenta - e, às vezes, o é - mas o macho acaba literalmente de quatro com os feromônios sexuais, porque isso é um produto de nossa própria condição e da própria natureza em levar ao acasalamento e à perpetuação da espécie dois seres de sexos diferentes. E o texto abaixo não nos deixa nenhuma dúvida: cheiro de fêmea pode ser, sim, o maior e melhor e o mais delicioso afrodisíaco existente. 

OS CHEIROS E SUCOS DA VAGINA:

UM DELICIOSO PRAZER



Tenho dois aromas favoritos: o aroma saboroso da torta de batata e carne que minha mãe assa lentamente e o perfume rico e estimulante de minha boceta fértil. Amor familial e amor sexual, descritos por simples substâncias químicas. Meu adorado perfume vaginal é meu cheiro mais verdadeiro e profundo. É o cheiro de minha fertilidade, de minha maturidade e prazer sexuais. Mas é também inconstante, a partir do quarto dia do meu ciclo menstrual. 



A partir daí, e até ovular, fico plenamente cônscia desse incenso vaginal aromático, intenso, doce, profundo e cremoso. Depois da ovulação ele fica um pouco mais frutado. O cheiro poderoso e sexualmente agradável que a vagina da mulher e suas secreções exalam não é nenhum segredo. Esse cheiro e sabor erótico e íntimo constituem uma alegria sensual louvada e desejada por muitas culturas há muitos séculos.



A história nos conta como as cortesãs na Europa medieval usavam suas secreções sexuais como perfume, untando-se atrás das orelhas e em torno do pescoço para atrair fregueses. Também se diz que as mulheres dos sul da Espanha esfregavam um pouco de seus sucos vaginais atrás das orelhas e nas têmporas. Mescladas a essa delicada essência de si mesmas havia outras fragrâncias, como jasmim, nérole, mirra, ilangue-ilangue ou frangipana. 



Acredita-se que essa antiga tradição tenha sido um segredo das amantes taoístas na antiga China antes de passar para os mouros e, destes, para os espanhóis. Sabe-se também que Napoleão era famoso por pedir a Josefina que “não se lavasse” quando ele ia voltar para casa, e que Henrique III permaneceu apaixonado por Maria de Cleves por toda a vida depois de ter cheirado sua roupa de baixo.


O texto sexológico clássico hindu Ananga Ranga é um dos documentos que sobreviveram ao tempo e que descreve com gloriosas minúcias o apelo sensorial da vagina. Ele diz que as mulheres se classificam em quatro classes e passa a elogiar as mulheres em termos de seus cheiros, sabores e estilos genitais. 



Primeiro, a vagina da padmini (mulher-lótus, em sânscrito) se parece a um botão de lótus, e gosta de sentir os raios do sol e o toque de mãos fortes. Suas secreções sexuais (Kama-salila) têm o perfume do lírio recém-desabrochado. Pode-se reconhecer a chitrini (mulher-arte) por seu monte de Vênus macio, alto e arredondado, e por sua vagina com cheiro de mel. A delícia é que se diz que seus fluidos genitais também têm gosto de mel; eles são também excepcionalmente quentes e tão abundantes que fazem muito barulho. 




A vagina da shakhini (mulher fada ou mulher concha) aparentemente está sempre úmida e adora ser beijada ou lambida, e seus sucos genitais são picantes ou salgados. Finalmente, a quarta ordem de mulher e é a hastini (mulher elefanta) que gosta muito da estimulação no clitóris; suas secreções sexuais têm o sabor do musth – o líquido almiscarado que escorre da têmpora do elefante quando ele fica excitado sexualmente.



A força da associação entre a genitália feminina e seus cheiros é acentuada de maneira dramática pela linguagem. “Travesseiro de almíscar” e “botão entreaberto de peônia” são duas formas chinesas de designar a vagina, ao passo que na Inglaterra oitocentista “pote de mel”, “rosa” ou “rosa de musgo” eram empregados para descrever o coração sexual da mulher. 


A associação da vagina com mel é tenaz. Não é só o Ananga Ranga que fala de vaginas com o doce cheiro do mel; há quem diga que os sucos vaginais de todas as mulheres têm sabor de mel durante certos dias do ciclo menstrual. Não deve ser coincidência que se empregue mel como elemento central de certas cerimônias matrimoniais, como o costume hindu de passar mel na vagina da noiva na festa de casamento, ou que os recém-casados partam em lua de mel. O mel também tem a reputação de ser afrodisíaco e chamamos nossos amados de “honey” (1).




A murta é outra planta com intenso perfume que a história registra como tendo o mesmo cheiro da genitália feminina. “Fruto da murta” é uma expressão que, ao longo dos tempos, tem-se usado para descrever tanto o clitóris como os pequenos lábios, ao passo que os grandes lábios, segundo o médico grego Rufo de Éfeso, do século I DC, eram os lábios da murta. A murta, com suas flores rosadas ou brancas e bagas aromáticas azul-escuras era também a planta sagrada de Afrodite, a deusa grega do amor. 




Diz a lenda que, quando Afrodite surgiu das ondas montada numa concha e teve a sua nudez cobiçada por sátiros lascivos, cobriu sua genitália com ramos da perfumada murta, que cresce bem à beira-mar. Diz-se que, para os gregos, essa planta era o símbolo das coisas perfumadas e, de fato, a palavra grega para murta (murto) deriva da mesma raiz que a de perfume. Não é de surpreender que, dada sua ligação com Afrodite, a murta também seja considerada um potente afrodisíaco. Dioscórides, por exemplo, em seu compêndio de farmacologia Matéria Médica, descreve o óleo de murta como refrigerante, afrodisíaco e antisséptico, quando misturado ao chá.

(Obolenski)




(1) Expressão bastante popular em inglês, alguns equivalentes em português podem ser “doçura” ou “meu doce de coco” (Nota do Tradutor).




Catherine Blackledge




(A HISTÓRIA DA V – ABRINDO A CAIXA DE PANDORA

p.210 – tradução de J. M. de Bertolote)




Nenhum comentário: