sexta-feira, 9 de outubro de 2009

QUEM TEVE MEDO DO GARGANTA PROFUNDA?







Richard Nixon, com certeza, não só teve medo, mas ódio. “Garganta Profunda” foi o codinome da fonte jornalística que levou à denúncia do escândalo chamado Watergate, que provocou sua renúncia.



Mas, não é do Nixon nem de seus escândalos que vamos falar, e sim, de um filme de 1972, dos Estados Unidos: DEEP THROAT ou, como ficou conhecido no Brasil, GARGANTA PROFUNDA (em Portugal, Garganta Funda), dirigido por Gerard Damiano e estrelado por Linda Lovelace.

Causou, claro, escândalo na época, por ser uma ode mais do que explícita ao sexo oral. Sua historinha é ridícula: uma mulher (Linda Lovelace) não consegue chegar ao orgasmo, apesar de todas as tentativas possíveis. Um médico descobre que ela tem o clitóris na garganta. Pronto: está resolvido o mistério. Agora, é só ela encontrar pênis grandes o bastante para atingi-lo e ela conseguirá o tão esperado orgasmo.




Saudado, na época, apesar de todos os protestos dos moralistas de sempre, como liberador dos costumes, como liberador da sexualidade feminina e outras coisas mais, causou uma profunda mudança na indústria de filmes pornográficos.



Linda Lovelace, a protagonista, morreu em 2002, vítima de ferimentos causados por uma acidente automobilístico. Depois de Deep Throat, tentou filmes mais leves, mas não obteve sucesso e, nos seus últimos anos, fez campanha contra a exploração e as irregularidades da indústria pornô.





Em 2005, a Universal Pictures distribuiu um filme, na verdade, um documentário dirigido por Fenton Bailey e Randy Barbato, chamado INSIDE DEEP THROAT (Por dentro do Garganta Profunda).

O artigo abaixo, escrito pela doutoranda em cinema pela Universidade de Nova York, Cecília Sayad, dá-nos uma boa noção do que foi o próprio GARGANTA PROFUNDA, através da análise do documentário sobre ele.


A saga de “Garganta Profunda”






Por Cecilia Sayad



Documentário conta a história do mítico pornô de 1972 sobre a mulher que tinha o clitóris na garganta


· Há filmes cujas ambições, tanto artísticas quanto comerciais, ficam muito aquém da fama que eles acabam por adquirir. "Garganta Profunda", o pornô feito em 1972, é típico exemplo dessa glória acidental, que resulta mais das circunstâncias de uma época do que do valor do filme em si, tomado isoladamente.





· É com um misto de nostalgia, romantismo e reducionismo que o documentário "Inside Deep Throat" (Dentro da Garganta Profunda), dirigido por Fenton Bailey e Randy Barbato, e atualmente um dos filmes mais comentados nos Estados Unidos, revela o que há de irônico e trágico na trajetória deste que foi um marco na história do cinema pornográfico.




. Na narrativa o documentário nos oferece, o aspecto lúdico da feitura de "Garganta", dirigido pelo ex-cabeleireiro Gerald Damiano (que então assinava Jerry Gerard), contrasta tanto com o calor de sua recepção quanto com o furor que gerou da parte dos guardiões da moral e dos bons costumes. Assim como a qualidade artística do filme, definido como ruim pelo próprio Damiano, é desproporcional ao impacto que “Garganta” exerceu sobre a sociedade estadunidense do início dos anos 70.




· A saga do emblemático pornô começa quando Damiano maravilha-se com a capacidade bucal da atriz Linda Lovelace e escreve um filme sobre uma mulher cujo clitóris se localiza na garganta, permitindo-lhe ter prazer com sexo oral. O filme, como muitos do gênero patrocinado pelo crime organizado, viu seu sucesso expandir-se para além do circuito pornográfico. Com a explosão, veio a censura; e, com o protesto contra a censura, maior repercussão.




· Imagens dos anos 70 mostram celebridades, como Jack Nicholson e Warren Beatty, defendendo "Garganta" contra uma suposta onda de moralismo. Em depoimentos exclusivos para o documentário, escritores como Norman Mailer, Gore Vidal e Camille Paglia especulam sobre o impacto do filme em discussões sobre a representação da sexualidade. Havia também rumores de que "Garganta" abriria o caminho para cenas de sexo mais explícitas em filmes do circuito “mainstream” – e, mesmo, de que Stanley Kubrick teria em sua agenda o projeto de um filme pornográfico.




· Os momentos de vitória daqueles que fizeram "Garganta", porém, foram muito mais efêmeros do que as glórias que o filme colheu. Enquanto "Garganta" foi, bem ou mal, eternizado como símbolo de uma geração, como possibilidade de desguetização de um gênero marginal, o ator principal, Harry Reems, foi condenado a cinco anos de prisão por obscenidade e mergulhou em drogas e álcool, ao ver as promessas de uma carreira em Hollywood naufragarem em vista de sua estigmatização como ator pornô.





· Por sua vez, Lovelace, que passou do anonimato às páginas da "Playboy", posteriormente condenou o filme e a indústria pornográfica, afirmando, em rede nacional, que o que vemos em "Garganta" é o seu estupro. Tal depoimento adquiriu proporções enormes, quando se chamou a atenção para a presença de hematomas no corpo da atriz, que poderiam ser observados nas cenas de nudez do próprio "Garganta".





· Mais tarde, comprovou-se que os hematomas haviam sido causados por seu marido, que hipnotizava e abusava fisicamente da emergente estrela pornô. Ironicamente, Lovelace voltou a posar nua em seus 50 e poucos.

· Damiano, finalmente, foi dos três o menos pessoalmente abalado; em compensação, o diretor nunca se beneficiou dos lucros do filme, que custou US$ 25 mil e rendeu US$ 600 milhões na bilheteria, sendo alardeado pelo documentário, talvez imprecisamente, como o filme mais rentável da história do cinema.






· Se a palavra de ordem na narrativa sobre o percurso de "Garganta Profunda" é desproporção, principalmente do seu legado artístico com relação ao debate político que gerou, resta saber se o valor atribuído ao filme por "Inside Deep Throat" não reflete também certa dose de exagero. Impressão causada, em certa medida, pelos eventos relacionados ao filme que acabam ou mal explorados ou forçados numa estrutura artificial; eventos sacrificados em nome de um ritmo ágil e uma narrativa fechada, preocupada em forjar continuidade e logicidade entre os fatos relacionados.




· Daí, por exemplo, a superficialidade da associação que o documentário faz entre o filme e a fonte que denunciou o caso Watergate aos jornalistas do "Washington Post" -fonte esta apelidada "Garganta Profunda". Em entrevista, Bailey afirma que tanto um quanto o outro denunciavam uma "verdade": a de uma sexualidade reprimida no caso do filme e a de um governo corrupto no caso que levou à renúncia de Nixon em 1974.




· Em vez de precisão, o que "Inside Deep Throat" nos oferece é uma defesa do livre discurso, da abertura no tratamento da sexualidade. O mérito de "Garganta", segundo alguns dos entrevistados, era que o filme chamava a atenção para o prazer da mulher.




· Na visão de Bailey e Barbato, a mesma dupla que dirigiu "Party Monster"(*), "Garganta Profunda" marcou, além da emancipação da mulher, uma época em que a indústria pornográfica era sinal de rebeldia; como diz uma ex-atriz de cinema pornô em depoimento ao filme, o que hoje em dia se faz por dinheiro nos anos 70 se fazia por transgressão. Este depoimento é tão questionável quanto a sugestão, em talk shows com a presença de feministas, de que as intelectuais que antes lutavam pela liberação sexual da mulher nos anos 60 e 70 passaram a repudiar sexo de maneira geral, já que a mulher seria sempre e inevitavelmente tornada objeto.






· Por um lado seria injusto dizer que os diretores simples e descaradamente romantizam "Garganta". Em relação à idéia de que o filme seria uma ode ao sexo oral, sempre condenado socialmente, "Inside" mostra tanto a ex-editora da "Cosmopolitan" Helen Gurley Brown dizendo que o esperma do homem faz bem para a pele quanto uma atriz pornô afirmando que o sexo oral nunca é prazeroso para a mulher.





· Por outro lado, o documentário coloca o filme num suposto momento privilegiado em que a pornografia era feita com paixão, possuía aspirações artísticas e, para muitos, servia como iniciação em uma carreira de cinema. Wes Craven afirma que participou da produção de filmes pornôs, preferindo, todavia, não entrar em detalhes. Em suma, o documentário nos revela uma produção pornográfica que se impunha como forma alternativa de cinema, uma espécie de nouvelle vague ou cinema novo ou Dogma, em que cineastas conseguiam produzir filmes com pouco dinheiro e muita liberdade.





· A contrapartida para esse olhar ingênuo sobre o pornô é a constatação de que o que era supostamente sinal de rebeldia, hoje virou pura exploração financeira. Se a produção de filmes se multiplicou, eles foram relegados às prateleiras de videolocadoras – salas de cinema pornô ficaram para a história e, diz Damiano, o "valor artístico" das novas produções é nulo.





· Críticos de cinema como Anthony Lane ("New Yorker") e Manohla Dargis ("New York Times") atacaram "Inside Deep Throat" por supervalorizar o fenômeno "Garganta Profunda". Apesar de pecar pela artificialidade de algumas relações, "Inside Deep Throat" vale como protesto contra o tipo de hipocrisia que fez com que Charles Keating Jr., líder da liga pela decência que perseguiu tanto Larry Flynt quanto "Garganta", fosse pouco depois preso num escândalo financeiro. Ainda que a idealização de uma época muitas vezes soe ingênua, o filme não deixa de ser um grito ainda necessário.






(*) Party Monster é um filme de 2003 sobre o nascimento da cultura clubber, ou os "club kids" como eram chamados na época, vista aos olhos de um de seus criadores, Michael Alig.





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