terça-feira, 6 de outubro de 2009

QUEM TEVE MEDO DE ODETE RIOS?






Odete Rios? 

Talvez, assim, com esse nome, ninguém se lembre. Mas estou falando de uma escritora “maldita”, que vendeu livros como ninguém, no Brasil, nos anos 70.

E por que “maldita”, se obteve tanto sucesso?

Execrada pela censura militar da época, aqueles truculentos que não gostavam de sexo, CASSANDRA RIOS – esse o seu nome de escritora – provocava arrepios não só na molecada ansiosa por algo mais que atiçasse sua libido, mas também na sociedade conservadora da época (digo “sociedade conservadora da época” no sentido de que toda época tem sua sociedade conservadora e parece que continuará tendo), por ser uma “escritora lésbica” (como se opção sexual fosse categoria literária) e escrever com liberdade sobre assuntos que eram tabus.

Morreu em 2002, praticamente esquecida. E esquecida permanece até hoje, pelo menos para o grande público.

Tem, no entanto, alguns poucos apreciadores de sua arte, de sua literatura, que hoje já não causaria tanto furor, tanto uterino quanto entusiástico. Espalham-se por aí, em blogs lésbicos, principalmente.

Não merece o esquecimento, porque assim como Carlos Zéfiro, com seus quadrinhos eróticos, também CASSANDRA RIOS contribuiu, e muito, para a melhor compreensão e aceitação da pluralidade sexual.

Para degustar, um pequeno trecho de 


CARNE EM DELÍRIO





“Nesse momento, Roberto acercou-se dela e inadvertidamente abraçou-a pela cintura. Cristina tentou desvencilhar-se de seus braços. Não queria que ele percebesse que estava chorando. Ele porém a reteve fortemente contra o peito,

— Cristina... parece incrível que depois de um mês de casados eu tenha sempre que excitá-la... exigir que seja minha... que me faça carinhos...
— Roberto... não falemos nisso agora, por favor...
— Sempre a mesma coisa. Quero-a, Cristina. Não é possível continuar assim...
— Dessa maneira? — completou ela enraivecida. — Você nunca me deu oportunidade para demonstrar-lhe minha grati...
Roberto apertou-a rudemente impedindo-a de terminar e encolerizado esbravejou:
— Isso mesmo! Gratidão! Gratidão por tê-la querido quando já pertencera a outro... outro que nem sequer pôde viver para livrá-la de cair no ridículo... E será que ele se casaria mesmo, depois de ter...
— Oh!... Como pode ser tão cruel?... — Depois ela não disse nada. Sufocou o pranto que lhe estourava no peito.
Tentou ainda livrar-se dos braços dele, porém não conseguiu. Ele estava colado nela como um polvo. Imobilizou-a e ferindo-a com a pressão forte de seus membros retesados.
— Cristina... eu a desejo...
Roberto delirava ofegante. Suas mãos percorriam-lhe o corpo desenfreadamente. Agarrava-a ainda pelas costas. Apalpou-lhe os seios por cima da fazenda fina do negligé, tateou-a inteira, querendo conhecê-la mais do que já conhecia, Mordiscou-lhe a nuca resmungando impropérios.
Cristina parecia desfalecer de pavor. Não podia ser Roberto aquele homem de cuja boca saíam palavras tão chocantes. Sentiu uma onda de frio e de calor percorrer a espinha, como se sentisse prazer.
— Oh!... solte-me, Roberto... não quero... não quero...
Correram pelo quarto numa luta tumultuosa, derrubaram mesas e cadeiras. Vasos foram espatifados. Roberto subjugou-a e atirando-a sobre a cama, desnorteado, arrancou uma a uma as peças que a vestiam e, como um animal, possuiu-a, esbravejando que ela lhe pertencia.
Deixou-a depois ofegante e saiu do quarto, rastejando como um animal ferido. 

Cristina meio desfalecida comprimia as mãos contra o peito e chorava baixinho.

Ah! se tivesse surgido alguém para salvá-la das garras daquele bruto! Alguém forte e destemido.”







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