terça-feira, 27 de outubro de 2009

O LOUVA-A-DEUS









Assunto estranho, você pode pensar, para ser tratado num blog que fala de sensualidade e sexualidade. Mas será um assunto que dará pano pra manga, como se dizia antigamente (epa!).


O louva-a-deus é um bicho estranho. Além desse nome carola, tem mistérios de que duvidaria até o Shakespeare. E mais: gerou uma longa e mais estranha ainda teoria, ou filosofia, sei lá, de um autor francês chamado Roger Caillois, que escreveu um livro chamado "La mante religieuse, de la biologie à la psychanalyse" [O louva-a-deus, da biologia à psicanálise], em que relaciona a morte desse inseto às teorias do marquês de Sade.


Vou tentar falar um pouco sobre isso, mais adiante. Por enquanto, só o que digo sobre o louva-a-deus é que, em muitos casos, a fêma (que é bem menor) deglute a cabeça do macho (e às vezes o corpo todo) durante ou após o coito. É uma forma de sobrevivência, por incrível que possa parecer. Também falarei disso mais tarde.


Hoje, como introdução a esse inseto carnívoro e... canibal, apresento-lhes um poema de minha autoria. Degustem-no e aguardem mais estórias do Caillois, do Bataille e do Breton, que estão envolvidos no estudo do gafanhoto e de sua relação com alguns aspectos da sexualidade humana, em que entra até mesmo o Divino Marquês, o Sade.










LOUVA-A-DEUS




Como as mulheres.
Sim, como-as, sim.
E por que não as comeria,
Se para comê-las
Sou nascido?
Mas não as como, simplesmente,
Assim, sem mais nem menos.
Como-as com traquejo,
Com todo o meu jeito
De comer sem machucar,
Sem lhes fazer qualquer dano,
Gentleman que sou,
Generoso que sou.
E depois de as comer
Assim, muito bem comidas,
Dou-me inteiro para elas,
E como bom louva-a-deus,
Deixo-me devorar,
Inteiramente,
Generoso que sou:
Como todas as mulheres.



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

TRAIÇÃO: VENENO OU ELIXIR?





(Graça Martins)

Li algures e conto para vocês que, em tribos da África, maridos traídos se vingam envenenando os próprios pênis. Preparam o veneno e o antídoto. Tomam o antídoto e depois lambuzam o pênis com o veneno. Transam com suas mulheres (os mais bonzinhos dão antídotos para as esposas também), e quando o Ricardão chega para se divertir, é acometido por uma dor alucinante, parecida com queimadura, que o deixa gravemente doente. As tribos Ngoni e Zulu usam uma poção que não causa a morte, mas a impotência.


(Graça Martins)

Fiquei pensando, então, sobre a traição. Será um veneno ou um elixir para o relacionamento amoroso?


(A. não identificado)

Se há mágoas, sofrimento e até morte, quando há traição, há também sublimação, literatura, arte. E há os que gostam – por que não? - de ser traídos. De ver o parceiro ou parceira nos braços de “um outro qualquer”. Haja vista a quantidade de casais que praticam o swing. Mas, tudo isso é conversa fiada, para falar um pouquinho de música.


(Igor Amelkovich)

Porque dor de corno dá música. E, muita música. Como existem canções que falam de traição, na MPB, não? Talvez a dor de corno seja a maior musa de nossos compositores. E dentre eles, um que soube como ninguém falar de amores perdidos e traídos é, sem dúvida, Lupicínio Rodrigues.




(Jaeda Dewalt)
Vejam os versos desta canção – Nervos de Aço – como um exemplo acabado de dor de corno. E, depois do último verso, pensem na vingança dos africanos:






“Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar este amor, meu senhor
Nos braços de um outro qualquer



Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá lo em um braço
Que nem um pedaço do seu pode ser



Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que passo
Talvez não lhe venha qualquer reação



Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor”



Pois, é: hoje estou mais para "romantismo" do que para sexo. Acontece.



(Rowlandson)





segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A POETA BRUNA LOMBARDI




Não posso negar: sempre admirei a beleza mignonne de Bruna Lombardi, o sex-apeal de Bruna Lombardi. 

E a cabeleira loira de Bruna Lombardi?


Bruna: mulher e atriz. Não sei se mais mulher ou mais atriz. Sempre gostei dela, no entanto.



O tempo passa. As pessoas passam. Bruna já não é jovem. Continua bela, continua mignonne, com sua cabeleira loira. Agora, talvez, mais mulher. Agora, talvez, mais atriz.



E descubro que, naquela mulher bela há também uma bela poeta. Fiquei ainda mais fã. Por isso, deixo com vocês, leitoras e leitores desse blog meio sem eira nem beira, um pequeno e delicioso poema de Bruna Lombardi, ilustrado por ela mesma (quem mais?):





Uma mulher







Uma mulher caminha nua pelo quarto

é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela

a cor da pele, dos pelos, o cabelo

o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca

uma mulher é feita de mistérios

tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora

o homem que descobre uma mulher

será sempre o primeiro a ver a aurora.





quinta-feira, 15 de outubro de 2009

“A HISTÓRIA DA V”, DE CATHERINE BLACKLEDGE





(Anthony Christian)



Nas minhas andanças (ou seriam “viagens”?) pela blogosfera, sempre encontro artigos interessantes sobre sexo. Desta vez, pousei num site português, chamado “O Coiso” (sei lá por quê), onde deparei com a sinopse de um livro – A HISTÓRIA DA V. – sendo V nada mais nada menos do que VAGINA. Dou a palavra ao português (de Portugal, que tem sotaque até na escrita, mas cujo estilo é saboroso, por isso mantenho até a ortografia). Não sei a profissão do gajo, portanto o último parágrafo é tão misterioso para mim como será para você, leitor ou leitora.



Divirta-se:








Catherine Blackledge é doutorada em Ciências e uma conhecida jornalista científica inglesa. Para escrever este livro procedeu a uma investigação exaustiva sobre a vagina, em todas as suas vertentes: histórica, científica, mitológica, antropológica, etc.


(Manara)



Aprendemos muito com este livro. Blackledge não se poupou a esforços para realçar o papel que a vagina tem na nossa vida, chamando a atenção para o facto de esse papel ter sido subalternizado durante séculos, não só devido aos conceitos morais vigentes, liderados por homens, mas também devido a uma certa cegueira científica. Como é possível, por exemplo, que a Ciência tenha deliberadamente ignorado muitos factos sobre a importância da vagina, já detectados pelos Antigos? Neste particular, o papel obscurantista da Igreja é notável.


(Mark Blanton)



Penso que vale a pena transcrever algumas passagens deste livro, embora nada disto substitua a sua leitura integral. Sobre a concepção, por exemplo: o papel determinante da mulher na concepção, melhor, o papel único, já que, para os Antigos, só a mulher estava implicada na concepção.




(Manara)


“O poeta grego Homero revela o quanto os homens ainda esperavam um papel principal na concepção, com a sua descrição de como as éguas são fertilizadas pelo vento. Uma teoria posterior propunha que o ar estava cheio de microscópicos ‘animálculos’ etéreos que, por acaso, o vento ou a corrente de ar penetravam na mulher e a engravidavam. (…) A versão cristã da concepção da Virgem Maria diz que ela foi ‘visitada’ por um Espírito Santo etéreo. Em contraste, os ilhéus das Trobriand contam como Bolutukwa, mãe de Tudava, seu herói lendário, concebeu quando gotas de água penetraram na sua virginal vagina.”




(Paul Delvaux)



Quer dizer: parece que os homens não tinham nenhum papel na concepção. A importância da mulher na perpetuação da espécie era essencial para os povos antigos. Sobretudo para certas culturas orientais, a vagina era (e é) sacralizada, em vez de ser demonizada, como acontece no ocidente, sobretudo depois da Idade Média e da Inquisição.



(A. não identificado)


Blackledge coscuvilhou e encontrou coisas curiosas, como a ligação entre chifres, fertilidade e útero. Os médicos sabem que, segundo a anatomia humana, o útero tem cornos. Diz a autora: “a associação entre um homem corneado e chifres prevalece em toda a Europa meridional. Em português (cornudo ou cabrão), em espanhol (cornudo), em catalão (cornut ou cabron), em francês (cocu) e em grego (ketatas), a palavra para a pessoa corneada quer dizer ‘o que foi corneado’ ou ‘aquele que transporta os chifres’. (…) É significativo que esse termo só se aplique a homens, nunca a mulheres”.




(Mark Blanton)


A autora procura também decifrar o significado das palavras relacionadas com a vagina. “Na verdade coño é uma palavra tão vulgar em Espanha (embora seja usada como imprecação) que, tal como os ingleses foram chamados de fuckoffs pelos franceses, no Chile e no México, os espanhóis são conhecidos como coños. (…)


(Georgia O'Keef)




A dicotomia do significado de cona também é visível noutras regiões da Europa. Em Itália, figa (cona) não é um insulto nem um palavrão. Trata-se, pelo contrário, de uma imprecação bastante comum (depois de cazzo – caralho – talvez seja a mais usada). Figa é a forma falada, e fica, o termo escrito. Che figa! É, de facto, uma expressão brejeira. Pode aplicar-se a pessoas, ‘que pedaço de mulher!’, a objectos – Che festa figa! – ‘que bela festa!’ e a situações, ‘que sorte!’ (…) No entanto, na Alemanha, tal como na Grã-Bretanha, cunt ou fotze são os supremos tabus. Mas fotze é igualmente uma antiga palavra para boca.”




(Manara)




Blackledge dedica muitas páginas ao clítoris e acho muito bem. Pena que muita gente nem sequer saiba muito bem onde fica o clítoris. Mais uma vez, a autora mostra como a Ciência escondeu, durante séculos, as descrições que anatomistas antigos fizeram desse órgão glorioso, como ela lhe chama, e com razão. De tal modo, que até parece que o clítoris só foi descoberto no século 17, quando existem descrições pormenorizadas dessa órgão em escritos antiquíssimos.




(Manara)


Neste particular, entram em acção os puritanos. Blackledge conta como, no final do século 19 e princípio do 20, a clitoridectomia esteve tão na moda, para resolver problemas de histeria e outros. “Kellog, o rei dos flocos de aveia, (…) defendia que se despejasse ‘fenol concentrado no clítoris’, caso as jovens continuassem a satisfazer-se sozinhas”. O que era preciso é que as mulheres não sentissem prazer. O papel das mulheres e da vagina, como simples receptoras do esperma para a concepção, dominou (domina?) o pensamento durante séculos.



(Autor não identificado)



São deliciosas, as lendas que a autora conta sobre o clítoris e a vagina, sobretudo as que são contadas em algumas ilhas do Pacífico, no Amazonas e também em África. Só por essas histórias, o livro vale a pena. As histórias da vagina dentada, que comia os pénis, são muito engraçadas.


 (A. não identificado)




O papel da vagina na relação sexual é bem destacado pela autora. Contradizendo a ideologia dominante, de uma vagina passiva, mero receptáculo do esperma, Blackledge explica como a vagina é essencial, por exemplo, na escolha dos espermatozóides mais promissores e como participa activamente na relação sexual. Os exemplos são às dezenas, das besouras às macacas. Baseada na teoria evolucionista, a autora mostra-nos como as fêmeas controlam tudo, no que respeita à perpetuação das espécies.




(Dubigeon)



E dá exemplos deliciosos: “o escritor francês Gustave Flaubert refere-se com entusiasmo aos seus encontros com as prostitutas profissionais exiladas na cidade egípcia de Esneh: ‘a sua cona ordenhava-me como rolos de veludo – eu enloquecia.” Através do mundo, Shilihong era uma profissional de sexo de Xangai famosa pelo seu excepcional controlo dos músculos vaginais. Consta que era capaz de movimentar o pénis do homem para dentro e para fora, simplesmente contraindo e relaxando os seus músculos, movimento que produzia uma sensação de sucção. Diz-se igualmente que a ‘chupeta de Xangai’, de Wallis Simpson, foi um dos motivos pelo qual a Grã-Bretanha perdeu um rei em 1936. Comentava-se que a Sra. Simpson conseguia que um palito de fósforo se sentisse um charuto de Havana”.



(Manara)


Pesquisando a literatura, Blackledge acaba por descobrir que, afinal, também as mulheres têm próstata ou, pelo menos, um tecido semelhante à próstata, algures na parede ventral da vagina, naquilo a que se convencionou chamar o ponto G – aquele que, estimulado, provocaria, indubitavelmente, o orgasmo da mulher. Afinal, como muita gente já desconfiava, a mulher possui diversos tipos de orgasmos, com o clitoridiano à cabeça. Sempre baseada em estudos, a autora avança mesmo com algumas ideias revolucionárias, como o facto de existirem semelhanças entre as estruturas tecidulares da tal próstata feminina e do nariz. Por isso, se percebe a importância do cheiro para as relações bem sucedidas. Quando uma mulher diz “este tipo não me cheira”, é natural que a relação não avance…





(Autor não identificado)



A importância do orgasmo para a concepção, o facto de os vibradores terem sido um dos primeiros utensílios domésticos a serem electrificados, a moda de os médicos dos finais do século 19 e princípios do século 20, masturbarem as suas pacientes, para as “curarem” das histerias e, simultaneamente, a Ciência condenar a masturbação feminina – tudo isso e muito mais percorre este livro interessantíssimo e que nos fez passar um bom bocado.


(Manara)


Aconselhamo-lo a toda a gente, nomeadamente a colegas de profissão, que, da vagina, só devem ter uma pálida ideia.



(Lucien Freud)






Sunday, September 3rd, 2006




sexta-feira, 9 de outubro de 2009

QUEM TEVE MEDO DO GARGANTA PROFUNDA?







Richard Nixon, com certeza, não só teve medo, mas ódio. “Garganta Profunda” foi o codinome da fonte jornalística que levou à denúncia do escândalo chamado Watergate, que provocou sua renúncia.



Mas, não é do Nixon nem de seus escândalos que vamos falar, e sim, de um filme de 1972, dos Estados Unidos: DEEP THROAT ou, como ficou conhecido no Brasil, GARGANTA PROFUNDA (em Portugal, Garganta Funda), dirigido por Gerard Damiano e estrelado por Linda Lovelace.

Causou, claro, escândalo na época, por ser uma ode mais do que explícita ao sexo oral. Sua historinha é ridícula: uma mulher (Linda Lovelace) não consegue chegar ao orgasmo, apesar de todas as tentativas possíveis. Um médico descobre que ela tem o clitóris na garganta. Pronto: está resolvido o mistério. Agora, é só ela encontrar pênis grandes o bastante para atingi-lo e ela conseguirá o tão esperado orgasmo.




Saudado, na época, apesar de todos os protestos dos moralistas de sempre, como liberador dos costumes, como liberador da sexualidade feminina e outras coisas mais, causou uma profunda mudança na indústria de filmes pornográficos.



Linda Lovelace, a protagonista, morreu em 2002, vítima de ferimentos causados por uma acidente automobilístico. Depois de Deep Throat, tentou filmes mais leves, mas não obteve sucesso e, nos seus últimos anos, fez campanha contra a exploração e as irregularidades da indústria pornô.





Em 2005, a Universal Pictures distribuiu um filme, na verdade, um documentário dirigido por Fenton Bailey e Randy Barbato, chamado INSIDE DEEP THROAT (Por dentro do Garganta Profunda).

O artigo abaixo, escrito pela doutoranda em cinema pela Universidade de Nova York, Cecília Sayad, dá-nos uma boa noção do que foi o próprio GARGANTA PROFUNDA, através da análise do documentário sobre ele.


A saga de “Garganta Profunda”






Por Cecilia Sayad



Documentário conta a história do mítico pornô de 1972 sobre a mulher que tinha o clitóris na garganta


· Há filmes cujas ambições, tanto artísticas quanto comerciais, ficam muito aquém da fama que eles acabam por adquirir. "Garganta Profunda", o pornô feito em 1972, é típico exemplo dessa glória acidental, que resulta mais das circunstâncias de uma época do que do valor do filme em si, tomado isoladamente.





· É com um misto de nostalgia, romantismo e reducionismo que o documentário "Inside Deep Throat" (Dentro da Garganta Profunda), dirigido por Fenton Bailey e Randy Barbato, e atualmente um dos filmes mais comentados nos Estados Unidos, revela o que há de irônico e trágico na trajetória deste que foi um marco na história do cinema pornográfico.




. Na narrativa o documentário nos oferece, o aspecto lúdico da feitura de "Garganta", dirigido pelo ex-cabeleireiro Gerald Damiano (que então assinava Jerry Gerard), contrasta tanto com o calor de sua recepção quanto com o furor que gerou da parte dos guardiões da moral e dos bons costumes. Assim como a qualidade artística do filme, definido como ruim pelo próprio Damiano, é desproporcional ao impacto que “Garganta” exerceu sobre a sociedade estadunidense do início dos anos 70.




· A saga do emblemático pornô começa quando Damiano maravilha-se com a capacidade bucal da atriz Linda Lovelace e escreve um filme sobre uma mulher cujo clitóris se localiza na garganta, permitindo-lhe ter prazer com sexo oral. O filme, como muitos do gênero patrocinado pelo crime organizado, viu seu sucesso expandir-se para além do circuito pornográfico. Com a explosão, veio a censura; e, com o protesto contra a censura, maior repercussão.




· Imagens dos anos 70 mostram celebridades, como Jack Nicholson e Warren Beatty, defendendo "Garganta" contra uma suposta onda de moralismo. Em depoimentos exclusivos para o documentário, escritores como Norman Mailer, Gore Vidal e Camille Paglia especulam sobre o impacto do filme em discussões sobre a representação da sexualidade. Havia também rumores de que "Garganta" abriria o caminho para cenas de sexo mais explícitas em filmes do circuito “mainstream” – e, mesmo, de que Stanley Kubrick teria em sua agenda o projeto de um filme pornográfico.




· Os momentos de vitória daqueles que fizeram "Garganta", porém, foram muito mais efêmeros do que as glórias que o filme colheu. Enquanto "Garganta" foi, bem ou mal, eternizado como símbolo de uma geração, como possibilidade de desguetização de um gênero marginal, o ator principal, Harry Reems, foi condenado a cinco anos de prisão por obscenidade e mergulhou em drogas e álcool, ao ver as promessas de uma carreira em Hollywood naufragarem em vista de sua estigmatização como ator pornô.





· Por sua vez, Lovelace, que passou do anonimato às páginas da "Playboy", posteriormente condenou o filme e a indústria pornográfica, afirmando, em rede nacional, que o que vemos em "Garganta" é o seu estupro. Tal depoimento adquiriu proporções enormes, quando se chamou a atenção para a presença de hematomas no corpo da atriz, que poderiam ser observados nas cenas de nudez do próprio "Garganta".





· Mais tarde, comprovou-se que os hematomas haviam sido causados por seu marido, que hipnotizava e abusava fisicamente da emergente estrela pornô. Ironicamente, Lovelace voltou a posar nua em seus 50 e poucos.

· Damiano, finalmente, foi dos três o menos pessoalmente abalado; em compensação, o diretor nunca se beneficiou dos lucros do filme, que custou US$ 25 mil e rendeu US$ 600 milhões na bilheteria, sendo alardeado pelo documentário, talvez imprecisamente, como o filme mais rentável da história do cinema.






· Se a palavra de ordem na narrativa sobre o percurso de "Garganta Profunda" é desproporção, principalmente do seu legado artístico com relação ao debate político que gerou, resta saber se o valor atribuído ao filme por "Inside Deep Throat" não reflete também certa dose de exagero. Impressão causada, em certa medida, pelos eventos relacionados ao filme que acabam ou mal explorados ou forçados numa estrutura artificial; eventos sacrificados em nome de um ritmo ágil e uma narrativa fechada, preocupada em forjar continuidade e logicidade entre os fatos relacionados.




· Daí, por exemplo, a superficialidade da associação que o documentário faz entre o filme e a fonte que denunciou o caso Watergate aos jornalistas do "Washington Post" -fonte esta apelidada "Garganta Profunda". Em entrevista, Bailey afirma que tanto um quanto o outro denunciavam uma "verdade": a de uma sexualidade reprimida no caso do filme e a de um governo corrupto no caso que levou à renúncia de Nixon em 1974.




· Em vez de precisão, o que "Inside Deep Throat" nos oferece é uma defesa do livre discurso, da abertura no tratamento da sexualidade. O mérito de "Garganta", segundo alguns dos entrevistados, era que o filme chamava a atenção para o prazer da mulher.




· Na visão de Bailey e Barbato, a mesma dupla que dirigiu "Party Monster"(*), "Garganta Profunda" marcou, além da emancipação da mulher, uma época em que a indústria pornográfica era sinal de rebeldia; como diz uma ex-atriz de cinema pornô em depoimento ao filme, o que hoje em dia se faz por dinheiro nos anos 70 se fazia por transgressão. Este depoimento é tão questionável quanto a sugestão, em talk shows com a presença de feministas, de que as intelectuais que antes lutavam pela liberação sexual da mulher nos anos 60 e 70 passaram a repudiar sexo de maneira geral, já que a mulher seria sempre e inevitavelmente tornada objeto.






· Por um lado seria injusto dizer que os diretores simples e descaradamente romantizam "Garganta". Em relação à idéia de que o filme seria uma ode ao sexo oral, sempre condenado socialmente, "Inside" mostra tanto a ex-editora da "Cosmopolitan" Helen Gurley Brown dizendo que o esperma do homem faz bem para a pele quanto uma atriz pornô afirmando que o sexo oral nunca é prazeroso para a mulher.





· Por outro lado, o documentário coloca o filme num suposto momento privilegiado em que a pornografia era feita com paixão, possuía aspirações artísticas e, para muitos, servia como iniciação em uma carreira de cinema. Wes Craven afirma que participou da produção de filmes pornôs, preferindo, todavia, não entrar em detalhes. Em suma, o documentário nos revela uma produção pornográfica que se impunha como forma alternativa de cinema, uma espécie de nouvelle vague ou cinema novo ou Dogma, em que cineastas conseguiam produzir filmes com pouco dinheiro e muita liberdade.





· A contrapartida para esse olhar ingênuo sobre o pornô é a constatação de que o que era supostamente sinal de rebeldia, hoje virou pura exploração financeira. Se a produção de filmes se multiplicou, eles foram relegados às prateleiras de videolocadoras – salas de cinema pornô ficaram para a história e, diz Damiano, o "valor artístico" das novas produções é nulo.





· Críticos de cinema como Anthony Lane ("New Yorker") e Manohla Dargis ("New York Times") atacaram "Inside Deep Throat" por supervalorizar o fenômeno "Garganta Profunda". Apesar de pecar pela artificialidade de algumas relações, "Inside Deep Throat" vale como protesto contra o tipo de hipocrisia que fez com que Charles Keating Jr., líder da liga pela decência que perseguiu tanto Larry Flynt quanto "Garganta", fosse pouco depois preso num escândalo financeiro. Ainda que a idealização de uma época muitas vezes soe ingênua, o filme não deixa de ser um grito ainda necessário.






(*) Party Monster é um filme de 2003 sobre o nascimento da cultura clubber, ou os "club kids" como eram chamados na época, vista aos olhos de um de seus criadores, Michael Alig.