quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O ESCRACHO





(Autor não identificado)


Muitas vezes, as musas partem para o escracho. É a poesia intencionalmente zombeteira, para fazer rir e dar uma lição de moral ou um esculacho em alguma instituição ou em alguém. Acho estranho que esse tipo de poesia, freqüentemente para ser cantada, não tenha muita tradição em língua portuguesa. Em francês, encontram-se, por exemplo, as CHANSONS PAILLARDES, numa tradução livre: canções sacanas. Voltaremos a elas. Por enquanto, quero publicar aqui um texto de um de nossos melhores cômicos, ARY TOLEDO:




O CHEFE


(Aubrey Beardsley)




Pela primeira vez
Que o corpo humano foi feito
Os órgãos reivindicaram
O que achavam direito
Discutindo pra valer
Todos queriam ser
O chefe de qualquer jeito.

O cérebro foi o primeiro
Que começou a falar
“Como eu comando o corpo
E posso raciocinar
Eu serei o chefe então
Creio que estou com a razão
Sou eu que vou chefiar”

“Não senhor!” disse o pulmão
“É minha vez de falar
Eu que mereço ser chefe
Eu que purifico o ar
Fazendo a transformação
Produzo a respiração
Para o corpo trabalhar.”

“Eu é que serei o chefe”
Já falou o coração
“Sou eu que irrigo o corpo
Produzindo a pulsação
Sou vermelho como a rosa
Sou cantado em verso e prosa
Sou fonte de inspiração”






Ouviu-se uma voz bem alta
No auge da discussão
Era o cu manifestando
Dando a sua opinião
“Eu serei o chefe aqui!”
Penso que já convenci
Tá resolvida a questão.”

Houve um silêncio e depois
Gargalhadas no salão
O cu, querendo ser chefe?!
Era muita pretensão!
Além de todo enrugado
Fedido feio e cagado
Foi aquela gozação.

O cu sentiu-se humilhado
Ofendido e quase a chorar
Disse: “Um dia vocês
Vão ter que se desculpar.”
Retirou-se da reunião
Falando a todo que não
Iria mais funcionar.

E alguns dias depois
Era uma grande agonia
Bexiga quase estourando
Porém, mijar não podia
Os olhos escurecendo
E o intestino querendo
Peidar mas não conseguia.




As pernas tavam tremendo
O nariz ficou tapado
O cérebro desritimado
O ouvido que não escuta
E o cu filho da puta
Continuava fechado.

Os órgãos desesperados
Ao cu foram implorar
Pra que ele fosse o chefe
Que passasse a funcionar
O pedido ele aceitou
E na mesma hora passou
Todo o corpo a chefiar.

Foi um alívio geral
A paz agora reinava
Porém lá em baixo “ele”
Dava as ordens... governava
Todo mundo trabalhando
E o cu só chefiando
Satisfeito só cagava.

Essa história tem moral
E aqui fica registrada
Pra ser chefe não precisa
Ter cérebro, meu camarada
Pra ser chefe podes crer
Basta ter cu e fazer
Todo dia uma cagada.









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