sexta-feira, 14 de novembro de 2008

POESIA ERÓTICA - 1



Há uma estranha maldição, quando se trata de poesia erótica: tenho observado que grandes poetas raramente escrevem boa poesia quando se trata de temas, digamos, mais fortes ou de teor mais erotizado.

No Brasil, creio haver uma exceção: um grande poeta e uma poesia erótica sem pejo e de grande qualidade. Estamos falando de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, em O AMOR NATURAL, de que deixo, aqui, uma pequena amostra:


O QUE SE PASSA NA CAMA



(A. não identificado)


(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pênis.



(A. não identificado)



Ai, cama canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme onça suçuarana,
dorme cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima… O pênis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama.




(André Leroux)

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